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A amizade entre quatro gigantes

A compilação das cartas trocadas entre os autores do boom latino é, além de informativa, divertida

A amizade entre quatro gigantes
A amizade entre quatro gigantes
A escrita e a vida. Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa e Julio Cortázar se correspondiam com frequência nas décadas de 1960 e 1970. O livro inclui ensaios e entrevistas – Imagem: Stefan Wallgren/AFP e Redes Sociais
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Eis um livro que não é apenas informativo, mas também divertido e que impressiona pelo trabalho por trás de sua construção: As Cartas do Boom, uma compilação de dezenas de cartas trocadas pelos escritores Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García­ Márquez e Mario Vargas Llosa.

Se cada um deles contribuiu com, ao menos, uma obra-prima para esse perío­do luminoso das letras latino-americanas – o boom das décadas de 1960 e 1970 –, ­suas correspondências são, por outro lado, abundantes. E a edição oferece um mergulho nos detalhes cotidianos das trajetórias desses artistas da escrita.

Um aspecto decisivo que surge da leitura das cartas é o caráter “internacional” da produção e da atuação desses escritores. Em 7 de abril de 1967, por exemplo, Carlos Fuentes envia um cartão-postal de Milão para Vargas Llosa, que está em Londres. O conteúdo, apesar de breve, é incontestavelmente relevante: Fuentes fala da proibição, pela censura espanhola (durante a ditadura de Francisco ­Franco), de seu último romance.

“Os motivos são estritamente pré-cartesianos”, ele escreve, e continua: “Pornográfico, comunista, anticristão, antialemão, pró-judeu e dedicado a Julio ­Cortázar!”. Uma nota de rodapé dos editores informa que Fuentes escreveu também ao chefe da censura espanhola – uma carta veiculada em várias revistas à época –, lamentando que “o cadáver putrefato da Santa Inquisição continuasse dando sinais de vida na Espanha”.

Ao longo das cartas, acompanhamos tanto a recepção daquilo que já está pronto quanto o processo de realização dos livros que ainda serão lançados.

Ou seja, a correspondência registra uma espécie de “laboratório” que antecede a cristalização editorial definitiva. Os bastidores, como não poderia deixar de ser, estão carregados de dúvidas e oscilação: “Queria mergulhar fundo em um romance que eu comecei no ano passado”, escreve Cortázar para Fuentes em 1971, “mas agora eu o encaro de longe e desconfio”.

AS CARTAS DO BOOM – J. Cortázar, C. Fuentes, G. García Márquez e M. Vargas Llosa. Tradução: Mariana Carpinejar. Editora Record (590 págs., 189,90 reais)

Esse processo permanente de fazer e refazer é potencializado pela situação política da América Latina como um todo – tema recorrente nas cartas dos quatro escritores. Literatura e mundo externo se atravessam continuamente: na resposta de Fuentes para Cortázar, em junho de 1971, ele escreve que “a história sempre cruza o nosso caminho” e, no México, isso acontece “com sangue, com morte, com acontecimentos terríveis que nos apagam as palavras possíveis, tamanha é a dor, o espanto e a raiva diante dos terríveis cadáveres”.

O livro, contudo, não se esgota nas cartas. Ele é complementado por “apêndices” de alto quilate. Há ensaios e entrevistas nos quais os quatro escritores comentam seus respectivos trabalhos, como uma resenha de Fuentes de Cem Anos de Solidão e outra, de Vargas Llosa, de O Jogo da Amarelinha. O volume contém ainda uma seção de “documentos”, que dão conta, sobretudo, da dimensão política referida, com destaque para a situação cubana.

É certo que cada leitor encontrará uma ressonância específica diante de um livro tão completo e tão complexo. A aproximação pode dar-se, em maior ou menor grau, pela via da amizade, da crítica política, da reflexão sobre a literatura ou pela via dos ciúmes e da competitividade – não nos esqueçamos do soco de Vargas Llosa em García Márquez em 1976, ano que pode ser considerado como o do encerramento do boom.

Se há uma constante nas cartas é o “prazer do texto”, o uso livre e criativo que os quatro escritores fazem da língua, tão bem exemplificada pela frase escrita por Cortázar para Fuentes, em setembro de 1975: “Acho que cravaste o punhal de um jeito que não permite réplica”. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa

Os protagonistas de Banho de Lua (Bazar do Tempo, 240 págs., 88 reais) integram quatro gerações de camponeses haitianos. A autora do livro é Yanick Lahens, nascida em Porto Príncipe e professora em Paris.
O romance ganhou o Prêmio Femina
em 2014 e chega agora ao Brasil.

Em Educação da Tristeza (Biblioteca Azul, 172 págs., 79,90 reais), Valter Hugo Mãe fala de “nossas pessoas eternas”, aquelas que nem a morte, essa experiência “indizível”, leva. Os textos, breves e soando a poesia, nascem dos sentimentos que a perda do sobrinho despertou no autor português.

Uma mansão vazia, espaço propício para o desenrolar de histórias de suspense e fantasia, serve de ponto de partida para O Último Dia da Vida Interior (Todavia, 120 págs., 72,90 reais), romance fantasmagórico do escritor espanhol Andrés Barba.

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A amizade entre quatro gigantes’

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