CartaCapital
Rumo a 2050
Estratégia para dobrar a renda média em duas décadas
Experiências bem-sucedidas de desenvolvimento econômico mostram que crescimento e distribuição de renda caminham juntos. A noção de que é preciso primeiro “fazer o bolo crescer” para depois distribuí-lo, frequentemente associada a Delfim Netto, é equivocada. Por outro lado, a mera redistribuição de renda, sem ganhos de produtividade e progresso tecnológico, tende a produzir resultados econômicos frágeis e insustentáveis. Superar esse falso dilema exige reconhecer um ponto básico: não se distribui riqueza que não foi criada. Políticas sociais são essenciais para reduzir desigualdades e garantir coesão social, mas, isoladamente, não elevam de forma duradoura o padrão de vida. Isso depende, sobretudo, do aumento da produtividade, isto é, da capacidade de gerar mais valor por trabalhador, por unidade de capital e por área produtiva.
A questão que se coloca hoje, portanto, não é se o Brasil deve ou não distribuir renda, mas como construir, ao longo das próximas décadas, uma base produtiva capaz de sustentar níveis crescentes de remuneração do trabalho sem comprometer os fundamentos macroeconômicos e as políticas sociais. A resposta passa por uma estratégia deliberada de transformação estrutural da economia, centrada na sofisticação do tecido industrial, na incorporação de progresso tecnológico, aumento da complexidade produtiva e na integração às cadeias globais de valor em posições de maior densidade tecnológica. Para que o debate sobre desenvolvimento deixe o campo das abstrações e assuma um caráter operacional, é útil estabelecer uma referência quantitativa concreta. A renda média mensal do trabalhador brasileiro situa-se atualmente em torno de 3,5 mil reais. Uma trajetória de desenvolvimento consistente deveria ambicionar ao menos dobrar esse valor em termos reais ao longo dos próximos 25 anos, alcançando, aproximadamente, 7 mil reais mensais em valores atuais. Esse objetivo, embora desafiador, é tecnicamente viável e historicamente compatível com as trajetórias observadas em países que realizaram processos bem-sucedidos de catching-up industrial e tecnológico.
Atingir essa meta requer uma taxa média de crescimento da produtividade total dos fatores da ordem de 2,5% a 3% ao ano ao longo do período. Esse ritmo, embora superior ao que o Brasil sustentou nas últimas três décadas, está longe de ser inédito no cenário internacional. Coreia do Sul, Taiwan, China e, em menor medida, países do Sudeste Asiático alcançaram resultados comparáveis ou superiores mediante a combinação de política industrial ativa, investimento em capital humano, infraestrutura adequada e custo de capital compatível com projetos de longa maturação.
É impossível distribuir riqueza que não foi criada
No plano das políticas públicas, o Brasil deu, nos últimos anos, um passo relevante ao retomar, com maior grau de elaboração, o debate sobre política industrial. A chamada Nova Indústria Brasil representa um avanço conceitual significativo em relação às iniciativas anteriores, ao estruturar sua atuação em torno de missões setoriais com objetivos claros, horizontes temporais definidos e articulação entre demanda pública e capacidade produtiva nacional. As missões contempladas pelo programa revelam um diagnóstico acertado das áreas em que o País dispõe de potencial comparativo relevante e nas quais a presença de uma indústria nacional robusta é condição de soberania econômica e tecnológica.
No campo da saúde, o fortalecimento do complexo econômico-industrial representa uma oportunidade de transformar o Sistema Único de Saúde, hoje percebido quase exclusivamente como centro de custos, em instrumento ativo de desenvolvimento tecnológico e industrial. A demanda pública em saúde é suficientemente volumosa para induzir investimentos em pesquisa, desenvolvimento e produção doméstica de insumos estratégicos, reduzindo a vulnerabilidade externa historicamente revelada em situações de crise sanitária. Na área de defesa, o raciocínio segue lógica semelhante. Países que dominam tecnologias críticas – sistemas de comunicação, satélites, cibersegurança, equipamentos de uso dual – não apenas preservam a autonomia estratégica, mas geram, por meio de externalidades e transbordamentos tecnológicos, benefícios relevantes para o setor civil. A renúncia a esse segmento implica, na prática, a escolha deliberada por uma posição periférica na hierarquia tecnológica internacional do século XXI.
A bioeconomia constitui, talvez, o ativo mais promissor e simultaneamente mais subexplorado do Brasil. O País detém a maior biodiversidade do planeta, um sistema de pesquisa agropecuária de reconhecida competência internacional e uma base industrial com potencial de absorção tecnológica relevante. A combinação dessas vantagens poderia posicionar o Brasil como protagonista global no desenvolvimento de novos materiais, fármacos, cosméticos, biocombustíveis, soluções agrícolas, química verde e tecnologias sustentáveis. A realização desse potencial, contudo, exige a conversão de ativos naturais em conhecimento sistematizado e em propriedade intelectual – um processo que demanda investimento contínuo, horizonte de longo prazo e articulação entre setor público, academia e iniciativa privada.
O setor de defesa também oferece caminhos para o Brasil avançar na tecnologia de ponta – Imagem: Saab/Embraer
O reconhecimento da pertinência estratégica das missões da Nova Indústria Brasil não pode obscurecer uma contradição fundamental que compromete de forma severa a efetividade do programa: o custo do capital no Brasil é estruturalmente incompatível com os objetivos de transformação produtiva que a política industrial se propõe a alcançar. Os recursos disponibilizados pelo Plano Mais Produção e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, principal instrumento de financiamento de longo prazo da economia brasileira, estão, em sua maior parte, atrelados à TLP (Taxa de Longo Prazo). Com a trajetória recente dessa taxa, os custos efetivos de financiamento para projetos industriais situam-se entre 15% e 16% ao ano em termos nominais. Em um ambiente de inflação na faixa de 4% a 5%, isso implica taxas reais na ordem de 10% a 11% ao ano, nível que inviabiliza economicamente a maior parte dos projetos de investimento de longo prazo, intensivos em capital e com períodos de maturação estendidos. Nenhum processo relevante de industrialização ou de catching-up tecnológico foi realizado com custo real de capital nesse patamar. A literatura sobre experiências bem-sucedidas de desenvolvimento industrial – da Europa do pós-Guerra às economias asiáticas – é unânime em identificar o acesso a crédito de longo prazo em condições adequadas como condição necessária, ainda que não suficiente, para a transformação estrutural da economia.
O contraste com o financiamento do setor agropecuário é, nesse contexto, particularmente elucidativo. O Plano Safra, principal instrumento de crédito rural do governo federal, disponibiliza recursos com taxas de juro subsidiadas inferiores a 10% ao ano, chegando a patamares significativamente menores para pequenos e médios produtores e para determinadas culturas prioritárias. Esse diferencial de custo de capital não reflete uma diferença de risco ou de retorno entre os setores, mas uma escolha política explícita sobre quais atividades merecem suporte diferenciado. O resultado dessa assimetria é previsível: o Brasil consolida sua competitividade nos setores em que o financiamento é favorável e enfrenta dificuldades estruturais para avançar nos segmentos de maior sofisticação tecnológica.
Por detrás do custo elevado do crédito para o setor produtivo opera um determinante mais fundamental, a taxa básica de juros da economia, fixada pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. A Selic manteve-se, ao longo das últimas décadas, em patamares historicamente elevados mesmo em comparação com economias emergentes de perfil semelhante. Esse nível estruturalmente alto contamina toda a estrutura de juros da economia, elevando o custo de oportunidade do capital e tornando sistematicamente mais atrativo o investimento em ativos financeiros de baixo risco do que o investimento produtivo de longo prazo. O resultado dessa configuração é uma economia que produz incentivos robustos para o rentismo e obstáculos significativos para o empreendedorismo produtivo.
Políticas industriais que não atingem escala crítica tendem a gerar impactos marginais
A normalização das taxas de juro para patamares compatíveis com os de economias emergentes de similar nível de desenvolvimento é, portanto, não apenas uma questão de política monetária, mas uma condição estrutural para a viabilidade de qualquer estratégia séria de transformação produtiva. Esse ajuste envolve, evidentemente, desafios de credibilidade, coordenação e gestão das expectativas inflacionárias que não devem ser subestimados. Sua postergação indefinida, contudo, implica a perpetuação de um modelo econômico que remunera adequadamente o capital financeiro e pune sistematicamente o capital produtivo.
Além do custo, a escala dos recursos disponibilizados pela política industrial brasileira representa um segundo fator limitante de sua efetividade. O volume total de recursos comprometidos com as missões da Nova Indústria Brasil, embora represente um avanço em relação ao período anterior de quase abandono do tema, permanece insuficiente diante da magnitude da transformação produtiva requerida. A comparação com as políticas industriais de países que realizaram transformações estruturais bem-sucedidas, bem como com as novas gerações de políticas industriais implementadas por Estados Unidos, União Europeia e China na última década, revela um diferencial significativo de comprometimento de recursos públicos por unidade de Produto Interno Bruto. Políticas industriais que não atingem escala crítica tendem a gerar impactos marginais, insuficientes para alterar as trajetórias de investimento do setor privado e para induzir as mudanças tecnológicas e organizacionais necessárias à transformação estrutural.
O Brasil dispõe, hoje, de elementos relevantes para construir uma estratégia de desenvolvimento produtivo de longo prazo. Existem instituições com capacidade técnica acumulada, um setor privado com competência empresarial relevante em múltiplos segmentos, um sistema de ciência e tecnologia que, apesar de subfinanciado, produziu resultados significativos, e uma base de recursos naturais e humanos que poucos países no mundo detêm em combinação. O que falta não é diagnóstico – o Brasil tem produzido diagnósticos de elevada qualidade sobre seus próprios desafios econômicos há décadas. O que falta é a disposição para enfrentar os obstáculos estruturais que separam o diagnóstico correto da execução efetiva.
A indústria nacional carece de um sistema de financiamento nos moldes do Plano Safra, responsável pelo salto produtivo da agricultura – Imagem: A indústria nacional carece de um sistema de financiamento nos moldes do Plano Safra, responsável pelo salto produtivo da agricultura
A trajetória que conduz à duplicação da renda média do trabalhador brasileiro em 25 anos não é tecnicamente inacessível. É, contudo, politicamente exigente. Requer escolhas que redistribuam custos e benefícios no curto prazo para ampliar o espaço de crescimento no longo prazo. Requer a disposição de subordinar interesses setoriais a objetivos nacionais de desenvolvimento. E requer, sobretudo, a consistência temporal necessária para que políticas de transformação estrutural, que operam em horizontes de décadas, não sejam continuamente interrompidas ou reorientadas por ciclos eleitorais ou por crises de curto prazo.
O Brasil demonstrou, em outros domínios, a capacidade de construir políticas de Estado que transcendem governos e produzem resultados duradouros. A construção de uma estratégia de desenvolvimento produtivo com essa mesma qualidade institucional é a tarefa central da política econômica brasileira para as próximas décadas. Dela depende, em larga medida, a qualidade de vida das gerações que herdarão o país que estamos construindo hoje. •
*Professor de Economia da FGV-SP, economista, foi gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, Uma Economia Que Não Aprende.
Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rumo a 2050’
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