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O MST é tech

Em parceria com a China, o movimento desenvolve tecnologia de IA para melhorar a produção

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Sem dependência. A promessa é o Brasil se beneficiar do intercâmbio com os chineses e não ser apenas um importador de tecnologia pronta – Imagem: Redes Sociais/Forúm Brasil-China
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A vasta paisagem agrária é riscada por máquinas monumentais a serviço das monoculturas. O pequeno agricultor, responsável por produzir mais de 75% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, ainda depende, no entanto, do trabalho braçal. De acordo com o IBGE, apenas 7% da agricultura familiar tem acesso a maquinários, e no Nordeste esse índice cai para 2%. Os equipamentos tecnológicos usados para potencializar a produção de soja, milho e cana-de-açúcar não servem para áreas pequenas, com cadeias de cultivo mais diversificadas e complexas. A fim de romper esse isolamento digital, o MST passou a desenvolver, em parceria com a China, uma solução que promete revolucionar o trabalho dos pequenos camponeses. Os Pátios Inteligentes estão em fase de testes em diferentes regiões do País e em algumas áreas já elevaram a eficiência produtiva do milho em quase 200%.

A estrutura técnica é baseada em três eixos, afirma o professor da Universidade­ de Brasília Sérgio Sauer, diretor do Centro Brasil-China para Agricultura Familiar. O primeiro consiste na instalação dos Sensores IoT (Internet das Coisas) no solo para monitoramento de estações meteorológicas, umidade, fertilidade, pragas e doenças em tempo real. Essas informações são coletadas e transmitidas por meio de estações-base do sistema de satélite chinês BeiDou. Por fim, desenvolve-se a automatização dos maquinários específicos para o cultivo em pequenas áreas. Com essa triangulação, o agricultor tem à disposição planos de gestão de cultivo, acompanhamento das plantações e o controle a distância de máquinas para preparação da terra, plantio, manutenção e colheita. Como apenas 65% do campo tem cobertura de sinal de internet, com alta instabilidade, o sistema de satélite garante a conexão mesmo nas áreas onde há apagões digitais.

Esse tipo de “Agricultura 4.0” está amplamente difundida na China e no agronegócio de larga escala. O desafio, explica Sauer, é adaptá-la à agricultura familiar e ao clima brasileiro. “É como se estivéssemos treinando os algoritmos para a realidade do solo e do clima locais, é o processo de tropicalização.” O objetivo, diz, é promover uma troca de boas práticas entre os dois países, não apenas importar tecnologia pronta. “Uma coisa é ter acesso a determinadas ferramentas porque se tem condições econômicas para isso, como é o caso do agronegócio. A ideia aqui é desenvolver uma tecnologia social onde os agricultores serão sujeitos do processo.” Segundo Glaucia B­ack, da coordenação de produção nacional do MST, o “objetivo não é sermos apenas usuários. Seremos os próprios desenvolvedores desse instrumento de soberania tecnológica”. Os Pátios Inteligentes foram instalados em mais de 400 hectares na Fazenda Água Limpa da UnB e em dois assentamentos do MST, um em Apodi, no Rio Grande do Norte, e outro em Londrina, no Paraná. O próximo passo é ampliar a tecnologia na cidade paranaense e instalar novos espaços em Itapeva, no interior de São Paulo.

A solução tecnológica inclui agricultores não ligados ao MST, por meio dos sistemas de cooperativas locais. A estratégia do movimento, revela Back, é promover ações de formação e letramento digital para incluir os camponeses de forma geral. Segundo ela, o foco inicial é desenvolver as cadeias produtivas de grãos da cesta básica, como arroz, feijão e milho. Com o tempo, a ferramenta tende, porém, a ficar mais sofisticada e ser capaz de atender às necessidades complexas dos sistemas de agroecologia e agroflorestas. “Como automatizar uma agrofloresta, um cultivo extremamente complexo? Com a adaptação da ferramenta, vamos aplicá-la a outras cadeias produtivas.”

Os Pátios Inteligentes prometem revolucionar a vida dos pequenos agricultores

Back revela ainda que a solução tecnológica serve para gerenciar o armazenamento de grãos. Na China, sensores instalados nos silos permitem monitorar a qualidade e as condições de estocagem, para manter determinados alimentos guardados por mais tempo e com mais segurança. “O arroz pode durar até dois anos ainda com a casca, isso facilita a criação de estoques públicos de alimentos, e pode contribuir para o controle de produção e preço”, diz a agricultora. Com mais de 400 mil famílias assentadas, 185 cooperativas e 120 agroindústrias, o MST produz perto de 42 mil toneladas de arroz por ano e 23 mil toneladas de feijão. É o maior produtor de arroz orgânico na América Latina.

Para Sauer, o sistema “está tentando resolver uma lacuna histórica, porque a agricultura familiar, ou a produção em pequena escala, sempre ficou à margem, não tem acesso a tecnologias básicas como tratores”. Se bem adaptado, é apenas questão de tempo para o Brasil ser um exportador dessa tecnologia para os países vizinhos, principalmente na América do Sul, onde há condições climáticas e de solo semelhantes.

João Pedro Stedile, da direção nacional do MST, afirma que o agricultor familiar brasileiro poderia produzir muito mais com acesso a maquinários específicos. “Na China, eles resolveram a questão tecnológica no campo para áreas pequenas de 1 ou 2 hectares há muito tempo. Eles têm mais de 8 mil fábricas de máquinas agrícolas para pequenos cultivos.” A ideia é reproduzir esse sistema no Brasil. “Aqui, o agricultor só tem acesso ao maquinário para o agronegócio, que não atende às necessidades da agricultura familiar. Se tivermos acesso a maquinário, e menos dependência de importação de fertilizantes, podemos dar um salto de produção.”

O desenvolvimento da solução tecnológica inclui um ecossistema robusto composto de empresas, universidades e pelos governos do Brasil e da China, cuja articulação internacional é promovida pela Associação Internacional para a ­Cooperação Popular, conhecida como Baobab. A fornecedora dos equipamentos é a estatal chinesa ­Sinomach ­Digital Technology Corporation, que disponibilizou todo o sistema em português. Na área de pesquisa estão envolvidas a Universidade Agrícola da China e, no Brasil, a UnB, a Universidade Federal de São Carlos e a Unicamp, em São Paulo, além da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. De acordo com Sauer, a parceria tem propiciado intercâmbios de alunos da pós-graduação brasileiros e chineses. No âmbito governamental, há acordos assinados com a Embrapa, além de participação dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário e da Educação. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O MST é tech’

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