Quantos mistérios existem no silêncio de uma mulher negra?

Sistema possui várias ferramentas para silenciar as mulheres negras que ousam ocupar protagonismos

Homem branco na Alemanha segura máscara de Anastácia, em protesto contra o uso de máscaras pelo coronavírus. Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP

Homem branco na Alemanha segura máscara de Anastácia, em protesto contra o uso de máscaras pelo coronavírus. Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP

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“O peso do silêncio vai acabar nos engasgando”. Frase de Audre Lorde que me atravessa! Falar ou calar é um dilema constante. Há situações em que escolhemos o silêncio, outras falar e inúmeras somos violentamente silenciadas. O silêncio está sempre presente em nossas vidas.

Apesar desta sociedade não ensinar a estarmos atentas ao que sentimos e observar os sinais ao nosso redor, mulheres negras aprenderam com suas ancestrais a recorrer aos instintos e saberes que herdaram, quando precisam decidir entre calar ou falar e sobretudo, ouvir os sinais do silêncio.

Quando esperam sorrateiramente de nós que falemos, silenciar- se pode ser uma estratégia. Não o silêncio que sufoca e quando rompido, produz a cura e sim, o das águas calmas de um rio de profundidade não aparente.

O silenciar por opção, frustra quem ardilosamente deseja arrancar de nós o som. Manter o que pensamos em segredo diante de emboscadas exige discernimento e lucidez. Minha ancestralidade sobreviveu também por guardar segredos. Sabiam que precisavam acessar o trabalho na cozinha para envenenar a família escravagista. Através da dança, música e manuseio da plantação, confundiram opressores.

 

Outro silenciamento é o epistemicídio, que Sueli Carneiro descreveu, que se configura “pela negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade; pela imposição do embranquecimento cultural e pela produção do fracasso e evasão escolar”. Em outras palavras, o epistemicídio acontece em toda tentativa de silenciar, anular, subalternizar, apagar e invizibilizar saberes não-hegemônicos.

Em dezembro de 2016 eu também estive imersa em uma situação que ilustra as estratégias utilizadas para silenciar mulheres, principalmente negras que ousam ocupar o protagonismo.

Era o encerramento de uma gestão de 4 anos e pessoas que estiveram na liderança apresentaram para uma plateia composta por gestoras das escolas da região, a maioria de mulheres não negras, as ações que realizadas durante o período. Eu liderava a Supervisão Escolar.

As demais lideranças que não eram negras, utilizaram o tempo de fala sem serem questionadas. Na minha vez, destaquei o pioneirismo da Supervisão ao priorizar as relações de gênero e raça no plano de trabalho. Destaquei o legado que deixaria, na esperança que a continuidade fosse preservada, o que não ocorreu quando foi sucedida no cargo por uma mulher não negra. Encerrei citando Frantz Fanon em os Condenados da Terra: “Todo expectador é um covarde ou traidor”.

Posteriormente, o cerimonialista convidou ao palco profissionais que se aposentaram para homenagens. Dentre eles, estava um supervisor que me causou muitos problemas. Ele não iniciou seu discurso agradecendo e sim, discordando da frase de Fanon citada por mim. Prepotentemente disse que nunca havia lido o autor e discordava totalmente. Seguiu desqualificando, afirmando que ele não era covarde, nem tão pouco traidor e continuou falando de si.

Quando terminou, foi ovacionado por alguns. Me lembro de ver os rostos de supervisoras escolares não negras que também foram resistentes a minha liderança, aplaudindo de pé. Novamente fui convidada para retornar ao palco e receber flores. Percebi o silencio e olhares atentos, como se esperassem uma reação.

Escolhi silenciar. O que dizer para uma plateia composta por gestores, grande parte não negros, que ovacionaram um homem branco, que falando de si, revelou sem constrangimento ignorância ao desconhecer a obra brilhante de Fanon, citado pela única mulher negra que esteve no palco?

Descortinar epistemicídio, racismo institucional e a misoginia? Dizer que o prefácio de Os Condenados da Terra foi escrito por Jean Paul Sartre, um branco? Quem sabe assim, respeitariam o trecho citado? Afirmar que a discordância aplaudida era apenas um recorte dos incômodos por serem liderados por uma mulher negra? Que aquele foi um comportamento que comprovava o quanto a branquitude é privilegiada mesmo revelando mediocridade e ignorância?

O ciclo naquele local estava encerrado para mim e eu sabia que eu, diferente do discordante e sua plateia emocionada, não precisava dizer mais nada. Sabia que no currículo das melhores universidades, não só deste pais, se faz referência a escrita antes silenciada de Fanon e de outras intelectuais negras (os). Era desnecessária uma resposta para um homem branco, sexagenário com medo. Penso que pessoas assim, poderiam aprender com o samba de Zeca Pagodinho diante do que não conhecem:

Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar. Mas enquanto não conseguem se conter, seguimos com os nossos segredos. Sabemos utilizá-los diante de covardias e traições. Alguns seres humanos agem como certas hienas que emitem sons para que o bando as reconheçam, quando se sentem ameaçadas.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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