‘Política ambiental precisa de implementação, não mais de regulamentação’

Webinar de CartaCapital reuniu a ex-ministra Marina Silva, a ativista Paloma Costa e os executivos Marcelo Behar e Rodrigo Figueiredo

Convidados de CartaCapital debatem sobre políticas ambientais no webinar sobre Mudanças Climáticas. Foto: Reprodução

Convidados de CartaCapital debatem sobre políticas ambientais no webinar sobre Mudanças Climáticas. Foto: Reprodução

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Os quatro convidados do webinar Mudanças Climáticas, apresentado por CartaCapital no YouTube, nesta terça-feira 16, avaliaram que as políticas ambientais não precisam mais de regulamentação, mas de implementação. Para os palestrantes, a recente conferência ambiental da Organização das Nações Unidas em Glasgow, na Escócia, mostrou que a comunidade internacional ainda tem uma série de tarefas pela frente para conter os efeitos das ações humanas.

Participaram do seminário a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede Sustentabilidade); a ativista Paloma Costa; o vice-presidente de sustentabilidade da empresa de cosméticos Natura, Marcelo Behar; e o vice-presidente de sustentabilidade da empresa de bebidas Ambev, Rodrigo Figueiredo.

 

 

Para Marina Silva, a COP-26 colocou o mundo “diante do espelho”, onde se pôde ver “a face da protelação” em relação às medidas ambientais. Em sua visão, a conferência cria a expectativa de maiores regulamentações de novos acordos, mas os tratados já firmados não têm sido postos em prática.

“Não tem mais espaço para regulamentação. O que nós precisamos é de implementação”, declarou a ex-ministra. “Implementação por parte dos governos e da maioria das empresas. Digo a maioria, porque existe uma quantidade de empresas significativa que já está comprometida a dar curso a uma agenda não só de propaganda, e sim de efetividade. Mas isso ainda é muito aquém.”

Para ela, a situação se agrava com a perda de um relevante ator internacional no tema: o Brasil. Sob o governo de Jair Bolsonaro, a historiadora disse sentir um misto de “tristeza, vergonha e indignação”, já que o País está entre os 17 territórios com condições de megadiversidade e agora carece de políticas que protejam as riquezas naturais.

Marina Silva fez referência ao mito do Leito de Procusto para descrever a situação atual do globo ante as mudanças climáticas. Nesse conto da mitologia grega, Procusto capturava vítimas em uma floresta e as fazia deitar sobre uma cama de ferro. Se a pessoa sequestrada fosse grande demais, Procusto lhe amputava a perna para ajustar o corpo ao comprimento da cama; se fosse menor do que a cama, Procusto forçava esticava o corpo até atingir o comprimento suficiente.

Durante muito tempo, o modo de produção e de consumo no planeta funcionou como a cama de Procusto, analisa a líder da Rede Sustentabilidade. Ela observa que importantes setores da indústria, sobretudo da energia fóssil, dedicaram investimentos bilionários em lobby para atrasar ações ambientais. Em vez de fazer o necessário, essas empresas acabam realizando o mínimo, e essa conduta ignora o fato de que o mundo já convive com eventos extremos, que vão de desastres pluviais ao aumento de temperatura.

“Fomos ajustando a realidade ao sistema, em lugar de trabalhar para que o sistema se ajuste à realidade”, afirmou Marina Silva no seminário de CartaCapital.

Paloma Costa, que é conselheira do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em assuntos sobre o clima, apontou para a falta de diálogo dos líderes políticos e dos empresários com a sociedade civil, especialmente os jovens.

A ativista reivindica, como prioridade, a criação de conselhos que tenham participação popular nas instâncias de decisão. Hoje, porém, o cenário é bem adverso para os que se dedicam à causa: ela relata, por exemplo, as dificuldades para que os jovens se alojassem adequadamente em Glasgow para acompanhar a conferência da ONU.

A própria estrutura das Nações Unidas é falha no sentido de obrigar países e empresas a adotar iniciativas nesse campo, diz ela. Trata-se de uma entidade supraestatal que “não segura a caneta das tomadas de decisão”, indicando mais ambições do que garantindo o cumprimento de tarefas, avalia.

“O que a gente pede é que se tenha mais espaço para a promoção do diálogo de forma justa, porque as negociações ainda acontecem de portas fechadas”, afirma. “Existem governos em diferentes partes do mundo que não querem dialogar com a sociedade civil. Então, como a gente vai chegar numa ação de verdade?”

Marcelo Behar e Rodrigo Figueiredo citaram esforços das empresas Natura e Ambev no combate aos efeitos ambientais das atividades de produção.

A Natura foi criada há 50 anos e, segundo Behar, opera há mais de 20 anos na Amazônia. O executivo afirma que a companhia se comprometeu a cumprir metas de redução de emissões tóxicas até 2030, as quais incorporam questões ambientais, sociais e econômicas, adotando a partir disso medidas que modificam a produção de embalagens e as operações logísticas.

“O conjunto empresarial vai ter que, cada vez mais, entrar para uma lógica que incorpore os limites do planeta e as mudanças sistêmicas necessárias para respeitar esses limites”, afirmou o vice-presidente de sustentabilidade da Natura. “Então, a gente está garantindo que, em dez anos, tudo que a gente produz vai ser reciclado e compostável.”

Rodrigo Figueiredo, da Ambev, disse observar que as cervejarias da marca têm gerentes ambientais desde os anos 1990 e que “a sustentabilidade está na estratégia da empresa”. O executivo declarou que tem enxergado uma mobilização maior entre as empresas, algo que se viu na COP-26: altos representantes do mercado que, no passado, não iam à conferência, agora marcaram presença.

Isso demonstra, para ele, que houve um aprendizado maior nessa agenda, sobretudo por cobrança dos consumidores.

“O consumidor do futuro não vão querer comprar produtos de empresas que não estão preocupadas com a sustentabilidade. Os investidores do presente já estão colocando pressão”, avalia. “Acho que falta implementação, mas a conscientização aumentou.”

CartaCapital iniciou debates semanais sobre as mudanças climáticas em 10 de novembro e realizará o último evento da série em 7 de dezembro. As discussões reúnem representantes das mais distintas organizações, para expor e contrapor seus pontos de vista sobre a pauta ambiental e suas responsabilidades relativas ao tema. As inscrições seguem abertas no site https://www.dialogoscapitais.com.br/; os participantes recebem de brinde um e-book e uma assinatura de 30 dias da revista.

 

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