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O perigo Trump

Se Putin é autoritário e expansionista, o presidente dos Estados Unidos parece ser ainda mais ameaçador, por agir com uma boa
dose de irracionalidade

O perigo Trump
O perigo Trump
O presidente dos EUA, Doald Trump, em Davos, em 22 de janeiro de 2026. Foto: Mandel Ngan/AFP
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Afirmações categóricas sobre o futuro são sempre arriscadas e, provavelmente, equivocadas. Quando falamos sobre os perigos do presente, na realidade nos referimos ao que está por vir – ou seja, ao futuro. Feita a advertência, arrisco dizer que talvez vivamos o momento mais perigoso da humanidade desde o ocaso da Guerra Fria – e, quiçá, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Desde a vitória dos Aliados sobre o Eixo, o mundo passou por momentos de grande tensão e severos conflitos, como as guerras da Coreia e do Vietnã, além da crise dos mísseis em Cuba. No entanto, ao longo desse período, a institucionalidade internacional construída no pós-Guerra possibilitou certa contenção das grandes potências, cujos líderes se comportavam com alguma racionalidade. Hoje, tanto a institucionalidade quanto a racionalidade são deficitárias.

Institucionalmente, fica evidente a impotência dos organismos multilaterais – especialmente a Organização das Nações Unidas – para lidar com transgressões do direito internacional. Em 2002, quando George W. Bush decidiu invadir o Iraque sob a alegação mentirosa de que o país possuía armas de destruição em massa, afirmou que ou a ONU apoiaria a operação norte-americana ou seria relegada à condição de “sociedade de debates ineficaz e irrelevante”.

Em 2008, Vladimir Putin invadiu os territórios georgianos da Ossétia do Sul e da Abecásia, onde havia movimentos separatistas pró-Rússia – áreas que ainda controla. Em 2014, anexou a Crimeia, uma região ucraniana com ampla população russófona. Em 2022, invadiu a Ucrânia, deflagrando um conflito armado ainda sem resolução no horizonte. Apesar de o Tribunal Penal Internacional ter determinado a prisão do líder russo por crimes de guerra, nada de efetivo ocorreu.

Se Putin é autoritário e expansionista, Donald Trump ensaia ser ainda mais. É aqui que entra a dimensão da irracionalidade. A personalidade do presidente dos EUA é tão extravagante que faz o russo parecer razoável. Uma demonstração notável dessa psiquê problemática surgiu na semana passada, quando informou a seu homólogo norueguês, Jonas Gahr Støre, que sua postura belicosa – inclusive em relação à Groenlândia – se devia, em suas palavras, ao fato de “seu país ter decidido não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter impedido oito guerras”.

Se Trump não governasse a maior potência militar do planeta, tal muxoxo seria apenas uma patética birra infantil. Contudo, considerando-se a posição de poder a partir da qual ele não só profere essa lamúria narcísica, mas também ameaça tomar à força o território de um país integrante da mesma aliança militar da qual os EUA fazem parte, há, de fato, motivo para preocupação. Não bastasse a estupidez de arriscar implodir a Otan, as justificativas de Trump para se apropriar da Groenlândia revelam uma noção de interesse nacional baseada no imperialismo nu e cru, inclusive em relação a aliados históricos. A mensagem parece clara: se for necessária uma guerra de conquista para garantir acesso a recursos naturais, por que não fazê-la?

Uma postura semelhante é mantida pelo atual governo dos EUA em relação à América Latina, já que não apenas Trump, mas também integrantes de sua administração declararam pretender controlar “seu hemisfério”. Pete Hegseth­, secretário da Guerra, afirmou: “O presidente Trump disse que não vamos mais deixar isso (a presença chinesa) acontecer. Vamos recuperar nosso quintal”. Essa crença, de que somos uma extensão dos domínios norte-americanos, explica não apenas a abusada operação do sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, mas também a desfaçatez com que Trump afirma ser ele quem manda na Venezuela, determinando até mesmo a quem o ­país pode ou não vender seu petróleo e quem deve lucrar com esse comércio – os EUA e suas petrolíferas, claro.

Ainda que o comportamento de Trump tenha relação com transtornos mentais – algo aventado por especialistas em reportagem publicada pelo The Guardian em agosto de 2025 – o problema ultrapassa essa dimensão. Mesmo sendo um “narcisista maligno”, segundo o diagnóstico do psicólogo John Gartner, o presidente norte-americano não age sozinho. Trump opera com um partido majoritário nas duas­ casas do Congresso, nos governos estaduais e na Suprema Corte. Seus auxiliares no Executivo alinham-se às suas decisões, defendem-nas publicamente no mesmo tom hostil do chefe e contribuem para que tenham consequências. Ou seja, mesmo que ele deixe de ser presidente em algum momento, o trumpismo, que tomou de assalto o Partido Republicano, continuará lá, ameaçando o planeta e a própria sociedade norte-americana, inclusive colocando em risco as eleições de meio de mandato. •

Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O perigo Trump’

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