CartaCapital

Rastros de um nazista

Perícias e relatos indicam que Hermann Fegelein, integrante do círculo íntimo de Hitler, morreu impune no Brasil

Fegelein e Gretl Braun na festa de casamento, com Hitler e Eva. Himmler está ao fundo na mesma direção de Fegelein; e o seu irmão Waldemar é o primeiro à esq. na última fileira - Imagem: Alamy/Fotoarena e Arquivo Público da Alemanha
Fegelein e Gretl Braun na festa de casamento, com Hitler e Eva. Himmler está ao fundo na mesma direção de Fegelein; e o seu irmão Waldemar é o primeiro à esq. na última fileira - Imagem: Alamy/Fotoarena e Arquivo Público da Alemanha
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A ideia era tão esdrúxula quanto lógica: “Por que não ir a uma feira de rua da Cidade Dutra para ver se encontramos alguns nazistas? Dizem que Adolf Hitler era vegetariano, logo, vão estar lá comprando legumes”. À época, não buscava encontrar o concunhado de Hitler, que se apresentou a mim apenas como Hermann, mas refutar o testemunho de um militar brasileiro que garantia que 200 simpatizantes do führer haviam se estabelecido neste bairro, afastado cerca de 20 quilômetros do Centro de São Paulo, após terem sido forçados a deixar uma colônia alemã no Paraná, em 1955.

Após percorrermos a feira três ou quatro vezes, de cima a baixo, Fernando Nogueira de Araújo, sargento reformado do Exército que tem a sua história relatada no livro O Homem Que Enterrou Hitler, de minha autoria, em parceria com Aldo Gama, avistou um casal em potencial. Munido de um mapa em cada mão e com uma sacola a tiracolo com mais um punhado deles, Araújo, que vendia o produto para aumentar a renda, gritou com mais força: “Olha o mapa! Tem do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná”. Ao se aproximar primeiro da mulher, mencionou a cidade paranaense de Cambé, que ela disse conhecer. A mulher, a quem viríamos identificar mais tarde como Fanni­ ­Erika von Ammon, nos apresentou, então, ao homem, um senhor alto, chapéu de feltro, e pediu que ele testasse o meu alemão. Araújo havia inventado uma história de que eu era seu sobrinho e que ele queria se certificar de que não custeava à toa as minhas aulas de alemão.

Segundo a historiografia, o concunhado do führer teria sido executado em Berlim, em 1945, por traição. Mas as versões sobre sua morte são divergentes e ninguém viu o corpo

Comecei com o clássico Hallo, wie geht’s Ihnen, Herr…?, induzindo-o a dizer o próprio nome. “Hermann. O meu nome é Her-mann”, disse, pronunciando as sílabas com certo orgulho, pausadamente. Daí em diante, o diálogo prosseguiu em alemão.

“Minha esposa disse que você gosta da Alemanha. Isso é muito bom. Mas eu nunca o vi por aqui. Você é novo no bairro?”

“Sim, sim. Acabamos de nos mudar para cá, não é mesmo, tio? (Araújo consentiu com a cabeça).”

“É bom ver que jovens brasileiros como você queiram aprender o alemão e se interessem pela Alemanha. Quem sabe em alguma próxima vez podemos marcar um almoço na minha casa?”

“Seria um prazer. E o senhor não fala nada de português?”

“Falo um pouco, aber nur mit dem em-pre-ga-da! (disse, estressando sílaba por sílaba, outra vez com certo orgulho).”

Neste momento, sem nenhum motivo aparente, a mulher pareceu desconfiar das reais intenções de “tio e sobrinho”. Sem maiores explicações, puxou o homem pelo braço e ambos partiram apressadamente, sem comprar nada, praticamente em fuga, olhares de cuidado a cada três passos, como a verificar se não eram seguidos.

Fegelein ao longo dos anos em fotos de documentos que tirou no Brasil e na Argentina – Imagem: Arquivo pessoal

Passados 15 anos do encontro inesperado, perícias de fotos e de assinaturas indicam, com uma margem desprezível de erro: o senhor Hermann que conheci na feira da Cidade Dutra é Hermann Fegelein, um dos personagens mais conhecidos do círculo íntimo de Hitler, casado com Gretl Braun, irmã de Eva Braun, a amante do führer, e assessor especial de Heinrich Himmler. As provas reunidas durante quase duas décadas de investigação lançam luzes sobre um episódio obscuro dos últimos dias do Terceiro Reich. Segundo a historiografia, Fegelein teria sido executado em Berlim na noite de 28 de abril de 1945, depois de um tribunal marcial condená-lo por conspiração contra Hitler. Tinha 38 anos. Os relatos sobre sua morte são, no entanto, conflitantes. Não se sabe comprovadamente quem o assassinou e de que maneira. E, embora o governo alemão insista na tese da execução, seu corpo nunca foi encontrado.

Ao analisar as diversas fotografias de Fegelein jovem e do homem que se refugiou, primeiro, na Argentina e, depois, no Brasil, o perito brasileiro Eduardo Zocchi concluiu: “Os resultados obtidos conduzem à conclusão de que realmente se trata da mesma pessoa. Estima-se, de modo aproximado, uma certeza nesse sentido por volta de 90%, ou até mesmo maior”. As características físicas e antropométricas permanecem compatíveis em todas as imagens, garante o laudo. Quais são: 1. Alinhadas as distâncias entre os olhos e a boca, o formato do face/crânio mantém-se inalterado. 2. As características físicas e dimensionais dos olhos e a expressão neles contida são as mesmas. 3. A pálpebra esquerda é, por assim dizer, “caída” em todas as fotos. 4. Há uma curva através da qual se desenvolve a linha da boca, com características assimétricas e formato não convencional. 5. (Além de) existir algo como uma “saliência” no queixo em todas as imagens.

Análise técnico-pericial ao longo dos anos: as elipses são todas de idêntico formato e dimensões – Imagem: Arquivo pessoal

A perícia grafotécnica também não fica atrás. “Tudo leva a crer que as assinaturas tenham se originado do mesmo punho”, atesta Osvaldo Negrini Neto, autor de mais de 10 mil laudos periciais, entre os quais aqueles do “massacre do Carandiru”. Segundo Negrini Neto, convergem a inclinação axial, o calibre dos traços, letras e vocábulos e o espaçamento intergramatical. Com destaque para cinco ­expressivas convergências: 1. O movimento peculiar descendente/ascendente oblíquo à esquerda é seguido de movimento curvilíneo horário tanto no “H” de ­Hermann quanto no “R” de ­Ramsauer. 2. O desenvolvimento ­característico dos grupos “ol” e “el”, idênticos nas assinaturas e manuscritos questionados e nos padrões. 3. As guirlandas em “u” formando um “m” e “n” característicos em todas as assinaturas (padrões e questionadas). 4. O ataque, desenvolvimento e remate do grama da letra “a”, notadamente nos inícios de palavras. 5. O grupo de gramas no final da assinatura, representando uma guirlanda em “u”.

“Ainda que elementos formais de nossa­ escrita sofram diversas alterações a cada período de sete anos e que, porventura, tentemos modificar nossa escrita individual, a genética gráfica é preservada ao longo da vida. Isso porque a escrita emana do cérebro, não sendo possível modificá-la sem se deixar a marca do esforço realizado para fazê-lo”, descreve o perito.

A perícia das imagens aponta: “os resultados obtidos conduzem à conclusão de que realmente se trata da mesma pessoa. estima-se, de modo aproximado, uma certeza nesse sentido por volta de 90%, ou até mesmo maior”

Há, no entanto, fatos ainda mais contundentes do que os resultados da perícia. Algumas das fotos analisadas foram compartilhadas por um descendente de Fegelein, originalmente enviadas ao investigador argentino Jorge Pedro Bordón­, que rastreia a fuga de nazistas para a América do Sul há décadas. “Quando Juan Pablo Ruppel me enviou fotos de sua família, ele queria que eu ajudasse a descobrir quem era, na realidade, o seu tio-avô, a quem ele conhecia pelo nome de Hans Ruppel, um dos outros nomes que Fegelein usou na Argentina, além de ­Otto Plantz ou Otto Pantz”, descreve ­Bordón, com quem entrei em contato no início de 2021, depois de encontrar um post seu no Facebook. No texto, o investigador afirmava que Fegelein havia realizado uma viagem da Argentina para o Brasil em 2003. Para provar, oferecia enviar fotos do nazista na velhice a quem quisesse comprovar a informação.

Por meio de Ruppel, o sobrinho-neto de Fegelein, Bordón também teve acesso a um livro de certidões de nascimento, com carimbos numéricos usados pela “cobertura vip”, programa do governo argentino que permitia hospedar e incluir como parente um refugiado em famílias alemãs residentes no país. Ao seguir tais números, o investigador encontrou uma mulher nascida em 1931 que viria a ser a responsável por incluir Hermann Fegelein e seu irmão Waldemar em sua família. “No fundo, Juan Pablo, que conserta ventiladores em Azul, uma pequena cidade a 300 quilômetros de Buenos Aires, queria mais informações do seu tio-avô na expectativa de poder requerer alguma herança, pois, desde que este havia se mudado para o Brasil, nunca mais enviara dinheiro a ele ou ao ‘tutor’”, comenta Bordón.

O tutor de Ruppel atendia pelo nome de Horst Schmidt, ex-sargento da 3ª Divisão SS Totenkopf. Suas características físicas, incomuns para a época, tornam ainda mais plausível a história da fuga de ­Fegelein para a América do Sul. ­Schmidt tinha cerca de 2 metros de altura e era um oficial de fácil reconhecimento na divisão Totenkopf (“Caveira”), comandada por Fegelein quando os nazistas invadiram a Polônia e a França. Em um retrato tirado em Buenos Aires, em 1947, também submetido a reconhecimento facial, ­Schmidt aparece ao lado dos irmãos Fegelein. Coube ao “gigante” cuidar de Ruppel após o pai, filho de Waldemar, abandoná-lo.

Exame grafotécnico, com destaque ao traçado da letra “a” minúscula exibindo características genéticas e às guirlandas em “u” formando um “m” e “n” característicos em todas as assinaturas (padrões e questionadas) – Imagem: Arquivo pessoal

Desprovido do auxílio financeiro do tio-avô, Ruppel passou a vender peças únicas do nazismo herdadas de Fegelein, que teria preferido manter os objetos na Argentina em vez de trazê-los ao Brasil. O comércio despertou a curiosidade da polícia de Buenos Aires, que, em 2016, invadiu a casa de Ruppel e confiscou 14 pistolas em sua posse, entre elas uma ­Parabellum calibre 45, número de série limitada 05, de valor inestimável por haver pertencido a Hitler. As peças acabaram por ser devolvidas ao proprietário, por constarem do Registro Nacional de Armas do país. Todas, menos uma: a ­Parabellum de ­Hitler, extraviada na delegacia, conforme relatos à época da mídia argentina. Anexada ao processo na Justiça aberto pelo sobrinho-neto, que tenta reaver o exemplar mais precioso de sua coleção, está o original de uma carta descritiva deixada por Fegelein. Na missiva, além da pistola de Hitler, estão listados outros armamentos de propriedade de duas figuras emblemáticas do nazismo, Joseph ­Goebbels, ministro da Propaganda, e Otto Skorzeny, responsável por operações especiais e descrito pelos Aliados como “o homem mais perigoso da Europa”.

Ruppel disse a Bordón que Schmidt, o tutor, teria repetido várias vezes que havia fugido da Alemanha em um submarino na companhia de outros 50 nazistas. Entre eles, além dos irmãos Fegelein, Eva Braun e o próprio Hitler. A suposta fuga do führer rendeu vários livros, baseados em relatos de documentos secretos, e alimenta uma das mais profícuas teorias da conspiração das últimas sete décadas (quadro à pág. 20). “Quando o sobrinho-neto herdou as armas, com elas vieram as fichas detalhadas de cada uma. Então, ele me disse o nome do dono de uma delas, Otto Pantz. Na hora, lembrei-me de ter esbarrado nesse nome antes. Havia informações de que esse homem havia emprestado uma casa, em Buenos Aires, a Mengele, quando este trabalhou por alguns meses no laboratório Roche, em 1951”, conta Bordón.

O “gigante” Horst Schmidt (primeiro à esq.) aparece ao lado dos irmãos Waldemar e Hermann Fegelein (terceiro e quarto respectivamente da esq. para a dir.), em foto de 1947. Os irmãos Fegelein após a foto ser passada por um programa de reconhecimento facial (à esq.) e durante a guerra – Imagem: Jorge Pedro Bordón e Arquivo Público da Alemanha

Até as descobertas reveladas nesta reportagem, Josef Mengele era o nazista mais conhecido a ter vivido seus últimos dias no Brasil. Acusado de experimentos humanos com crianças judias e de selecionar as vítimas enviadas à câmara de gás no campo de concentração de ­Auschwitz, Mengele escapou da extradição na Argentina no início dos anos 1960 e passou pelo Paraguai, antes de mudar de identidade e ser acolhido por amigos no estado de São Paulo. Parece existir um consenso de que o médico de formação, personagem de diversos filmes sobre os horrores nazistas, morreu em Bertioga, litoral paulista, em 1979, por afogamento, na sequência de um AVC, e foi enterrado sob o nome ­Wolfgang Gerhard. Um teste de DNA em 1992 comprovou sua identidade, sete anos depois da exumação do corpo de um túmulo em Embu das Artes, na Região Metropolitana, trabalho conduzido pelo delegado ­Romeu Tuma, então superintendente da Polícia Federal em São Paulo.

Ao contrário do Mengele e de outros nazistas que em um determinado momento tiveram de abandonar suas antigas identidades, Hans Georg Otto Hermann Fegelein seguia um padrão. O concunhado de Hitler nunca se privou de manter ao menos parte do nome verdadeiro: Hans Ruppel era Fegelein, Otto Pantz era Fegelein, Hermann Volkert Ramsauer, o homem da feira, era Fegelein. A certidão de óbito, assinada pelos médicos Herbert e Ernst Oltrogge e localizada pelo detetive Thiago Borges, diz que Ramsauer morreu em São Paulo, em casa, às 14h30, em 2 de outubro de 2008, em decorrência de um câncer de cólon. O corpo teria sido cremado no Horto da Paz, em Itapecerica da Serra. De acordo com as mensagens postas no Facebook por sua filha, Nicola Ramsauer-Bruner, residente nos Estados Unidos, as cinzas foram jogadas em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro, 16 dias após o falecimento. Na rede social, Nicola publicou fotos da urna funerária a caminho do mar. Uma delas acompanhada por uma legenda em alemão: “Meu pai havia escolhido exatamente este lugar, então todos nos encontramos lá e o enterramos no mar, de acordo com a sua vontade”.

Ficha de entrada de Hermann no Brasil, quando desembarcou aqui pela primeira vez em 11 de junho de 1964. E uma outra, da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que indica outra entrada em 28 de junho de 1974 – Imagem: SSP/GOVSP

Fegelein teria entrado pela primeira vez no Brasil em 11 de junho de 1964, pelo então recém-inaugurado Aeroporto de Viracopos, em Campinas, sob a identidade de Herman Ramsauer (sem um segundo “n” e sem o “Volkert” que viria a acrescentar depois). Portava um passaporte alemão de número B6464010, expedido em ­Delmenhorst em 14 de março de 1963. Após pesquisas na Alemanha conduzidas por Klaus Kaufmann, prefeito da cidade de ­Laichingen, foi possível confirmar que o casal descrito como seus pais na ficha de entrada no País – ­Friedrich ­Ramsauer e Elise Ramsauer – nunca teve um filho com esse nome. Munido dessa informação, Kaufmann escreveu diversas vezes para o único filho vivo conhecido do casal, Gerhard Ramsauer, hoje com 93 anos, mas nunca obteve resposta. O político também encaminhou um pedido de informações ao escritório de registro de residentes (Einwohnermeldeamt) de ­Lubeck, que consta no documento como a cidade natal de Hermann Ramsauer, mas a solicitação estranhamente se perdeu e teve de ser refeita dias atrás. A data de nascimento registrada no documento, 30 de setembro de 1930, é simbólica. Parece ter sido pensada para que não recaísse nenhuma suspeita sobre um homem que ao fim da Segunda Guerra Mundial teria 15 anos.

Fegelein chegou ao Brasil 11 dias antes de sua esposa à época, Maria ­Margarita Baltín Ramsauer, que desembarcou no Rio de Janeiro, a bordo do vapor Palmas, em 22 de junho. Trazia um bebê de 2 meses, André Ramsauer, nascido na Alemanha. Os três se encontraram em São ­Paulo e, em 8 de agosto, “Herman” e a esposa se registraram na Delegacia Especializada de Estrangeiros, mas em horários espaçados e com endereços diferentes. A residência dele: Rua Barão de Itapetininga, 46/13° andar. A dela? Avenida 9 de Julho, 543, apartamento 1.401. A profissão de Herman: “Industrial”. A de Maria Margarita: “Prendas domésticas”. A delegacia concedeu um período máximo de três anos de permanência no País. Maria Margarita voltou, no entanto, à Alemanha para dar à luz a mais uma criança, Nicola Ramsauer, em 22 de novembro de 1965. Não há informações sobre se Herman a acompanhou ou qual foi o seu destino durante esse período. É possível que a execução do piloto nazista Herberts Cukurs pelo Mossad, em 23 de fevereiro do mesmo ano de 1965, durante uma emboscada no Uruguai, tenham acendido o sinal amarelo entre os nazistas escondidos na América do Sul. Cukurs havia montado uma empresa de táxi-aéreo no Brasil, nos arredores da Represa de Guarapiranga e perto da Cidade Dutra.

O ATESTADO DE ÓBITO DE HERMANN RAMSAUER DESCREVE UM CÂNCER DE CÓLON COMO CAUSA DA MORTE EM 2008. O CORPO FOI CREMADO E OS RESTOS TERIAM SIDO JOGADOS NO MAR DE PARATY

Dez anos depois, Hermann (com dois enes) Volkert Ramsauer, gerente comerciário, voltou a desembarcar no Brasil, em caráter permanente, em 28 de junho de 1974, no mesmo Aeroporto de Viracopos, viúvo e acompanhado dos dois filhos, André e Nicola, que hoje vivem, respectivamente, na Alemanha e nos Estados Unidos. Na ficha de entrada, aparecem, entre outros dados, a sua altura, 1,84 metro, e o endereço na Rua São José, 880, no bairro de Santo Amaro.

Em 1982, Hermann Ramsauer casou-se outra vez. Desta vez, com Fanni Erika von Ammon (nome de solteira Hegel Dauch), divorciada, “do lar”, de origem alemã, nascida na Guatemala e que chegou ao Brasil, em 1955, aos 12 anos de idade. Günther Paul Dauch, parente que vivia em São Paulo e que se converteu em tutor da órfã Fanni von Ammon, integrava o conselho de administração da Mannesmann no Brasil, empresa alemã controlada pelo Partido Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. A família Dauch atuava ainda na Demisa Deutz Minas, fabricante de tratores com filial no Brasil, na Ferdinand Vaders, produtora de máquinas de corte de metal, e na corretora de seguros Weichert. Em 1965, Fanni, aos 22 anos, grávida de sete meses de sua filha, compunha a mesa de uma assembleia-geral convocada pela Weichert S/A, ao lado do primeiro marido, Fritz von Ammon, e um filho de seu tutor Günther.

Ficha de filiação de Fegelein ao partido nazista – Imagem: Arquivo Público da Alemanha

Fritz von Ammon é citado no livro ­Renascimento da Suástica no Brasil, de Erich Erdstein e Barbara Bean, como o mensageiro dos nazistas reorganizados na cidade de Marechal Cândido Rondon, no Paraná, na fronteira com o Paraguai. A comunidade alemã foi tema de reportagem do Jornal da Tarde de 18 de maio de 1968, sob o título “Onde está nascendo o IV Reich”. No mesmo município paranaense acolheu, em 1953, ­Ingrun ­Klagges, filha do responsável por ter outorgado, em 1932, a nacionalidade alemã ao até então austríaco Adolf Hitler, para que este pudesse concorrer à presidência da Alemanha.

Ao ser rastreado por Erdstein, à época investigador do Dops do Paraná, e encontrado com dois passaportes árabes falsificados, Von Ammon relatou que o governo paraguaio simpatizava com os fugitivos do III Reich e que no país vizinho se localizava a principal base de operações do grupo, mas que “os nazistas estavam muito bem organizados em toda a América do Sul, recebendo ordens dos mais importantes, até de Martin Bormann, que ainda dava as cartas”. Segundo a história oficial, Bormann, secretário particular de Hitler, morreu em Berlim, em 1945. Na ocasião, Von Ammon, de acordo com Erdstein, vaticinou: “Estamos ficando cada vez mais fortes. Também controlaremos o resto do mundo”.

AO CONTRÁRIO DE JOSEF MENGELE E OUTROS NAZISTAS ESCONDIDOS NA AMÉRICA DO SUL, FEGELEIN SEMPRE FEZ QUESTÃO DE USAR UM DE SEUS NOMES REAIS NAS DIVERSAS IDENTIDADES FALSAS

São muitas as versões de como e onde Fegelein teria sido morto, assim como da identidade de seus executores. A história mais propagada é a de que Fegelein foi capturado em 28 de abril em seu apartamento, no bairro de Charlottenburg, em Berlim, totalmente embriagado, enquanto se preparava para fugir, em roupas civis, para a Suécia ou Suíça, com sua amante húngara. Pesava a acusação de participação em um complô contra Hitler, tramado com seu superior direto, Heinrich Himmler, que tentava negociar a rendição dos alemães aos Aliados ocidentais, excluída a União Soviética, aparentemente sem o consentimento do führer.

A partir daí, os testemunhos tornam-se desencontrados e às vezes conflitantes. Em The Last Days of Hitler, o historiador britânico Hugh Trevor-Roper é enfático: “As verdadeiras causas e as circunstâncias da execução de Fegelein são um dos poucos temas neste livro sobre os quais a certeza de um final parece improvável”. Uns dizem que Hitler ordenou o julgamento de Fegelein por deserção em uma corte marcial. Heinrich Müller (o chefe da Gestapo) teria sido o primeiro a interrogá-lo. Após a condenação, o concunhado do führer teria sido executado. O próprio general que, em tese, presidiu o julgamento, Wilhelm Mohnke, conta, no entanto, outra versão. Diante do estado de embriaguez de Fegelein e de sua incapacidade em se defender, diz Mohnke, ele mesmo teria decidido encerrar o processo antes de qualquer condenação.

O sargento reformado Fernando Nogueira de Araújo – Imagem: Jorge Tung

O jornalista Patrick Burnside, em El Escape de Hitler, diz que, às 21 horas do dia 28, logo após Hitler tomar conhecimento da traição de Himmler por meio de um boletim da BBC, “Gestapo” Müller teria levado Fegelein para fora do bunker e ambos desaparecem. Para Burnside, os dois fugiram juntos naquela noite. A mesma tese sustenta Peter David Orr, em Eyewitness to Hitler’s Escape. Orr diz basear-se no relato de um militar alemão, identificado no livro pela alcunha de “o ajudante de ‘Gestapo’ Müller”, que também teria fugido de Berlim e terminado seus dias em Buenos Aires.

Há ainda divergências quanto ao local e a forma da execução. Segundo Traudl Junge, secretária de Hitler, Fegelein foi levado ao jardim da Chancelaria do ­Reich e “baleado como um cão”. De acordo com outros relatos, fuzilado por um pelotão de soldados no subterrâneo da mesma Chancelaria. Por fim, houve quem garantisse que Fegelein acabou enforcado por integrantes da SS em uma adega. Um ponto une, porém, todos os historiadores: nenhuma testemunha realmente viu Fegelein ser executado. Muito menos o corpo. Assim como faltam evidências da morte de “Gestapo” Müller em Berlim. Um vídeo de 1978, facilmente encontrado no YouTube, exibe a tentativa de uma jornalista disfarçada de entrevistar um alemão em um restaurante de Assunção, capital do Paraguai, em busca de informações sobre o paradeiro de Mengele. O homem seria Müller.

Fegelein liderou os “massacres dos pântanos de pripyat”, primeiro assassinato de civis em massa autorizado pelos nazistas, região entre a ucrânia e a bielorrússia. Mais de 14 mil judeus foram exterminados

Quanto à sobrevida de Fegelein, os seus pais, no pós-Guerra, asseguraram a um agente de contraespionagem norte-americano que um mensageiro havia trazido notícias de seu filho, dizendo que ele e ­Hitler estavam “bem e a salvo na Argentina”, como relatado pelo historiador ­John Toland, autor da biografia Adolf ­Hitler. Seja como for, oficialmente para a Alemanha, mesmo sem provas, Fegelein morreu em 1945. Assim me respondeu, enviando-me como única referência um link da ­Wikipédia, ­Peter Gohle, do escritório central de “investigação de crimes cometidos pelo nacional-socialismo”, com sede em ­Ludwigsburg. “Ele foi baleado em ­Berlim, em 29.04.1945, por ordem de ­Hitler por deserção. E o sistema de justiça alemão não investiga os mortos”, resumiu. A data citada por Gohle refere-se às páginas da Wikipédia em alemão e português, e as versões em inglês, espanhol, francês e italiano registram sua morte no dia 28.

Além do escritório de Ludwigsburg, em busca das digitais de Fegelein, entrei em contato com as filiais do Arquivo Nacional da Alemanha (o Bundesarchiv) de Berlim, Coblença e Freiburg (onde está o arquivo militar). Igualmente procurei o Arquivo Principal da Baviera, em Munique, que abriga a documentação pessoal de antigos integrantes da polícia do Estado, pois Fegelein fez parte dessa corporação por um curto período, no fim da década de 1920. Checar a autenticidade do passaporte de Herman Ramsauer, expedido em 1963, e tornar públicas as digitais de Fegelein permitiriam às autoridades alemãs esclarecer as suspeitas que pairam sobre o caso.

Chamado ironicamente por alguns de “Flegelein” (Flatulento) e descrito por muitos como “oportunista”, “cínico” e “desonesto”, Fegelein, que terminou a guerra como general de divisão (Gruppenführer) da Waffen-SS nazista, nasceu, em 30 de outubro de 1906, em uma pequena cidade da Baviera, filho de um tenente que possuía uma escola de equitação em Munique. Em 1925, ingressou em um regimento de cavalaria do ­Reichswehr (as Forças Armadas alemãs do período). Depois de estudar por dois semestres na Universidade de Munique, passou a trabalhar na polícia da Baviera, onde permaneceu até 1929, expulso depois de ser flagrado roubando as perguntas de uma prova na sala de um superior.

Sob o olhar de Fegelein ao fundo, Himmler oferece a Hitler uma coleção de soldados de porcelana por ocasião do seu aniversário de 55 anos, em 1944 – Imagem: Alamy/Fotoarena

Sua paixão por cavalos o aproximaria de Christian Weber, um dos primeiros integrantes do Partido Nazista. Influenciado por Weber, Fegelein filiou-se à agremiação em 1932, sob o número de inscrição 1.200.158. No mesmo momento, ingressou na SS, sob o número 66.680. Não demorou para chamar a atenção de ­Heinrich Himmler, comandante militar do esquadrão inicialmente criado para proteger Hitler, mas que se transformaria no principal instrumento do terror nazista. Tratado como filho por Himmler, de quem era assessor especial, ­Fegelein, “o menino de ouro”, foi indicado, em 1936, como técnico da equipe alemã de hipismo que participaria dos Jogos Olímpicos de Berlim. Com o início da guerra, em 1939, acabaria enviado à Polônia, onde comandou o 1º Batalhão de Cavalaria da 3ª Divisão SS Totenkopf, responsável pela execução de 1,7 mil “inimigos” nos bosques de Kampinos, ao redor de Varsóvia, em 7 de dezembro. Em 1941, foi formalmente acusado de roubar grandes quantidades de dinheiro e mercadorias de luxo de um transporte de Munique a ­Varsóvia, além de estuprar uma polonesa em ­Cracóvia. Nos dois casos, Himmler intercedeu a seu favor e barrou os julgamentos na corte marcial. No mesmo ano, Fegelein liderou uma operação “pente-fino” que ficaria conhecida como os “Massacres dos Pântanos de Pripyat”, em uma área entre as atuais Ucrânia e Bielorrússia, considerado o primeiro assassinato em massa de civis planejado pela Alemanha nazista. O relatório final de Fegelein, datado de 18 de setembro, afirma que, sob o seu comando, foram mortos 14.178 judeus, 1.001 partidários e 699 soldados do Exército Vermelho. Com perdas de 17 mortos, 36 feridos e 3 desaparecidos do seu lado.

Resposta do escritório central de “investigação de crimes cometidos pelo nacional-socialismo” sugerindo um link da Wikipédia como referência para a morte de Fegelein, em Berlim, em 1945 – Imagem: Arquivo Público da Alemanha

Em janeiro de 1944, após ser ferido várias vezes, Fegelein é transferido para o quartel-general do führer e nomeado oficial de ligação entre Himmler e Hitler. Este há tempos buscava arranjar um casamento de uma das irmãs de Eva Braun com algum hierarca nazista, um subterfúgio para permitir que a então amante o acompanhasse em eventos oficiais. Com o apoio de Himmler, Hitler convenceu Fegelein a se casar com Gretl Braun, grávida de outro homem (o destino do bebê é desconhecido). Em 3 de junho de 1944, quando ocorre o casamento, Fegelein finalmente é incluído no círculo íntimo de Hitler. Um mês depois, sobreviveria ao frustrado atentado à bomba contra o führer na “Toca do Lobo”, na chamada “Operação Valquíria”. Por estar sentado no extremo oposto da mesa sob a qual a bomba havia sido escondida, Fegelein sofreu apenas ferimentos leves no braço esquerdo.

Em 5 de maio de 1945, uma semana após a suposta morte de Fegelein em Berlim, Gretl Braun deu à luz a Eva ­Bárbara Fegelein, batizada em homenagem à sua tia, em um dos castelos que os nazistas mantinham em Obersalzberg, região montanhosa da Baviera a 140 quilômetros de Munique. As versões de que ­Fegelein ainda teve tempo de se despedir da mulher e da filha antes de fugir para a Argentina agora parecem se confirmar.  •


PERSONAGEM POP 

A obsessão em torno da figura de Fegelein

“Skins” dedicadas a Fegelein no Minecraft. E bonecos de ação que reproduzem a cena em que está bêbado no julgamento por traição – Imagem: Redes sociais

Uma cena do filme A Queda: As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang, 2004) em que o führer bate na mesa e grita o nome de ­Hermann Fegelein repetidamente rendeu notoriedade instantânea na internet ao hierarca nazista. Na película, após ser informado por um ajudante pessoal de que o concunhado está desaparecido, Hitler responde: “Como assim, você não consegue encontrar ­Fegelein? Continue procurando-o. Eu quero vê-lo imediatamente. Se ele simplesmente nos abandonou, isso é deserção, traição. Traga-me Fegelein! Fegelein! Fegelein! ­Fegelein!” No YouTube, surgiram inúmeras paródias. Em uma delas, Hitler grita o nome de Fegelin por dez horas. Em outra, o führer usa a Estrela da Morte para matar o subordinado, em referência a Star Wars. Em uma terceira, Fegelein é lançado ao espaço.

O nazista também possui várias skins dedicadas no jogo Minecraft, além de bonecos de ação que reproduzem a cena de seu suposto julgamento, mostrando-o bêbado, sentado em uma cadeira, cercado por oficiais nazistas. Até mesmo na rede social ­TikTok encontram-se ­vídeos curtos com imagens do seu casamento com Gretl Braun. Há ainda uma página dedicada às suas ­trollagens na ­Desciclopédia, site satírico que parodia a Wikipédia. Na mais recente versão, Fegelein trollou a morte e vive até hoje, provavelmente, no Brasil.

O fato de aparentemente ter “desafiado” Hitler rendeu-lhe a imagem de um “rebelde” no imaginário popular. Em 2012, um uniforme de Fegelein foi arrematado por 32 mil euros (cerca de 160 mil reais)­ pelo Museu Real do Exército e da História Militar de Bruxelas, apesar de um ex-funcionário ter lançado recentemente dúvidas sobre a autenticidade da vestimenta.


FATOS E TEORIAS

O destino de Hitler ainda aguça a curiosidade

O destino de Hitler ainda provoca debates – Imagem: Arquivo Público da Alemanha

As perícias e os relatos que indicam que ­Hermann Fegelein forjou a sua morte em Berlim e morreu impune no Brasil reabrem o debate sobre a fuga do líderes nazistas para a América de Sul ao fim da Segunda Guerra Mundial. Uma corrente de pesquisadores sérios e outra de investigadores amadores e adeptos de teorias da conspiração nunca aceitaram a versão de que o próprio Hitler se suicidou no bunker em Berlim, em 30 de abril de 1945. Há como separar fatos e boatos em meio a tantas histórias?

Durante a Conferência de Potsdam, realizada cerca de dois meses após a queda de Berlim, Joseph Stalin, ao ser perguntado como Hitler tinha morrido, disse saber que ele havia escapado e estava “na Espanha ou Argentina”. O líder soviético não foi, porém, o primeiro a levantar tal suspeita. Um informe do FBI, datado de 4 de setembro daquele ano, aventava a possibilidade de o führer “buscar refúgio na Argentina”.

Na apresentação do arquivo 65-53615 do FBI, parte da lista de documentos liberados ao público em 1998, aparece a seguinte referência: “Após a rendição da Alemanha em 1945, as forças aliadas ocidentais suspeitavam do suicídio de Hitler, mas não encontraram evidências de sua morte. Naquela época, temia-se que Hitler pudesse ter escapado nos últimos dias da guerra, e buscas foram feitas para determinar se ele ainda estava vivo”. Um desses informes desclassificados, de 14 de julho de 1945, chega a afirmar que “Hitler desembarcou na Argentina por volta do dia 20 de junho, seu rosto está diferente e o major do Exército argentino León Bengoa Llamas o acompanhou até o seu esconderijo em uma área do Chaco”.

Um áudio de 9 de maio de 1945 de Thomas Cadett, correspondente da BBC em Berlim, anunciava direto do bunker que os médicos soviéticos haviam chegado à conclusão de que o corpo meio queimado “de um homem com uma mecha de cabelo preto e um pouco de bigode preto” era apenas “um sósia não convincente de Hitler, e não o próprio”. Em 2009, um exame de DNA conduzido pelo cientista Nick Bellantoni, da ­Universidade de Connecticut, comprovou que o suposto crânio de Hitler em posse de Moscou desde 1945, considerada até então uma das provas mais definitivas de seu suicídio, que completa 77 anos em 30 de abril, era, na verdade, de uma mulher na faixa dos 40 anos.

Vistos sob essa ótica, os indícios de que Hermann ­Fegelein morreu no Brasil aumentam a credibilidade do testemunho de outro personagem da nossa história. O sargento Fernando Nogueira de Araújo, que me levou à feira da Cidade Dutra e garante ter participado do funeral de ­Hitler, em 1973, em um bunker situado na Avenida Espanha, 202, em Assunção. Desde 2003, funciona no local o Hotel Palmas de Sol, de propriedade de um alemão. O dono recusou-se a responder às perguntas recentes de jornalistas paraguaios que investigam os acontecimentos anteriores à inauguração do hotel.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1206 DE CARTACAPITAL, EM 4 DE MAIO DE 2022.

Marcelo Netto
Jornalista e mestre em Ciências Sociais. É coautor, com Aldo Gama, do livro 'O Homem que Enterrou Hitler' (Editora ContraCorrente)

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