Terceira via, cavalo de Troia

A busca da opção que escapa da polarização, real ou imaginária, tem uma longa história. No Brasil atual, ela é falsa e distorcida

(Foto: Ricardo Stuckert)

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CartaCapital

A ideia da terceira via tem uma longa história, tão grande quanto a história das polarizações reais ou imaginárias entre opções políticas. Entre as versões mais conhecidas da terceira via nos últimos 150 anos, podemos distinguir as seguintes. A partir de meados do século XIX, a polarização entre capitalismo e socialismo instalou-se na Europa. A primeira versão de uma terceira via entre os dois polos é a doutrina social da Igreja proclamada na Encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII. A versão secular desta terceira via surge depois da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa.

Nessa altura, a polarização não era apenas entre ideologias, mas entre programas concretos de transformação social. A polarização política na Europa era então entre o capitalismo liberal e o socialismo bolchevique. A terceira via foi, num primeiro momento, o socialismo democrático e, mais tarde, a social-democracia. A partir da Conferência de Bandung (1955), organizada por países acabados de sair do colonialismo europeu (Egito, Índia e Indonésia) e por movimentos de libertação anticolonial da África, a polarização dava-se entre os dois rivais da Guerra Fria, o comunismo soviético e o capitalismo europeu ocidental e norte-americano. Os novos países reivindicaram um caminho autônomo em relação aos dois extremos. A terceira via foi o Movimento dos Não Alinhados e o “Terceiro Mundo”.

Na década de 1990, depois do colapso do bloco soviético, a polarização deu-se entre a social-democracia europeia, herdeira do socialismo democrático, e o capitalismo liberal dos EUA, globalizado sob a designação de neoliberalismo. A terceira via, formulada inicialmente pelo líder do Partido Trabalhista inglês, Tony Blair, consistiu em conciliar os imperativos do neoliberalismo (privatizações, desregulação da economia, substituição dos impostos por dívida pública para financiar políticas sociais, as quais deveriam ser reduzidas ao mínimo politicamente suportável). Para alguns, a terceira via era um meio caminho entre a esquerda e a direita tradicionais, enquanto, para outros, a terceira via estava além dessa distinção. Apoiada na última variante da terceira via, discute-se hoje, no Brasil, a proposta de uma terceira via entre Bolsonaro e Lula, ou seja, entre direita e esquerda ou, para alguns, entre extrema-direita e extrema-esquerda.

Logicamente, as terceiras vias não se entendem sem as polarizações que lhes servem de base e estas tanto podem corresponder a realidades polares concretas quanto a construções imaginadas de polarização. Por outro lado, as diferenças reais entre os polos podem ser muito menores daquelas que têm de ser imaginadas para abrir espaço à terceira via. Historicamente, as terceiras vias foram sempre um modo de acomodação ao polo de que os seus proponentes se sentiam mais próximos.

Essa proximidade foi muitas vezes genuína, mas frequentemente resultou do cruzamento de imposições. Leão XIII estava mais próximo do capitalismo, porque os socialistas eram ateus ou agnósticos. Os social-democratas alemães tinham mostrado a sua vocação nacionalista, oposta ao internacionalismo revolucionário, ao votar, em 1914, a favor dos créditos para a guerra, donde eclodiu a divisão no movimento operário alemão (e depois europeu) entre partidos comunistas e partidos socialistas. Os não alinhados foram obrigados a colher-se ao polo que dominava na sua zona de influência, com exceção de Cuba, que se acolheu, mais por necessidade do que por opção, ao bloco soviético enquanto ele existiu. Os trabalhistas ingleses e todos os partidos socialistas europeus que os seguiram há muito tinham abandonado qualquer ideia socialista democrática e adotavam políticas de acomodação às exigências do capitalismo nacional e global. O Partido Social-Democrata alemão (SPD) tinha rejeitado a leitura marxista da sociedade no Congresso de Bad Godesberg, em 1969.

À luz dessa história, a recente terceira via brasileira não oferece surpresas. Assenta numa polarização que é falsa e distorcida. É falsa na medida em que Bolsonaro, em face de tudo o que fez e disse e das conclusões da CPI, não é um candidato viável ou, se viável, não é minimamente confiável e, neste caso, a terceira via pretendida pela direita é de fato uma segunda via disfarçada de terceira.

É distorcida porque, por um lado, se é verdade que Bolsonaro representa uma extrema-direita tresloucada, muito da sua agenda político-econômica corresponde à agenda da direita e, por isso, esta, ao promover uma terceira via, está a pretender o bolsonarismo sem Bolsonaro. E porque Lula não é nem nunca foi de extrema-esquerda e, no passado, articulou-se muitas vezes com a direita por pensar (erradamente, em minha opinião) que há no Brasil uma direita capaz de pôr a defesa da democracia acima da defesa dos seus interesses, quando real ou imaginariamente ameaçados.

Publicado na edição nº 1183 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2021.

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Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

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