Nirlando Beirão: amigo generoso que escrevia sinfonias

Nem a doença infame conseguiu quebrar seu espírit

Nirlando Beirão: amigo generoso que escrevia sinfonias

CartaCapital

Ler os textos de Nirlando Beirão era como ouvir uma sinfonia. As primeiras palavras, os primeiros acordes do violino, acomodavam gentilmente o leitor nas portas de uma montanha-russa de sensações. De repente, não mais que de repente, soavam as flautas, os oboés, os clarinetes. Quando se estava confortavelmente aninhado na melodia, explodiam os trombones, as tubas e as caixas. Até o ápice. Até a iluminação.

Embora angustiado nos últimos tempos, como qualquer brasileiro com um mínimo senso de responsabilidade, Nirlando manteve a contundência em tom mavioso. Seus escritos nunca saíam do tom, nunca desafinavam. Enquanto muitos gritam, urram, na tentativa de se fazer ouvir, Nirlando sussurrava ao pé do ouvido – e era difícil contestá-lo. Um tipo de talento que, me desculpem os demais brasileiros, só viceja entre as montanhas de Minas Gerais.

Seu texto era elegante por que espelhava o espírito do autor. Amável, generoso, divertido, Nirlando preenchia qualquer ambiente com alegria e serenidade. Não sei dizer se tinha inimigos ou detratores – invejosos talvez, muitos, imagino -, mas seria preciso um grau extremo de desumanidade e boçalidade, no patamar de Bolsonaro, para lhe querer mal.

Nem a doença terrível, cruel, conseguiu dobrar esse espírito. Em “Meus começos e meu fim”, livro autobiográfico, Nirlando descreve assim a enfermidade que lentamente obstruiu sua voz e movimentos, que de forma impiedosa o empurrava para uma jaula. “A noite me enche de palavras – aquelas que o dia, pouco a pouco, me faz perder. As palavras, nos sonhos, me surgem inteiras, em sua acepção gráfica, e em barafunda que sugere quebra-cabeças.”

Nirlando sussurrava ao pé do ouvido – e era difícil contestá-lo

Os quebra-cabeças, ele montou até o fim. O último texto publicado em CartaCapital chegou às minhas mãos na quarta-feira 29, véspera de sua morte. Mordaz, tratava da profusão de fardados aboletados em cargos públicos em Brasília e integrantes da guarda pretoriana que mantém um celerado no comando do País. Irretorquível. Mais uma sinfonia.

Vi o Nirlando Beirão pela última vez no lançamento de “Meus começos e meu fim”, uma memorável noite de autógrafos em um restaurante nas imediações de sua casa. Mal pude cumprimenta-lo, dada a quantidade de amigos e admiradores que o cercavam de carinho. Vieram as loucuras de 2019, as atribulações do fim de ano e, por fim, o isolamento social. Adiei as visitas, ficaram para outro dia, quem sabe a gente ainda se veria, vou levar um vinho da próxima…

Ter ficado tanto tempo distante é uma das muitas frustrações que carregarei até o fim dos meus dias. De gente como Nirlando Beirão, é preciso ficar perto o máximo que se puder.

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É diretor-executivo de CartaCapital.

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