CartaCapital
O fator Mendonça
O indicado por Bolsonaro ao STF faz de tudo para “equilibrar” o jogo eleitoral
A campanha presidencial começa no dia 16 na web e 28 na tevê. Flávio Bolsonaro chegará à ela com mais rejeição e menos intenção de voto nas pesquisas, tudo obra da revelação de sua intimidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, das maquinações da família a favor do “tarifaço” de Donald Trump e da briga com a madrasta. Derrotar Lula ficou mais difícil, arrastá-lo para a lama tornou-se uma necessidade. Para que o rechaço ao presidente suba, o senador planeja usar na propaganda eleitoral supostos áudios em que uma empresária-lobista encrencada cita Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do petista. Teria munição ainda contra o ex-chefe de gabinete de Lula no Palácio do Planalto, Marco Aurélio Santana Ribeiro, outra figura próxima da lobista. O roteiro de Flávio foi revelado em 31 de julho no ex-Twitter por um sujeito que se identifica como “Thom” e tem entre seus seguidores o senador e um blogueiro morador da Austrália, que é uma espécie de porta-voz do clã Bolsonaro nas redes sociais.
Os estratagemas do primogênito de Jair não surpreendem, dado o modus operandi da extrema-direita. Espantosa é a aparente participação de um juiz no script: André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. Indicado pelo capitão para o STF, Mendonça cuida na Corte das duas investigações mais rumorosas do País. Uma é sobre o desconto indevido de aposentadorias pagas pelo INSS. A outra, sobre as falcatruas de Vorcaro e do finado Banco Master. Em ambas, o magistrado deu ordens à Polícia Federal, interferiu no trabalho da corporação. Por meio de aliados que sopram informações à mídia sem terem o nome revelado, constrói a versão de que deseja impedir a PF de direcionar a mira a opositores do governo. A impressão que deixa é a de que ele próprio quer pegar a mira e apontá-la para os adversários do clã que o alçou à mais alta Corte.
Mendonça, terrivelmente evangélico. E profundamente grato ao clã Bolsonaro – Imagem: Luiz Roberto/TSE
Jaques Wagner, líder de Lula no Senado até junho, responde a um inquérito no caso Master, cujo sigilo foi retirado por Mendonça. Que não fez o mesmo em um processo mais antigo sobre outro senador enrolado no Master, Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro. No TSE, aliás, tem tomado decisões a favor do PL e contra o PT diante de situações similares. Os desdobramentos das apurações do caso do INSS fizeram de Fábio Luís alvo de três inquéritos, dois dos quais correm sob a batuta de Mendonça. Nos últimos meses, o togado mostrou tanto em conversas com aliados bolsonaristas quanto com policiais interesse especial no filho do presidente da República e uma disposição para caracterizá-lo como sócio oculto de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
No fim do ano passado, um amigo do juiz, o deputado Sóstenes Cavalcante, do PL do Rio de Janeiro, revelava a portas fechadas a estratégia da oposição na CPI do INSS. A comissão havia sido criada três meses antes, no embalo das descobertas da PF de um esquema, que atravessara o governo Bolsonaro, de desconto indevido das aposentadorias. O dinheiro desviado abastecia certas entidades, como a Conafer, representante de agricultores familiares, e o bolso de dirigentes do INSS, como Alessandro Stefanutto, à frente do instituto de 2023 a 2025. O relator da CPI, aquele que ditaria as linhas investigativas, era o deputado que acaba de ser anunciado vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas. Segundo Cavalcante, “terrivelmente evangélico” como Mendonça, a oposição queria arrastar a família de Lula para a CPI. Tudo estaria combinado com o juiz, relator no Supremo das apurações conduzidas pela PF. Um interlocutor que tomou café da manhã com o parlamentar em novembro contou à época a CartaCapital o que tinha ouvido sobre a estratégia.
Fábio Luís, o Lulinha, e Marcola estão entre as obsessões de Mendonça, por conta das relações com Roberta Luchsinger. A ligeireza em investigar Jaques Wagner não se repete em casos parecidos – Imagem: Redes Sociais, Rafael Nunes e Alex Silva/Estadão Conteúdo
Um mês depois do café, a PF fez uma batida contra uma empresária e petista de coração, Roberta Luchsinger. Por requisição policial e ordem de Mendonça, Luchsinger passou a usar tornozeleira eletrônica e teve o passaporte confiscado. A PF havia chegado a ela ao vasculhar o celular do “Careca do INSS”, principal personagem do esquema e em prisão preventiva desde setembro de 2025. Depois encontrou repasses financeiros dele para ela, o que reforçou as suspeitas sobre a relação da dupla. Luchsinger é amiga de Fábio Luís e da esposa dele, Renata. No celular de Camilo havia uma mensagem recebida por ele de um funcionário na qual ambos tratavam de 300 mil reais “para o filho do rapaz”, seguida de um comprovante de transferência dessa quantia para a empresária. No início de 2026, Mendonça quebrou o sigilo bancário e fiscal do filho de Lula, a pedido da PF. No mês seguinte, a CPI do INSS faria o mesmo.
Ao encerrar 2025 e preparar 2026, a cúpula da Polícia Federal havia decidido trocar a área responsável pela Operação Sem Desconto. Sairia da Coordenação-Geral de Repressão a Crimes Fazendários e passaria à Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores. O motivo, conforme policiais a par dos fatos, era liberar pessoal da área de crimes fazendários para ampliar a equipe que atuaria na eleição. Campanhas, como se sabe, sempre veem correr grana criminosa. Uma operação da PF em Rondônia acaba de apreender 2 milhões de reais em dinheiro vivo que seriam usados para comprar votos. No planejamento da PF para o caso do INSS, as apurações seriam concluídas em abril ou maio, logo após a CPI terminar (em março). Esse calendário e a mudança da repartição responsável pelas apurações foram comunicados verbalmente ao gabinete de Mendonça, de acordo com testemunhas dos acontecimentos.
Mendonça tem demonstrado especial interesse em Fábio Luís, filho do presidente Lula
A partir de maio, começaram as pressões do juiz na PF, por meio de despachos e de viva-voz. Ele mandou que todo o material bruto obtido ao longo do inquérito fosse juntado ao processo, independentemente das análises da PF sobre o seu significado. Exigiu ser informado por escrito de eventuais trocas de policiais da investigação. O coordenador inicial do caso, o delegado Guilherme Figueiredo da Silva, tinha saído de cena. Por razões pessoais, não quis continuar na função depois da alteração da área interna da PF que seguiria com o caso. “As decisões do ministro André Mendonça foram equivocadas”, afirma um policial que acompanha a situação. “Não é porque ele foi ministro da Justiça e, portanto, o superior da PF, que sabe como a gente funciona, quais são as melhores técnicas.”
Mendonça comandou a pasta da Justiça com Bolsonaro entre 2020 e 2021. Na época, recrutou um delegado federal, Thiago Marcantonio Ferreira, para ser diretor de inteligência da Secretaria de Operações Integradas do ministério. O delegado ficou no posto até junho de 2022 e na sequência assumiu o setor da PF que faria a segurança dos presidenciáveis. Perto do fim da era Bolsonaro, conseguiu ser enviado para a Espanha para estudar por dois anos. Em outubro de 2025, de volta ao Brasil, foi empregado no gabinete de Mendonça no STF. Por ter ocupado altos cargos no tempo do capitão, possuía informações valiosas. O atual diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, teria tentado fazer um acordo com ele. Um bom posto na corporação em troca dessas informações. Marcantonio não topou e acabou escanteado. Agora considera Rodrigues um desafeto. Seria ele um dos que cochicham para jornalistas que o diretor-geral da PF comete obstrução de Justiça no caso do INSS?
Veremos o mesmo interesse por Willer Thomaz, outro “amigão”, de Flávio Bolsonaro? – Imagem: Redes Sociais
A alegada obstrução seria para proteger Fábio Luís. O filho de Lula é uma obsessão de Mendonça. Em uma reunião com policiais para tratar da Operação Sem Desconto, o togado ouviu que as primeiras conclusões da PF priorizariam a hipótese criminal principal (o desconto indevido de aposentadorias feito em nome de entidades associativas) e os alvos presos, como Stefanutto e o “Careca”. No relato de quem sabe o que se passou na reunião, Mendonça comentou que era preciso olhar também a situação de quem estava com o passaporte apreendido e de tornozeleira. O recado cifrado era óbvio: a polícia deveria concentrar-se em Luchsinger, elo com Fábio Luís e com “Marcola”, chefe de gabinete do presidente até meados de julho.
No primeiro relatório conclusivo enviado a Mendonça, a PF não acusou o primogênito de Lula, ao contrário do que Gaspar tinha feito na CPI. Esta havia finalizado os trabalhos sem um relatório final, pois o deputado havia feito vista grossa para crimes bolsonaristas. Um segundo relatório policial, pronto nos últimos dias, também não indicia o filho do presidente. “O sigilo do Fábio foi quebrado e não encontraram nada. Esse inquérito deveria ter sido arquivado na parte sobre ele. E os novos inquéritos nem deveriam ter sido instalados”, afirma o advogado Marco Aurélio de Carvalho, conselheiro jurídico de Fábio Luís. “Se ele não fosse filho do presidente, nada disso estaria acontecendo.” E o pai? Continua a dar carta branca para a PF investigar o primogênito, embora Carvalho veja uma polícia “conflagrada” e “instrumentalizada” por alas empenhadas em favorecer a oposição na eleição. “Se meu filho for acusado de qualquer coisa, ele será tratado como o filho de qualquer pessoa. Como eu. Não haverá nenhum privilégio”, declarou Lula em um podcast. “Vai ter que provar que é inocente. E se for culpado, vai pagar o que todo mundo tem que pagar quando erra.”
“Não haverá nenhum privilégio”, afirma o presidente Lula a respeito das investigações sobre o filho – Imagem: Miguel Schincariol/AFP
Apesar de não terem encontrado nada chamativo na conta de Fábio Luís, policiais desconfiam da relação entre ele, Luchsinger e o “Careca”, daí o pedido ao Supremo para abrir três inquéritos por “tráfico de influência”. A hipótese criminal é a de que Fábio Luís teria aberto as portas à amiga empresária no Dataprev, o serviço de dados do INSS, no Ministério da Saúde e em uma terceira área governamental para facilitar negócios de Camilo que lavassem dinheiro desviado de aposentados. Fábio Luís viajou do Brasil a Portugal em 2024 com passagem paga pelo “Careca” para conhecer uma fábrica de cannabis medicinal, remédio que o empresário venderia à Saúde. Dois dos três inquéritos contra o filho de Lula caíram por sorteio com Mendonça. O terceiro está com Flávio Dino.
Na reta final da CPI do INSS, Dino tinha anulado a quebra dos sigilos de Fábio Luís, vazados à mídia por integrantes da comissão. Ao autorizar a nova investigação contra o filho de Lula, o ministro mandou a PF apurar como os pedidos de inquérito foram parar na imprensa antes de chegarem ao Supremo. As defesas de Fábio Luís e Luchsinger cobraram formalmente da direção da PF uma apuração interna sobre o vazamento daqueles supostos áudios que Flávio Bolsonaro pretenderia levar à propaganda eleitoral. A propósito, a mais recente fase da Operação Sem Desconto, na terça-feira 4, autorizada por Mendonça, apreendeu o celular de um advogado amigo de Flávio: Willer Tomaz. O juiz também demonstrará interesse especial em Tomaz?
As investigações contra bolsonaristas avançam devagar, apesar das inúmeras evidências
A suspeita policial contra Marcola é semelhante àquela que pesa contra Fábio Luís, facilitar o acesso da empresária e do “Careca” ao poder. E há dinheiro envolvido, como o próprio admitiu em público. Marcola diz ter tomado com Luchsinger um empréstimo de 249 mil reais, já quitado, segundo ele. O ex-chefe de gabinete de Lula estava no comitê eleitoral até a história dos 249 mil vir à tona, agora não mais. Pelo visto, sua saída do Planalto em julho foi resultado do abacaxi à vista para o presidente às portas da campanha. “O problema dessas decisões de André Mendonça é o timing, bem às vésperas da convenção do PT que oficializou Lula como candidato”, diz um integrante do comitê lulista. “Quem achava que ele (Mendonça) teria uma atuação equilibrada, técnica, distante da política e da corrida eleitoral deve tirar o cavalo da chuva. A turma do Bolsonaro desistiu de promover Flávio e passou a atacar Lula, a adotar a tática de tentar elevar a rejeição ao presidente pela via das ações judiciais sobre o tema corrupção”, afirma outra fonte do QG.
CartaCapital questionou Mendonça, via assessoria de imprensa do Supremo, sobre o interesse específico no caso de Fábio Luís e as ordens à Polícia Federal tanto nas apurações sobre desvios em aposentadorias quanto sobre o Master. Não houve resposta. No caso do banco liquidado, as determinações foram dadas logo que Mendonça assumiu o processo no lugar de José Dias Toffoli, em fevereiro. No primeiro despacho, instruiu a PF a só abrir inquérito com aval dele e proibiu o compartilhamento de informações internamente, “inclusive em relação aos superiores hierárquicos”. A impressão inescapável é de interesse em preservar Toffoli, alvo de um dossiê sobre relações com Vorcaro e o Master entregue por Rodrigues ao presidente do Supremo, Edson Fachin. O dossiê foi a causa de Toffoli deixar o caso. Mendonça é grato a ele. Foi com Toffoli à frente da Advocacia-Geral da União em governos passados de Lula que Mendonça começou a subir na estrutura.
Dois meses após tomar as rédeas do caso Master, Mendonça havia feito três reuniões com policiais do caso, para dar instruções de como queria que as investigações corressem, conforme gente ligada a ele contou a jornalistas. Durante e após essa rodada de orientações, tomou decisões que, mais uma vez, permitem supor que tem preferências sobre quem deve ser atirado à fogueira e quem não deve. O magistrado levou 27 dias para autorizar a PF a fazer uma operação contra Ciro Nogueira. Com Jaques Wagner, foram nove. Com Henrique Vorcaro, pai de Daniel, o “irmãozão” de Flávio Bolsonaro, foram 16. Com Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, banco estatal de Brasília, demorou 22 dias. Detalhe: PHC topa delatar Ibaneis Rocha, bolsonarista que governou o Distrito Federal até março. Com outro ex-governador bolsonarista, Cláudio Castro, do Rio, Mendonça não autorizou a PF a vasculhar o escritório de advocacia do político, onde a polícia acredita estarem guardados certos segredos. Mas, contra a posição da Procuradoria-Geral da República, permitiu que os federais apreendessem dinheiro e relógio de Wagner.
Ferreira saiu da PF para o Supremo. No TSE, Nunes Marques forma dupla de ataque com Mendonça – Imagem: Rosinei Cotinho/STF e Gustavo Moreno/STF
Mendonça também tem sido contraditório no Tribunal Superior Eleitoral, do qual é vice-presidente. Em junho, Flávio Bolsonaro surgiu em avião a atirar em embarcações identificadas como PCC, CV e PT, tudo feito por Inteligência Artificial. Era uma forma de associar o partido a facções criminosas. Os petistas foram ao TSE contra o vídeo, e Mendonça, relator do processo, negou o pedido de tirar do ar. Para o juiz, o conteúdo era satírico e se inseria no escopo da “liberdade de expressão”. Ele agiu de outra forma em relação a um vídeo do deputado petista Lindbergh Farias, do Rio, que associava Flávio a milicianos condecorados pelo “zero um” quando era deputado estadual. Aceitou uma ação do PL e mandou excluir as postagens. Não viu liberdade de expressão, mas imputação de crime. Também não enxergou liberdade de expressão em outra afirmação de Farias nas redes sociais, a de que a proposta de mudar a jornada de trabalho apresentada no Senado pelo coordenador da pré-campanha de Flávio cria a escala “7 por 0”, pois o serviço seria pago por hora. Ordenou o sumiço da postagem.
O TSE é comandado por outro indicado de Bolsonaro ao Supremo (a Corte eleitoral sempre tem três integrantes do STF em sua composição). Kassio Nunes Marques inovou ao pegar o leme do tribunal: incluiu a si mesmo na lista daqueles que poderiam cuidar de processos. Um dos casos em suas mãos foi uma ação do PT contra um vídeo no qual Flávio dizia que Lula tinha ido aos Estados Unidos em maio encontrar Donald Trump na qualidade de “defensor do PCC e do Comando Vermelho”. O presidente, como se sabe, não concorda com a decisão norte-americana de classificar as duas facções como “organizações terroristas”, pelas eventuais consequências no sistema financeiro. Ao rejeitar o pedido petista, Nunes Marques escreveu não ter havido demonstração de que o vídeo apontava fato sabidamente inverídico. Tradução: o juiz endossou a fake news bolsonarista.
Por estas e outras de Mendonça e Nunes Marques, uma ala do Supremo está pronta para atuar como última instância eleitoral durante a campanha. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O fator Mendonça’
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