Salas de cinema enfrentam uma difícil recuperação pós-pandemia

Das 3,5 mil salas do País, quinhentas seguem 'temporariamente fechadas' e o circuito independente é o que mais sofre

Sala de rua. A abertura do  Cine Marquise, em São Paulo (em obras), é vista como um alento para quem trabalha com títulos como o dinamarquês Druk - A Última Rodada.(FOTO: Vitrine Filmes/Synapse e Yago Moreira)

Sala de rua. A abertura do Cine Marquise, em São Paulo (em obras), é vista como um alento para quem trabalha com títulos como o dinamarquês Druk - A Última Rodada.(FOTO: Vitrine Filmes/Synapse e Yago Moreira)

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Até a semana passada, existiam no País 2,9 mil salas de cinema em funcionamento e outras 500 “temporariamente fechadas”. Os dados, fornecidos pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), dão uma pequena pista do cenário pós-pandêmico no setor de exibição. Impedidos de funcionar, aqui e no mundo, a partir de março de 2020, e diretamente atingidos pela revolução do streaming, os cinemas ainda tentam reencontrar o seu lugar na cadeia de valor do audiovisual.

Enquanto alguns blockbusters vêm, de novo, atraindo o público e até se aproximando dos patamares pré-pandêmicos – ainda em raríssimos casos, diga-se –, o cinema independente segue com grandes dificuldades para se recuperar. Essa realidade se estende às salas. Aquelas localizadas em shoppings de luxo, em um extremo, e em shoppings populares, de outro, são as que têm apresentado os melhores resultados. É nesse contexto improvável que, na terça-feira 19, um cinema de rua será reinaugurado em São Paulo.

O velho Cinearte, aberto em 1963 no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, perdeu o patrocínio em 2019 e fechou as portas no início do ano passado – antes de a pandemia explodir. Ele volta agora à vida sob nova gestão e novos apoios – da Sabesp, do Globoplay e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae). Passa a chamar-se Cine Marquise.

“Ao mesmo tempo que a pandemia nos coloca um desafio enorme, foi ela que possibilitou a aquisição. Em outro momento, acho que alguma rede maior teria adquirido a sala”, diz Marcelo Lima, diretor da Tonks, empresa de consultoria voltada ao setor. Lima teve seu último cinema há 20 anos. Antes, quem possuía salas era seu pai, que começou trabalhando como faxineiro no Cine Cairo, no Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo, e acabou criando o próprio circuito.

Como bom conhecedor do mercado que é, Lima sabe que está dando início a uma operação de risco. Mas, obviamente, não estaria nela se não visse também uma possibilidade de sucesso. “Queremos oferecer ao público a experiência do cinema independente atrelada à alta tecnologia”, diz, procurando demarcar seu diferencial em relação a outras salas de rua.

O público dos blockbusters tem retornado de forma mais rápida que o dos filmes de arte

“A tela é importada, o projetor é de alto padrão e as poltronas competem com as das salas vips, geralmente voltadas aos blockbusters”, prossegue. Além de pipoca, o espaço oferecerá café gourmet e cerveja artesanal. Lima pretende, ao mesmo tempo, oferecer um certo clima nostálgico, com o piso de madeira restaurado e a amplidão do espaço.
Mas serão essas iscas suficientes para atrair de novo para as salas o público dos filmes que prescindem de efeitos especiais e da aura de evento? “É normal que a volta, no caso desse público, aconteça de forma mais lenta”, avalia Adhemar Oliveira, sócio da rede Itaú de Cinemas. “A gente vê, por exemplo, que, conforme os cinemas do Rio começam a exigir o comprovante de vacinação, o público do cinema de arte vai voltando. É um público mais sensível aos riscos da pandemia.”

Oliveira lembra ainda que, ao longo do último ano e meio, toda a estrutura que alimenta o desejo do espectador por um filme foi, repentinamente, desmontada. “A mídia especializada, importante para este segmento, também se desorganizou, uma vez que, durante algum tempo, praticamente só houve estreias no ­streaming”, diz. “Outro fator que não pode ser desconsiderado é a migração dos festivais para o online. O burburinho dos festivais era fundamental para despertar o interesse do público.”

No mês passado, em decorrência da saída do patrocínio, as salas do circuito Itaú foram fechadas em Salvador, Curitiba e Porto Alegre. Oliveira ainda comanda, porém, cerca de 60 salas no ­País. “Apesar das dificuldades, tudo, para mim, aponta para a continuidade do cinema como uma parte importante do xadrez do audiovisual”, diz Oliveira.

Quem trabalha com a distribuição dos filmes – o elo que, na cadeia do negócio, fica entre a produção e a exibição – não discorda. A Vitrine, empresa que, na última década, firmou-se como uma marca ligada a cinema de autor, em geral, e ao cinema brasileiro, em particular, atravessou a turbulência da pandemia graças ao streaming.
Felipe Lopes, diretor da empresa, afirma, porém, que, mesmo durante o período de salas fechadas, o cinema, que mal respirava, foi vital para que a roda girasse. Ele cita como exemplo a trajetória de Druk – Mais Uma Rodada, de Thomas Vinterberg.

A produção dinamarquesa, ganhadora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, estreou em março de 2020, apenas no Rio de Janeiro, o único lugar do País onde as salas eram mantidas abertas. Depois disso, o filme seguiu mais seis meses em cartaz, algo inimaginável para um negócio marcado pela alta rotatividade.

Ao mesmo tempo que estreava aqui e ali, no ritmo do abre e fecha pandêmico, o filme ia fazendo uma ótima carreira no streaming. Segundo Lopes, Druk foi alugado ou comprado por cerca de 100 mil pessoas antes de chegar a um serviço de streaming por assinatura – hoje o título está disponível para os assinantes do TeleCine. Nas salas de cinema, vendeu 6 mil ingressos.

O diretor da Vitrine pondera que, apesar da grande diferença no número de espectadores, o cinema segue sendo, na maioria dos casos, essencial para um retorno financeiro expressivo. Mas ele observa que a dificuldade, neste momento, é não apenas chamar o público de volta, mas encontrar salas disponíveis.

“Antes da pandemia, conseguíamos estrear alguns filmes nos multiplex. Agora, com o congestionamento de ­blockbusters, ficou impossível”, diz. Cabe lembrar que 007 Sem Tempo para Morrer, por exemplo, foi adiado três vezes. “Além disso, há algumas salas de arte, como a São Luiz, no Recife, que ainda não reabriram, e outras, como a Dragão do Mar, em Fortaleza, ou a Estação, no Rio, que não voltaram plenamente.”

Nesse contexto, a inauguração de uma sala vira notícia e se torna motivo de celebração para aqueles que possuem filmes nas mãos, mas sofrem para lançá-los.

Publicado na edição nº 1179 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2021.

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