CartaCapital
Segurança pública/ Inimigo íntimo
O número de homicídios recua, mas a violência doméstica bate novo recorde
A violência doméstica segue em trajetória preocupante no Brasil. A 20ª edição do Anuário Brasileiro da Segurança Pública, divulgada na quinta-feira 23, revela que os maus-tratos contra crianças e adolescentes cresceram 14,6% em 2025. Os pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam um “profundo agravamento em praticamente todas as formas de violência analisadas” contra menores de idade.
O feminicídio continua em trajetória ascendente, com alta de 4%. Em 80% dos casos, os autores são namorados, maridos ou ex-companheiros das vítimas. Por outro lado, pela primeira vez desde a pandemia de Covid-19, houve queda de 5,4% nos registros de estupro. Os pesquisadores alertam, porém, que o recuo pode refletir subnotificação, e não uma redução efetiva da violência: os estupros de vulnerável ainda correspondem a 77% dos casos.
Em números absolutos, o País registrou 40.775 mortes violentas intencionais, uma redução de 8,2%. Na contramão desse indicador, a letalidade policial atingiu o maior patamar da série histórica, com 6.602 vítimas e alta de 5,4%. Na prática, um em cada seis assassinatos no Brasil é cometido por agentes do Estado.
Outro destaque do levantamento é a consolidação do estelionato como o principal crime contra o patrimônio. Foram 2.261.055 registros em 2025, um salto de 429,8% desde 2018, impulsionado pela migração dos golpes para o ambiente digital. O país registra, em média, 258 fraudes por hora. A impunidade é escandalosa: mais de 97% desses casos não chegam ao Poder Judiciário.
Os especialistas apontam uma transição no perfil da criminalidade no Brasil: enquanto os indicadores tradicionais de violência seguem em queda, novas modalidades de crime – especialmente ligadas ao ambiente digital, às economias ilícitas complexas e à vulnerabilidade social – ganham protagonismo.
Tal pai, tal filho
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, protocolou na quarta-feira 22 uma representação no Tribunal Superior Eleitoral contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) por declarações falsas sobre as urnas eletrônicas. Repetindo a estratégia do pai, declarado inelegível por oito anos pelo mesmo motivo, o pré-candidato à Presidência afirmou, durante um evento com a presença de diplomatas, que o Brasil utiliza urnas fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic e citou um suposto relatório da CIA que apontaria envolvimento da companhia em fraudes nas eleições da Venezuela em 2012. A informação já foi desmentida pelo TSE, que esclarece não utilizar equipamentos da empresa. Na representação, os partidos pedem a aplicação de multa e alertam para a existência de um “movimento articulado de desinformação” contra a credibilidade da Justiça Eleitoral.
Memória/ Duas paixões
Luiz Carlos Barreto deixou sua marca no cinema e na política audiovisual
Barretão, como era conhecido, produziu mais de 80 filmes – Imagem: Mauro Pimentel/AFP
Decano dos produtores de cinema do Brasil, Luiz Carlos Barreto morreu na madrugada da quarta-feira, 22, aos 98 anos. Nascido no município cearense de Sobral, em 1928, ele mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde se tornou fotógrafo da revista O Cruzeiro e passou a vida.
Foi pelas mãos de Glauber Rocha que Barreto chegou ao cinema. O diretor recomendou a Nelson Pereira dos Santos que o chamasse para fotografar Vidas Secas (1963) e, depois, convidou-o a assumir a fotografia de Terra em Transe (1967). Seria, porém, como produtor que ele se fixaria.
A L.C. Barreto, empresa que fundou com a mulher, Lucy Barreto, produziu mais de 80 filmes. Entre eles, está Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto, seu filho. O título se manteve, por 34 anos, como a maior bilheteria do cinema brasileiro.
Embora tenha realizado muitos e variados filmes, talvez a marca mais forte deixada por ele tenha sido a da atuação política. Já nos anos 1970, no tempo da Embrafilme, ele integrava uma associação de produtores e se articulava em torno da estatal. Após a extinção da estatal, assumiu a frente de ações, junto aos governos, para a reestruturação do setor. Dizia ter ajudado a escrever a Lei do Audiovisual e atribuía aos filmes dirigidos por seus filhos Fábio e Bruno os dois primeiros certificados de captação de recursos pelo mecanismo: O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997).
Nos anos 2000, produziu a cinebiografia Lula, o Filho do Brasil (2009), dirigida por Fábio. Em dezembro daquele ano, o filho sofreu um grave acidente de carro, passou quase dez anos em coma e morreu em 2019.
Até sofrer um acidente, em 2024, Barreto seguiu se posicionando diante dos embates políticos do cinema brasileiro. Durante algum tempo criticado por sua defesa de um cinema mais industrial, foi, conforme os anos passaram, ganhando um quê de unanimidade no setor. O produtor deixa a mulher, Lucy, com quem era casado desde 1954, os filhos Bruno e Paula – ambos profissionais de cinema –, nove netos e oito bisnetos.
Desprotegidos para o Super El Niño
Um estudo do Observatório do Clima, a partir do cruzamento de duas bases de dados do governo federal, revela que 1.594 municípios brasileiros – de um total de 5.570 – vivem hoje uma situação de dupla vulnerabilidade: climática e fiscal. Quase 30% das cidades brasileiras não estão preparadas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e tampouco dispõem de recursos para financiar obras e projetos de adaptação. A pesquisa inédita cruzou informações sobre riscos de deslizamentos e enxurradas, reunidas na plataforma AdaptaBrasil, mantida pelo Ministério do Meio Ambiente, com o indicador de Capacidade de Pagamento (Capag), que mede a situação fiscal dos municípios.
Carreira/ Chapeiro legalizado
Eduardo Bolsonaro recebe o green card nos EUA e perde emprego no Brasil
O ex-deputado foi expulso da PF por abandono do cargo de escrivão – Imagem: CPAC EUA
Quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República, em 2019, anunciou a intenção de nomear o filho Eduardo como embaixador do Brasil em Washington. Entre as credenciais apresentadas para o cargo, estava a experiência profissional anterior nos Estados Unidos – adquirida, curiosamente, como chapeiro em uma rede de fast food. Agora, Zero Três já não precisa se preocupar com visto para retomar o antigo ofício. Acaba de ser agraciado pelo governo de Donald Trump com o green card, documento que assegura a residência permanente no país.
A conquista vem a calhar por duas razões. A Polícia Federal acaba de concluir um processo disciplinar contra o ex-deputado federal e decidiu expulsá-lo da corporação por abandono de cargo. Além disso, o novo status migratório pode dificultar uma eventual extradição solicitada pelo Brasil. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em junho, pelo crime de coação no curso do processo – justamente por conspirar com autoridades norte-americanas para impor sanções aos investigadores e julgadores de seu pai, condenado por tentativa de golpe de Estado –, Zero Três agora conta com a segurança de uma permanência regular nos Estados Unidos.
A revolta das baratas
Dezenas de milhares de manifestantes marcharam pelas ruas de Nova Délhi, na segunda-feira 20, para exigir a renúncia do ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, após o vazamento de um exame de admissão às faculdades de medicina, que obrigou mais de 2 milhões de candidatos a refazer a prova. Liderados por ativistas da geração Z, os protestos desafiaram a proibição imposta pelas autoridades e foram reprimidos com cassetetes e gás lacrimogêneo. A mobilização foi convocada pelo Cockroach Janta Party (“Partido Popular das Baratas”, em tradução livre), criado após Surya Kant, presidente da Suprema Corte, chamar jovens militantes e desempregados de “baratas”. Nascido como uma sátira, o grupo rapidamente se consolidou como um dos principais focos de oposição ao governo do premier Narendra Modi.
Reino Unido/ “Virada de chave”
O novo premier acena aos eleitores trabalhistas descontentes
Burnham prometeu as “maiores mudanças dos últimos 40 anos” – Imagem: Lauren Hurley/Number 10 Downing Street
Dois dias após assumir o governo britânico, o premier Andy Burnham anunciou a eliminação do imposto de 5% sobre as tarifas de eletricidade a partir de outubro e prometeu garantir moradia para todas as pessoas em situação de rua no Reino Unido, com um investimento adicional de 340 milhões de libras esterlinas (cerca de 2,3 bilhões de reais) em ações de assistência social nos próximos três anos. A desoneração das contas de luz terá impacto fiscal estimado em 850 milhões de libras (5,8 bilhões de reais).
Essas são as primeiras medidas de Burnham para reconquistar eleitores trabalhistas decepcionados com o governo de seu antecessor, Keir Starmer, que em 2024 encerrou 14 anos de governos conservadores. Em seu discurso de posse, Burnham prometeu uma “virada de chave”, coma as “maiores mudanças dos últimos 40 anos”. O desafio mais complexo será enfrentar os efeitos do Brexit, que reduziu o comércio exterior e afetou significativamente a produtividade do Reino Unido. Estudos estimam que a saída da União Europeia provocou uma perda de 6%
a 8% do PIB britânico.
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’
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