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Pesos pesados entram em ação para defender Amazônia e democracia

Iniciativas e manifestações de empresários além da esfera dos seus negócios não são frequentes, mas se multiplicaram nos últimos três meses

Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real O retrocesso não interessa ao capital moderno. Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real
Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real O retrocesso não interessa ao capital moderno. Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real

Iniciativas e manifestações de empresários além da esfera dos seus negócios não são frequentes, mas se multiplicaram nos últimos três meses e chamam atenção por partirem de executivos que são acionistas de grandes grupos industriais e financeiros. Os temas incluem investimento público em pesquisa, desenvolvimento e inovação, preservação da Amazônia, apoio à diversidade, à cidadania, à cultura democrática e à consciência política. Um certo cansaço e alguma impaciência com a situação nas diferentes áreas parece mobilizar os pesos pesados corporativos. 

“O Brasil patina e perde terreno num mundo que avança cada vez mais rápido por estar este ancorado na Pesquisa & Desenvolvimento e Inovação. Ou aproveitamos nossas vantagens de nação poliformada, multicultural, de bons cientistas e muitas oportunidades, ou vamos aumentar rapidamente nossa distância em relação aos países desenvolvidos, com impacto social bastante relevante dadas nossas demandas. É burrice achar que temos tempo”, afirma Horácio Piva, do conselho de administração da Klabin. Piva, Pedro Wongtschowski, do conselho de administração da Ultrapar, e Pedro Passos, com a mesma posição na Natura, publicaram carta na imprensa em agosto contra o corte drástico sistemático de verbas para pesquisa, desenvolvimento e inovação nas esferas federal e paulista. 

Um mês antes, os presidentes do Itaú Unibanco, Candido Bracher, do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, e do Santander, Sérgio Rial, haviam lançado o Plano Amazônia, de ações voltadas ao desenvolvimento sustentável da região. “Não é a primeira vez que digo isso nem será a última: o Brasil é a nossa casa e precisamos cuidar muito bem dela. Vários indicadores mostram que não estamos cuidando bem da Amazônia. Somos atores empresariais relevantes e precisamos agir”, declarou Bracher. O Plano Amazônia, prosseguiu, “expressa a nossa preocupação e responsabilidade, como bancos, para promover o desenvolvimento socioeconômico da região e a conservação ambiental. Bradesco, Itaú Unibanco e Santander têm forças complementares e vemos grande potencial de geração de impacto positivo na Amazônia se trabalharmos em conjunto”, sublinhou o presidente do Itaú Unibanco. 

Brasil patina e perde terreno num mundo que avança cada vez mais rápido por estar este ancorado na Pesquisa & Desenvolvimento e Inovação, diz Horácio Piva

Faz tempo que alguns bancos e empresas expressam preocupação com o meio ambiente, mas a união de grandes instituições financeiras em iniciativas do gênero é novidade e indica a gravidade da situação naquela área. “Esse plano une Bradesco, Itaú e Santander para contribuir na luta pela preservação da Amazônia. Sabemos que o problema é complexo e por isso decidimos atuar em diferentes frentes que convergem no propósito de valorizar a Amazônia, abrangendo as cadeias biológica, ambiental e produtiva”, disse o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior. Em termos práticos, detalhou, a agenda das três instituições “contempla enfrentar o problema do desmatamento e apoiar financeiramente o cultivo, a regulamentação fundiária, a bioeconomia e o desenvolvimento das economias locais. Poderemos contribuir com recursos financeiros e apoio tecnológico para empresas e ONGs que atuam na preservação da Amazônia. Acredito que o ato de proteger a Amazônia significa investir em um mundo melhor e menos desigual, com crescimento econômico sustentável, consumo consciente e respeito ao planeta”. 

O Plano Amazônia traduz a preocupação de três grandes bancos

O presidente do Banco Santander, Sérgio Rial, explicou a relação com a sociedade buscada pelo trio de instituições financeiras e falou sobre os desafios à frente, nesta declaração: “É do interesse de toda a sociedade recolocar o Brasil no caminho do desenvolvimento sustentável e de longo prazo. Como instituição financeira, somos capazes de conectar diferentes camadas do tecido social, fazendo os recursos fluírem para onde são mais necessários e, muitas vezes, não chegam como deveriam. A dimensão dos desafios que enfrentamos hoje impõe uma atuação mais firme e veloz, o que tem nos levado a unir esforços em nossa indústria e ampliar o alcance das iniciativas, impactando outros setores e agentes econômicos de diferentes portes”.

As ações prosseguiram neste mês com a decisão do presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, considerado pelos seus pares o executivo mais inovador do País, de lançar um programa de trainee exclusivo para negros, medida combatida por grupos disseminadores de ódio, mas que teve repercussão positiva no mercado, como mostrou a valorização de 2,6% nas ações da companhia no dia do anúncio da novidade. Dias depois, o grupo Votorantim divulgou a promoção de debate sobre a cidadania, a cultura democrática e os rumos da consciência política dos brasileiros. 

A mobilização de empresários aumentou no fim de setembro com o anúncio de chapa para concorrer às eleições para a renovação da diretoria da Federação das Indústrias de São Paulo. Os candidatos são, pela primeira vez em décadas, influentes no mundo corporativo, dirigentes e também acionistas de grandes grupos industriais. Liderado por Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas, o maior grupo têxtil do Brasil e um dos principais da América Latina, dono das marcas Santista, Artex e Calfat, entre outras, a chapa seria composta também por André Gerdau, do grupo Gerdau, José Ermírio de Moraes, da Votorantim, Salo Seibel, da Duratex, Marcelo Ometto, da São Martinho, Flávio Rocha, da Riachuelo, e Dan Ioschpe, da Ioschpe-Maxion. Os atuais presidentes das entidades empresariais dos setores de fabricantes de veículos, máquinas e equipamentos, têxtil, eletroeletrônica, de higiene e gráfica compõem o segundo escalão. Gomes da Silva e demais empresários mencionados fazem parte do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, entidade dedicada ao desenvolvimento de pesquisas e de propostas para o avanço da indústria e da economia. 

Grandes industriais disputarão a Fiesp pela primeira vez em décadas

A mobilização de empresários corresponde ao retrocesso simultâneo sem precedentes nas áreas de pesquisa, desenvolvimento e inovação, indústria, meio ambiente e direitos. Elemento central ao progresso das nações desenvolvidas, a pesquisa científica e tecnológica e a inovação são a base da competitividade, área em que o Brasil está defasado faz muito tempo. Há anos o País é o penúltimo colocado em competitividade e só ganha da Argentina, em amostra representativa de países acompanhada pela Confederação Nacional da Indústria. As dificuldades do setor, em crise crônica, tendem a aumentar ainda mais com o congelamento dos recursos do orçamento de 2021 e os cortes drásticos das verbas para pesquisa, desenvolvimento e inovação nas esferas federal e estadual.

Os danos são cumulativos. Neste ano, 88% do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico foi contingenciado. Os financiamentos do BNDES para desenvolvimento tecnológico e inovação das empresas caíram de 2,5 bilhões em 2013 para 164,1 milhões em 2019 e a Embrapii, com contrato prestes a ser encerrado com o MCTI, recebeu um terço dos recursos previstos. São Paulo segue o governo federal com o projeto que ameaça com cortes de verbas a Fapesp, uma das principais instituições de fomento à pesquisa no País, e as universidades públicas do estado, que figuram entre as mais avançadas do Brasil. 

A indústria, principal geradora de aumento da produtividade e da inovação, recuou 12,3% no segundo trimestre, em queda histórica registrada pelo IBGE, e foi o setor que mais sofreu no tombo de 9,7% no PIB durante o período que corresponde ao auge da pandemia no País. O ramo de média-alta tecnologia caiu 42,8% e o de alta tecnologia, 15,3% no período. 

A produção mundial da indústria de transformação cai no mundo há três anos, mas a participação brasileira encolheu ainda mais do que a média e desceu da 15ª posição para a 16ª entre 2018 e o ano passado, registra a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido). Em 2010, quando o País ocupava a 10ª posição do ranking, a produção doméstica respondia por 2,05% do valor adicionado da transformação mundial, caindo para 1,24% em 2018 e 1,19% em 2019. O recuo espelha a queda da participação do setor no PIB, que atingiu 11% no ano passado, o menor nível da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. No ponto mais alto desta série, em 2004, a fatia no PIB foi de 17,8%. Os 11% de 2019 são também o percentual mais baixo desde 1947, calcula o economista Paulo Morceiro, da USP. O pico, de 27,3% de participação da indústria manufatureira no PIB, ocorreu em 1986, segundo o especialista.

Brasil é a nossa casa e precisamos cuidar muito bem dela. Vários indicadores mostram que não estamos cuidando bem da Amazônia, diz Candido Bracher

A indústria não vai bem, mas o agronegócio não está a salvo. Ataques do governo a grandes parceiros comerciais, cortes de verbas e subutilização de recursos para o combate a incêndios florestais, estímulo à mineração em áreas indígenas e condescendência diante da agropecuária realizada à custa de devastação da cobertura vegetal geram problemas para o setor. As ameaças de países europeus de rejeitar o acordo entre a União Europeia e o Mercosul por causa do descaso em relação à Amazônia, o crescimento do boicote a produtos exportados e a multiplicação de fundos de investimento com restrições a aplicações de recursos em ativos nacionais por causa do mesmo problema põem em risco o conjunto da economia e deveriam acionar alarmes em Brasília. 

Não é o que ocorre, entretanto, a julgar pela decisão do ministro do Meio Ambiente na segunda-feira 28 de acabar com a proteção aos manguezais e às restingas, para promover turismo e privilegiar a instalação de hotéis em 1,6 milhão de hectares de áreas de preservação. A iniciativa foi sustada, ao menos por enquanto, pela Justiça, devido ao “evidente risco de danos irrecuperáveis ao meio ambiente”. 

A profusão de indicadores preocupantes inclui o aumento do desemprego em 13,8%, para 13,1 milhões de indivíduos, segundo o IBGE, e a aceleração da saída de dólares de investidores estrangeiros. O conjunto da obra, incidente sobre uma economia estagnada há seis anos, mobiliza os empresários.

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