CartaCapital
O casarão que ninguém via
Comprado sem projeto nem documentação, imóvel centenário de São Paulo guardava a assinatura ilustre de Ramos de Azevedo
Allan Ruiz caminha pela Rua Roberto Simonsen, no Centro de São Paulo, como quem anda dentro de um mapa. Empresário e, por conta própria, uma espécie de caçador de prédios perdidos, transformou a busca por imóveis históricos e ociosos em uma rotina: catalogou mais de 350 no centro paulistano nos últimos sete anos.
Acaba de comprar mais um no logradouro, o número 97, um casarão que, por décadas, quase ninguém pareceu notar, embora esteja cercado de museus e marcos da história paulistana. Na fachada, ainda se lê outra numeração: o 6 da antiga Rua do Carmo, uma das vias mais velhas da capital paulista, erguida sobre um caminho ainda mais antigo. “Era a passagem da Trilha do Peabiru”, diz Ruiz, referindo-se à rede de rotas indígenas que cruzava boa parte da América do Sul muito antes de qualquer europeu chegar aqui.
Quando fechou a compra, Ruiz não fazia ideia de quem havia projetado aquele prédio. Não havia planta, registro nem nome. Foi preciso seguir uma pista quase acidental, gravada, literalmente, na parede, para descobrir que o casarão carregava a assinatura de um dos arquitetos mais importantes da história de São Paulo. E não só a edificação: ao redor dela, a vizinhança inteira guarda pedaços dessa história.
Na mesma rua ficam o Solar da Marquesa, a Casa da Imagem e o Pateo do Collegio. Em frente, o Museu das Favelas ocupa outro prédio antigo, um dos vários que dividem com o casarão de Ruiz um mesmo traço arquitetônico, algo que só mais tarde ele conseguiria explicar. Poucos metros adiante: Catedral da Sé, CCBB, Farol Santander, Edifício Martinelli, Mercado Municipal. “Num raio de 100 metros você tem mais de meia dúzia de equipamentos culturais”, diz ele. Foi essa vizinhança que decidiu o destino do imóvel: Ruiz quer transformá-lo em mais um espaço cultural.
O antigo solar foi comprado por Allan Ruiz, espécie de caçador de prédios perdidos
A visita ao interior não segue roteiro. O empresário para diante de uma coluna, aponta uma janela, atravessa o pátio, sobe uma escada, interrompe a fala diante de uma parede onde antes havia uma porta. Ele conta que o prédio é mais do que um velho palacete: nasceu, em 1916, para abrigar duas instituições médicas, a Policlínica, de atendimento gratuito, e a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, hoje Academia de Medicina. Duas casas foram demolidas para dar lugar a ele.
No pátio central, Ruiz aponta vigas e pilares à mostra. “A gente consegue ver todo o esqueleto”. É um dos primeiros prédios da cidade erguidos em concreto armado, tecnologia ainda nova na época, e é esse esqueleto que explica boa parte de sua sobrevivência. As janelas enormes e o pé-direito alto chamam atenção mesmo sem que se saiba ainda o motivo. Mais adiante, ele para diante de um trecho de alvenaria com tijolos antigos expostos. Passa a mão sobre um deles, quebrado, e mostra uma inscrição gravada na cerâmica. “Todos os tijolos têm a marca da olaria que os produziu.” Foi ali que começou a investigação que mudaria a história do prédio.
Sem documentação (o antigo dono não tinha os projetos, e o pedido andava devagar na Prefeitura), Ruiz fotografou a marca e pesquisou no celular. Caiu no projeto Tijoloteca, da pesquisadora Angélica Moreira, dedicado a catalogar tijolos históricos brasileiros. Após enviar o endereço do imóvel, recebeu uma resposta que quase o fez cair para trás: ela conhecia o prédio, e em 2009 havia sido contratada para mapear os edifícios que deram origem à medicina paulistana. “Esse imóvel era da Policlínica e foi projetado por Ramos de Azevedo”, disse a especialista.
A confirmação veio dias depois no Arquivo Histórico Municipal: desenhos assinados pelo próprio Ramos de Azevedo, memorial descritivo, documentação da aprovação, tudo surpreendentemente bem conservado. Foi ali que Ruiz entendeu, enfim, o porquê das janelas enormes e do pé-direito alto: no memorial, o arquiteto defendia ambientes amplos e ventilados como estratégia de assepsia. Bem antes dos recursos hospitalares modernos, a arquitetura tinha esse papel.
Diante de um dos vitrais coloridos, ele lembra da primeira vez que entrou ali, quando negociava outro imóvel e atravessou o casarão por acaso. “Subi ao salão nobre no fim da tarde, e a luz entrava alaranjada. Fiquei fascinado”, relata. Fechado por cerca de 85 anos, o prédio preservou quase tudo do original. Depois da compra, uma caminhada guiada reuniu mais de 500 pessoas. “As pessoas se interessam por patrimônio histórico, eu achava que não.”
No fim do passeio, cruza o saguão o artista plástico Alex Flemming, recém-chegado de Berlim. Encontrou o prédio pela internet e decidiu apresentar ali, pela primeira vez no Brasil, duas séries produzidas na Alemanha: “Retratos Invisíveis” e “Apocalipse”. A mostra será inaugurada em 9 de agosto, com entrada gratuita. Para ele, o próprio estado do edifício, antes da reforma, é que justifica a exposição. “Aqui também estou falando de Eros e Tânatos. Eros é esse vitral lindíssimo que restou. Tânatos é a ruína, os tijolos aparentes.”
O palacete, vizinho de uma edificação assombrada pela Loira do Banheiro, abrigará exposições de arte em breve
A reportagem termina ao lado, em um almoço no restaurante Cama e Café, instalado em outro casarão da antiga Rua do Carmo, de 1870, hoje Ponto de Memória e Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura. Entre um prato e outro, o responsável pelo espaço, Luiz Antônio Pereira, solta a informação de que ali viveu Maria Augusta Borges, a Loira do Banheiro.
Sim, a lenda que assombrou gerações de crianças em banheiros de escola e virou manchete de jornais, de repente aparece sobre a mesa, em nosso almoço, com nome, sobrenome e biografia. Filha do Visconde de Guaratinguetá, Maria Augusta casou-se ainda adolescente com o conselheiro Antônio Francisco Dutra Rodrigues, professor do Largo São Francisco e conselheiro de Dom Pedro II, trajetória reconstruída pelo historiador Diego Amaro no livro A Loira do Banheiro: A Dama e o Conselheiro (Ed. Viseu). Anos depois abandonou o casamento, mudou-se para o Rio e depois para a França, onde morreu em 1891.
A história ganhou vida própria depois de sua morte: a família vendeu a casa onde ela cresceu, ali se ergueu um colégio, e o banheiro feminino passou a ocupar o mesmo lugar do antigo quarto da jovem. Começaram os relatos de perfumes e torneiras que se abriam sozinhas. E a adolescente entediada de um casamento arranjado no século XIX virou uma das assombrações mais populares do imaginário brasileiro. “Aqui ela nunca apareceu”, diz o dono do restaurante, quase se desculpando por decepcionar. “Mas foi aqui que viveu.” •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O casarão que ninguém via’
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