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O rochedo e o mar

Países de porte médio buscam espaço de inserção num mundo com cada vez menos nuances de alinhamento

O rochedo e o mar
O rochedo e o mar
Fórum. Erdogan, presidente da Turquia, volta a sediar a reunião de economias médias. Lula não compareceu, mas enviou o ex-chanceler Celso Amorim – Imagem: Antalya Diplomacy Forum Berkan Çetin/Anadolu Agency
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A atitude cada vez mais agressiva e intervencionista de Donald Trump impõe novos desafios não apenas para países antagonistas dos Estados Unidos, como China e Irã, mas para seus antigos aliados europeus e para um grupo de potências médias, do qual o Brasil faz parte, juntamente com a Índia, a Indonésia, a África do Sul e a Turquia, que buscam equilibrar-se entre o mero conformismo e uma confrontação, ainda que cuidadosa e seletiva. Esse equilíbrio se torna mais difícil à medida que os norte-americanos cobram alinhamento total a seus interesses, sob risco de marginalizar os considerados indóceis e insurretos.

O contexto desafiador ganhou nuances renovadas após o início do segundo mandato de Trump, mas ele não é completamente novo, tampouco restrito apenas ao antagonismo com os Estados Unidos. Embora tenha adquirido aspectos mais dramáticos após as agressões norte-americanas contra a Venezuela e o Irã, além das ameaças explícitas feitas contra a Groenlândia, o México, o Panamá e o Canadá, essa é uma situação que corresponde a uma estrutura hierárquica arraigada e persistente, da qual as potências europeias, de modo geral, também se servem para manter inalterado um arranjo de classes ou castas, no qual potências médias emergentes encontram dificuldade para ascender.

Pelas frestas desse sistema passam, às vezes, alguns feixes de luz, que buscam iluminar tanto protagonismos mais isolados, caso da Índia, ex-colônia britânica que desenvolveu um programa atômico próprio para fins militares, além de um ambicioso programa espacial, quanto coletivos de países que nutrem ambições semelhantes, cujo caso mais conhecido hoje é o do BRICS, grupo criado em 2009 por Brasil, Índia, China e Rússia, e que, a partir de 2010, passou a incluir a África do Sul, antes de incorporar, a partir de 2024, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, além dos novos parceiros Bielorrússia, Nigéria, Cuba e Bolívia.

A mediação feita pelo Paquistão entre os Estados Unidos e o Irã é um exemplo de como uma potência atômica regional busca exercer influência para além de seu círculo mais imediato de interesse. Da mesma forma, o papel que a Turquia busca desempenhar na mediação entre a Rússia e a Ucrânia ilustra essas articulações que ocorrem por fora de estruturas formais engessadas e imobilizadas, entre elas o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Os turcos, aliás, já haviam tentado, em 2010, em parceria com o Brasil, intermediar um acordo atômico com o Irã, que só não foi alcançado à época por intervenção dos Estados Unidos, que tinham declarado inicialmente apoio à iniciativa, depois puxaram o tapete, para acabar celebrando, em 2015, um trato muito semelhante àquele proposto cinco anos antes por Lula e Recep Erdogan.

É para articular esforços de protagonismo como esses que a Turquia realiza há cinco anos um fórum de potências médias, que se reúnem para debater a conjuntura internacional. Neste ano, o encontro ocorreu de 17 a 19 de abril, na cidade turca de Antalya. Segundo os organizadores, mais de 6,4 mil representantes de 150 países estiveram presentes. Um deles foi o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, o embaixador Celso Amorim, que viajou à Turquia enquanto o presidente Lula fazia um périplo por países da Europa, dos quais a Espanha foi o ponto alto, num encontro em defesa da democracia.

Há uma tentativa de escapar da “armadilha das potências emergentes”

Uma das questões prementes em ­Antalya foi como esses países devem reagir uma vez que os Estados Unidos passam a desconsiderar seus maiores aliados e a atacar o sistema internacional que os próprios norte-americanos ajudaram a erigir após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Como notou Ben Hubbard, chefe do escritório do jornal The New York Times em Istambul, presente na cúpula de Antalya, o caos internacional provocado por Trump em seu segundo mandato deu um sentido de urgência “à ideia de que a Turquia e outras potências ditas médias devem depender menos das grandes potências globais, e, em vez disso, estabelecer parcerias com seus vizinhos para administrar suas próprias regiões”.

É mais que isso. Pesquisadores que se dedicam ao estudo do comportamento dessas potências médias emergentes há muito mais tempo dizem que a preocupação dessa classe de países não é apenas regional, como disse Hubbard, mas de como interagir e interferir numa ordem mais ampla, que extrapola seus círculos mais restritos de interesse próprio.

Em um estudo publicado em março pela prestigiosa editora acadêmica britânica Routledge, dois brasileiros – Dawisson ­Belém Lopes, do Departamento de Ciência Política da Federal de Minas Gerais, e João Paulo Nicolini Gabriel, do King’s ­College de Londres, – afirmam que essas potências médias emergentes, quando buscam maior mobilidade no rígido arranjo hierárquico vigente, acabam constrangidas e sabotadas por potências maiores e mais bem estabelecidas, no que os autores chamam de “armadilha das potências emergentes”, ou EPT, na sigla em inglês.

Esse constrangimento imposto às economias médias pelas grandes potências se dá por meio do uso de instrumentos normativos e institucionais, em atitudes muitas vezes cínicas, com as quais norte-americanos, franceses, ingleses e alemães buscam, entre outros, impor padrões mínimos próprios das democracias liberais para emparedar países que não se enquadram nesse figurino.

Mesmo sem comparecer ao encontro em Antalya, Lula estava sintonizado com o teor dos debates na Turquia, para onde havia despachado Amorim. Prova disso é o fato de o presidente brasileiro ter dito, quando estava em Barcelona, na Espanha, que dentre os cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança – Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China – há “senhores da guerra” que não respeitam a ONU e enfraquecem a organização que deveria trabalhar pela paz. A declaração resume bem o espírito inconformado de um dos líderes dessas potências emergentes, assim como reflete sua impotência em alterar essa ordem injusta. •

Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O rochedo e o mar’

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