CartaCapital
Venha quem vier
“Nunca escolhemos adversários”, diz Edinho Silva, presidente do PT
A meteórica alta das intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas não surpreende Edinho Silva, presidente do PT. Resultado da “polarização”, afirma o ex-ministro e ex-prefeito de Araraquara, à frente da legenda em mais uma eleição decisiva tanto para o País quanto para o partido. “Sempre tive a leitura de que qualquer candidato que representasse o campo bolsonarista cresceria rapidamente.” O dirigente petista, na entrevista a seguir, nega que a agremiação tenha preferência por outro adversário, minimiza os efeitos da candidatura de Ronaldo Caiado (“é um problema da família Bolsonaro, não nosso”), afirma que a campanha por um quarto mandato do presidente apresentará aos eleitores um programa arrojado e moderno com uma perspectiva de futuro, em especial para as novas gerações, e espera uma mudança do humor da população quando se aproximar a hora da escolha. “No meio do ano, a situação será outra.”
CartaCapital: Com a impossibilidade de aliança com o MDB e partidos de centro-direita, esvaiu-se a ideia de uma frente ampla nos moldes daquela de 2022?
Edinho Silva: Nos moldes de 22, não. Naquela eleição, o MDB lançou candidatura própria, a Simone Tebet. A ideia é reunir em torno da candidatura do presidente Lula um amplo campo democrático. Haverá partidos que estarão conosco nacionalmente, coligados formalmente com o PT. E outros tendem a liberar lideranças estaduais a apoiar o presidente em seus redutos. Temos de entender essa complexidade de muitas legendas, entre elas o MDB, e construir as alianças nos estados.
CC: O desempenho de Flávio Bolsonaro nas pesquisas até este momento era esperado ou surpreendeu?
ES: Não surpreendeu. Pessoalmente, sempre tive a leitura de que qualquer candidato que representasse o campo bolsonarista iria crescer rapidamente. O nome pouco importa, importa quem vai se tornar o porta-voz desse campo político, dado o grau de polarização. Qualquer candidatura que se credenciasse a ocupar esse espaço cresceria. Sendo o Flávio Bolsonaro, cresce mais rápido, pois ele carrega o sobrenome da família…
CC: …Embora ele ande tentando esconder o sobrenome…
ES: …É uma operação de marketing, muito frágil na minha avaliação, pois, além de carregar o sobrenome Bolsonaro, ele é muito identificado com o bolsonarismo.
CC: É fato que o PT prefere enfrentar o Flávio Bolsonaro, por conta das fragilidades do clã, do que outro candidato, o Tarcísio de Freitas, por exemplo?
ES: Nunca escolhemos adversário. E nunca tivemos dúvida de que a eleição seria muito polarizada, como está sendo, independentemente do candidato que representasse o campo da ultradireita, dessa direita fascista.
“Qualquer candidatura do campo bolsonarista cresceria muito rápido”
CC: O PT considera como certa a candidatura do Flávio Bolsonaro ou o partido não se surpreenderia se houvesse uma troca antes do prazo final de inscrição das chapas?
ES: A família Bolsonaro escolheu como alternativa um legítimo representante. Então me parece que será mesmo o Flávio.
CC: O lançamento, pelo PSD, da candidatura do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, muda algo nesse cenário?
ES: Nada. Zero. Sabíamos que ele seria candidato. O Caiado é um representante da ultradireita e um problema para a família Bolsonaro, não nosso.
CC: Por que tem sido tão difícil, a despeito da melhora dos indicadores econômicos, vencer o mau humor do eleitorado? O que explica essa piora na avaliação do governo e do presidente Lula?
ES: De dezembro para cá se avolumaram as denúncias de corrupção, principalmente em relação ao Banco Master. Isso estimula o sentimento antissistema e, nestes momentos, quem perde é quem representa a estrutura de poder. A leitura da população é de que, se tem denúncias de corrupção, é culpa do governo de plantão, no caso, o governo Lula. Mas é um retrato do momento, não se sabe se essa percepção vai permanecer, se essa concepção será vitoriosa em outubro. Há muito espaço para a disputa política, principalmente se a sociedade entender o que acontece, quando decantar as informações. Não tenho dúvida de que vamos reverter esse cenário e que a candidatura do presidente Lula chegará no meio do ano em outra situação, bem como a avaliação do governo.
CC: O que o presidente Lula vai oferecer de diferente, fora a defesa das instituições democráticas, na campanha por um quarto mandato?
ES: Vamos apresentar um programa de governo arrojado, moderno, que vai mostrar um futuro com empregos de qualidade, em especial para a juventude e as futuras gerações.
CC: As pesquisas recentes em São Paulo deixam o partido mais animado com a candidatura do ministro Fernando Haddad ao governo?
ES: O Haddad está montando uma coordenação de campanha com nomes preparados que vão apresentar um programa de governo para São Paulo que seja uma alternativa de desenvolvimento econômico para o estado, com qualidade na prestação de serviços, resposta ao desafio da segurança pública e à privatização da educação e do saneamento básico
CC: O fim da jornada 6×1 vai passar?
ES: Essa é uma campanha do PT, dos movimentos sociais. É nossa. Quem estimula o Projeto de Lei no Congresso é o presidente Lula. Precisamos fazer o debate da reforma do mundo do trabalho. Primeiro, a trabalhadora e o trabalhador têm direito ao convívio familiar, ao lazer, à cultura, à formação profissional. Depois, a crise econômica mundial é também por excesso de produção e só há uma forma de aumentar a capacidade de consumo da sociedade diante da alta da produtividade, intensificada na virada do século XX para o XXI, por meio da expansão da base salarial. Com o fim da escala 6×1, aumentam-se as vagas de trabalho disponíveis, numa estrutura que tende a produzir cada vez mais com menos mão de obra. A reforma do tempo de trabalho é importante para tirar a economia mundial da crise. •
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Venha quem vier’
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