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São Paulo/ Frente ampla

Boulos e Marta selam aliança para derrotar o bolsonarismo nas eleições municipais

São Paulo/ Frente ampla
São Paulo/ Frente ampla
Não se constroem alianças olhando para o passado, afirma o deputado – Imagem: José Luís da Conceição
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Marta Suplicy recebeu em sua casa, no sábado 13, o deputado federal Guilherme ­Boulos, pré-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSOL. Em meio a uma articulação liderada pelo presidente Lula, a ex-prefeita topou deixar a gestão de Ricardo Nunes (MDB), de quem era secretária de Relações Internacionais, e deve retornar ao PT depois de nove anos, para ocupar o posto de vice na chapa encabeçada por Boulos.

À esquerda, os críticos da aproximação avaliam que a neoaliada não é confiável. Depois de abandonar o PT em 2015, a então senadora apoiou a destituição de Dilma ­Rousseff. Marta também referendou a reforma trabalhista de Michel Temer, o principal beneficiário do impeachment fajuto. Há ainda quem considere que a ex-prefeita tem pouco a agregar por, historicamente, ser associada à esquerda, o mesmo campo de Boulos.

O deputado ressalta, porém, a importância de se constituir uma frente democrática para derrotar Ricardo Nunes, a mendigar o apoio de Jair Bolsonaro para seu projeto de reeleição. “É uma aliança que está se construindo e não vai olhar para o passado, mas para o compromisso de presente e futuro”, resumiu Boulos. Além de ressaltar a experiência administrativa de Marta, aliados do psolista acrescentam que a ex-prefeita possui um forte apelo eleitoral em áreas periféricas onde Boulos ainda é pouco conhecido.

Crise de ciúmes

Depois de Valdemar Costa Neto elogiar Lula em uma entrevista ao jornal O Diário, de Mogi das Cruzes, no interior paulista, Bolsonaro não escondeu a irritação com o presidente do PL. “Se continuar assim, vai implodir o partido”, desabafou, durante uma roda de conversa com apoiadores em Angra dos Reis, no litoral fluminense. O ex-deputado havia dito que Lula tem muita popularidade e é conhecido por todos os brasileiros. “O Bolsonaro, não. Ele tem um mandato só.” A comparação doeu na alma do ex-capitão, que só se reconciliou com o correligionário após ele implorar por perdão em público. Ao cabo, deu por encerrada a crise conjugal: “O casamento com o Valdemar está firme. Nele, eu sou o marido. E todos sabem que quem manda na relação é a mulher (risos). Valdemar é o comandante do partido”, afirmou ao portal Metrópoles.

Juventude/ Não é brincadeira

Lula sanciona lei que criminaliza o bullying e o cyberbullying

A legislação visa conter onda de suicídios e ataques nas escolas – Imagem: iStockphoto

O presidente Lula sancionou, na segunda-feira 15, a lei que tipifica os crimes de bullying e cyberbullying. A partir de agora, as duas práticas passam a ser consideradas modalidades de constrangimento ilegal, previsto no artigo 146 do Código Penal. Aprovada pelo Congresso no fim do ano, a legislação é uma resposta à onda de suicídios de jovens e ataques nas escolas, frequentemente motivados por esses atos de hostilidade.

A nova regra define o bullying como a conduta de “intimidar sistematicamente, individualmente ou em grupo, mediante violência física ou psicológica, uma ou mais pessoas, de modo intencional e repetitivo, sem motivação evidente, por meio de atos de intimidação, de humilhação ou de discriminação”. A pena prevista é de multa, mas, caso a prática descambe para um crime mais grave, o autor poderá ser preso. Já o cyberbullying é a mesma conduta cometida em ambiente virtual, incluindo redes sociais e jogos online. A pena será de dois a quatro anos de prisão, além de multa.

Consciência negra/ Reação judicial

Processos por racismo e intolerância religiosa crescem 17.000% em 14 anos

A população negra está disposta a levar todos os racistas ao banco dos réus – Imagem: Fernando Frazão/ABR

Em 2023, os tribunais brasileiros registraram 176.055 processos por racismo ou de intolerância religiosa, revela um levantamento da JusRacial, dedicada à democratização do acesso à Justiça pela população negra. O aumento da judicialização foi de 17.000% desde 2009, ano do penúltimo levantamento disponível.

Na avaliação do advogado Hédio Silva Jr., fundador da JusRacial e coordenador do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro), o reconhecimento da homofobia e da transfobia como modalidades do crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal, em 2019, pode ter contribuído para aumentar o número de denúncias nos últimos anos, mas a alta é puxada, sobretudo, por outro fator: a ampliação da consciência, por parte das vítimas, sobre a necessidade de levar os racistas para o banco dos réus.

“Não temos dúvida de que 176 mil processos correspondem a uma fração ínfima dos casos de violação de direitos que diariamente assolam a população negra e adeptos de religiões afro-brasileiras, alvo preferencial do discurso de ódio e da intolerância religiosa”, observa Silva Jr. “Mas é igualmente verdadeiro que a ampliação exponencial da judicialização indica promissora elevação do otimismo e confiança das vítimas no Judiciário.”

Desigualdade em escala planetária

No ano passado, ao menos 700 milhões de indivíduos estavam na extrema pobreza, sobrevivendo com menos de 2,15 dólares por dia(cerca de 10,50 reais), atesta um recente relatório do Banco Mundial. O contingente de miseráveis era 40% menor em 2010. Como era de se esperar, o combate à pobreza no planeta sofreu um duro revés durante a pandemia de Covid-19. O problema é que o nível de desigualdade continuou em alta em 2023, a despeito do arrefecimento da crise sanitária. A respeito desse tema, leia também o artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, à pág. 42.

Bahia/ Um basta ao morticínio

Com recursos da União, o estado instalará câmeras nas fardas de PMs

Os equipamentos ajudam a fiscalizar a atividade policial – Imagem:iStockphoto

O Ministério da Justiça assinou um acordo de cooperação técnica com o governo da Bahia para a instalação de câmeras em fardas e viaturas da Polícia Militar. O contrato foi celebrado no fim do ano passado, mas só ganhou as páginas do Diário Oficial na segunda-feira 15. Com duração de 36 meses, a iniciativa faz parte no Projeto Nacional de Câmeras Corporais, concebido pela Secretaria Nacional de Segurança Pública. O objetivo é favorecer a coleta de provas contra suspeitos, ao mesmo tempo que se cria um mecanismo de controle sobre a atividade policial.

Governada pelo PT há 17 anos, a Bahia ostenta a maior taxa de mortes violentas e também o maior índice de letalidade policial do País, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2022, foram 1.464 mortes decorrentes de intervenções policiais. Ao menos o governador Jerônimo Rodrigues parece disposto a interromper o morticínio. Em São Paulo, a mais rica unidade da federação, Tarcísio de Freitas cortou ao menos 37 milhões de reais dos 152 milhões previstos para o programa paulista de câmeras corporais. “Custa muito dinheiro”, alegou o governador bolsonarista. O valor total corresponde, porém, a 0,8% do orçamento da Secretaria de Segurança Púbica em 2024.

EUA/ Nocaute no primeiro round

Trump obtém vitória devastadora nas prévias republicanas em Iowa

A oposição no partido facilitou o trabalho do ex-presidente – Imagem: Jim Watson/AFP

O arrasador triunfo de Donald Trump nas prévias de Iowa indicam que o ex-presidente mantém absoluto controle sobre o Partido Republicano. Com mais de 95% das urnas apuradas, Trump tinha 51% de apoio, o maior porcentual já obtido por um pré-candidato nas eleições internas da legenda. Dono do recorde anterior, George W. Bush conquistou 41% em 2000.

A distância de 30 pontos porcentuais em relação ao segundo colocado, o governador da Flórida, Ron DeSantis, com 21,2% dos votos, é uma eloquente demonstração de que Trump não enfrentará grande dificuldade para obter a indicação do seu partido e retornar à corrida presidencial – ao menos sem uma interferência do Judiciário. Em terceiro lugar, Nikki Haley, ex-embaixadora dos EUA na ONU, terminou com 19,1%.

A bem da verdade, a oposição interna no Grande e Velho Partido facilitou o trabalho de Trump. Dividida em vários pré-candidatos, ela não conseguiu apresentar um projeto realmente alternativo aos eleitores. Desde o início, DeSantis esmerou-se em parecer o mais trumpista dos postulantes, mas por que escalar um reserva se o titular se apresenta à disputa? Já Haley foi progressivamente abandonando posições moderadas para provar aos rivais que era conservadora o suficiente para representar os republicanos.

Antevendo outro nocaute nas prévias de New Hampshire, Vivek Ramaswamy, quarto lugar na votação, desistiu das primárias e declarou apoio a Trump. Até ser aclamado candidato, o ex-presidente só corre o risco de uma derrota nos tribunais, onde enfrenta a acusação de conspirar contra os EUA ao tentar reverter a derrota nas urnas para Joe ­Biden, insuflando seus radicais apoiadores a invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

Um novo ator na guerra dos chips

Logo após vencer as eleições presidenciais de Taiwan, Lai Ching-te não tardou a receber congratulações do secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, despertando a ira das autoridades chinesas. De todos os postulantes, Ching-te era o mais ardoroso defensor da independência da ilha. Em um ríspido comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Pequim disse que as felicitações de Blinken violaram a promessa dos EUA de se manter distante da província rebelde, que abrigou os derrotados na guerra civil vencida pelos comunistas em 1949. “A China opõe-se firmemente a que os EUA tenham qualquer forma de interação oficial com Taiwan”, diz o texto. Atualmente, o território figura no epicentro de outra disputa, a guerra dos chips. Taiwan produz mais de 60% dos semicondutores do mundo. Pequim e Washington disputam o controle desse mercado.

Publicado na edição n° 1265 de CartaCapital, em 24 de janeiro de 2024.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’

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