Renan Calheiros, passado e presente

Renan governador 
e Severo, a influência forte. (FOTO: Folhapress e José Paulo Lacerda/Estadão Conteúdo)

Renan governador e Severo, a influência forte. (FOTO: Folhapress e José Paulo Lacerda/Estadão Conteúdo)

CartaCapital

Conheci Renan Calheiros na bela fazenda à beira-mar de Severo Gomes. No exato instante em que ele me foi apresentado, às nossas costas triunfava um forno de uma alvura vibrante, munido de corcovas aparentemente estranhas, destinado a produzir os melhores leitõezinhos à pururuca. De fato, almoçamos regalados. Mais tarde, Severo, meu caríssimo amigo, comentou: “Este rapaz vai longe”. Deste lindo lugar partiu o helicóptero que precipitou no mar e levou para sempre os casais Gomes e Guimarães.

Na fazenda havia uma espécie de convescote de emedebistas, súditos do doutor Ulysses, capaz de colocar debaixo das suas asas todos os inconformados com a ditadura civil militar e que se tornou PMDB depois da reforma partidária no final de 1979, já no governo de João Figueiredo. Prevista pelo general Golbery do Couto e Silva ao sabor do chamado projeto de “distensão lenta e gradual, porém segura”, conforme a fórmula do ditador Ernesto Geisel, pouco mais de um títere do titereiro alçado ao posto de chefe da Casa Civil.

Encontrei Severo Gomes pela primeira vez na casa de Rui Mesquita, quando eu dirigia o Jornal da Tarde. Chamou-me a atenção pelo senso de humor e pelos trajes muito elegantes, embora casual.­ Dali a pouco depois, nos tornamos ótimos amigos. Ele era, a seu modo, um sonhador. Lá pelas tantas, foi buscar o general Euler Bentes, que tivera bom desempenho na direção da Sudene, para apresentá-lo como candidato a uma das farsas montadas pelo regime, a fim de coroar o próximo ditador.

Reuniões se faziam no Rio de Janeiro entre militares ligados a Bentes e em uma delas ele foi meu cicerone. Deu-se em um apartamento em Copacabana e ao sair lembro-me da perfeita concordância que se estabeleceu entre nós quanto à postura política dos militares, apegados às tradições e, portanto, negados a uma interpretação correta da verdadeira democracia. Mas era outro Brasil e outras as pessoas.

Nas paredes de Severo penduravam-se obras dos melhores artistas brasileiros e até duas gravuras de Giorgio Morandi.­ Agrada-me pensar que Renan Calheiros,­ na sua atual função de comandante da CPI da Covid, encarna o espírito daqueles raros líderes destinados a funcionar como mestres de comportamento. Certo é que a CPI tem ideias muito claras em relação aos assuntos que lhe cabe investigar. Os poderes que a operação detém não são suficientes para determinar a condenação do bolsonarismo, ou seja, o grande mal do Brasil da quadra que atravessamos. E é inegável que a CPI tem ao menos a chance de apontar ao juí­zo dos brasileiros os gravíssimos erros cometidos pelo atual governo no combate à pandemia, a qual, em outras circunstâncias, teria produzido efeitos menos espantosos aos olhos do mundo.

O mestre Ulysses. (FOTO: TV Cultura)

Quem espera que a CPI leve ao impeachment do ex-capitão engana-se. Não existe esta possibilidade, ainda assim sobrarão, inevitavelmente, razões de monta para livrar o País da desgraça. Encaro os fatos que a CPI averigua. São mais do que suficientes para perceber o monstruoso distanciamento do bolsonarismo da realidade, de sorte a gerar a sensação do absoluto desalento. Tenho perguntado aos meus extenuados botões se um movimento redentor é viável no País. Verifico o sucesso de vocações confirmadas inexoravelmente ao longo do tempo. No fundo, estamos ainda observando que nas apostas dos oposicionistas sempre vigora a ideia da conciliação das elites, quimera do país da casa-grande e da senzala, onde as desvantagens desta são mais do que evidentes.
Esgota-se no passado a ideia de uma oposição disposta a tudo para, finalmente, colocar o País no rumo certo. Naufraga-se nas tecnicalidades e tramoias de um sistema que já ruiu e que tenta se manter vivo, e não se entende por quê. Ou se justifica todo o esforço para prosseguir nos erros do passado?
Fecham-se os olhos e as mentes para a impossibilidade de conciliar as elites para tirar o Brasil das mãos bolsonaristas. No país da casa-grande e da senzala, qualquer aproximação destas duas entidades, nas quais se divide inexoravelmente o povo brasileiro, é simplesmente inviável, pela própria diferença entre a rica moradia de poucos e a choupana da larga maioria.
Gosto de pensar que Renan Calheiros, neste exato instante, recorda o senso de responsabilidade dos seus mestres, na busca infatigável da verdade.

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