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Não há o que comemorar, general

Saldo de regime militar foi a morte do pensamento e de pessoas, a corrupção endêmica, o rombo desigual na economia e tantos outros males

O General Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil. Foto: Suamy Beydoun/AGIF/AFP FOTO: Suamy Beydoun/AGIF/AFP
O General Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil. Foto: Suamy Beydoun/AGIF/AFP FOTO: Suamy Beydoun/AGIF/AFP
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A dívida externa é metade do PIB, a recessão é gigantesca e todos se referem aos anos que passam como a década perdida. Desemprego em massa e a violência explode nos grandes centros, muito em função de uma política de exclusão social, que concentra a maior parte dos recursos obtidos no pagamento dos juros da dívida, alimentando uma agiotagem sem fim.

Grandes obras públicas, icônicas, são paralisadas e ninguém faz a menor ideia do quanto se gastou, quanto se sangrou de recurso público em obras gigantescas, feitas a partir da obtenção de financiamento externo, estimulando uma corrupção nunca antes registrada, em que bilhões de dólares simplesmente foram cobertos pela Selva Amazônica. O país se desmancha e os senhores do castelo não sabem como fazer.

As pessoas saem à ruas e a porradaria chega sem dó. Guardas batem duro e atiram-se com cavalos, cacetetes e bombas sobras as multidões. O Presidente da República está isolado. Uma frente ampla, da direita à esquerda se forma, para tirar o país da zona de caos em que foi atirado. Tão isolado estava o Rei que seu candidato perde as prévias em seu próprio partido, sendo absolutamente certo que esse partido somente existia para chancelar todo e qualquer ato do Governo Central, ao qual era umbilicalmente atrelado, mas nenhuma mudança à vista, a disputa fora apenas cartorial e tudo parece correr como antes, não fosse a frente eleitoral levar milhões de pessoas às ruas, pedindo o fim, exigindo que se fossem e nem mais cavalos, cavalarias, bombas e porradas parariam as multidões de todos os dias pelo país.

 

Institucionalmente caótico, economicamente falido, impopular, com as maiores taxas de desemprego da história, com a corrupção altamente profissionalizada se dando bem, a censura prévia selecionava previamente o que poderia e o que não poderia o povo saber, a miséria fazia vitimas fatais da fome endêmica, a inflação registrando níveis de pós-guerra, perdemos o sentido do valor das coisas e todos corríamos atrás da alta de preços, que mudavam de uma hora para outra.

Esse foi o saldo do regime militar, de vinte e dois anos de duração. Transamazônica, Perimetral Norte, Ferrovia do Aço, Ponte Rio-Niteroi, delegações do FMI, que desciam no aeroporto do Galeão com ares de intervenção.

Portanto, General Mourão, comemorar o quê?

“Há 56 anos, as FA intervieram na política nacional para enfrentar a desordem, subversão e corrupção que abalavam as instituições e assustavam a população. Com a eleição do General Castello Branco, iniciaram-se as reformas que desenvolveram o Brasil. #31deMarçopertenceàHistória”, afirmou em sua rede social. Foto: Romério Cunha/VPR

O regime militar fez outras vítimas invisíveis, dentre todas, o pensamento. Um regime de censura prévia desestimulou a criação artística, literária e científica. A mediocridade foi se impondo porque pensar era perigoso, porque pensar desafia e desafiar poderia custar a prisão ou a vida.

Eu me lembro das aulas de Direito de professores temerosos que se limitavam a ler a letra da lei. Liam os Códigos (de Constituição não se falava, mesmo porque não existia) e criaram um modo de reproduzir informações, mas jamais de multiplicar conhecimento.

A geração que antecedeu o golpe militar e foi por ele atingida como um meteoro não foi substituída: Milton Nascimento, Chico, Caetano, Gil e outros que se foram, uns dizimados nos porões da ditadura, como Geraldo Vandré que, para dizer que não falei flores, falou e foi preso por ter falado de flores que venciam canhões.

O regime militar nos atrasou em relação ao mundo, nos tornou provincianos e isolados, consumiu nossas forças e matou nosso pensamento.

Criou o regime mais concentrador de rendas no planeta, sob um slogan que era preciso primeiro fazer o bolo crescer, para, somente então, começar a reparti-lo.

Fomentou exilados, gente que sair errante pelo mundo, muitos com famílias que jamais se encontraram novamente. Era o cântico inicial da turma do “vai pra Cuba!”, como se a alguém fosse dado o direito de determinar quem fica e quem não fica na terra em que nasceu.

O regime militar fomentou o racismo, não o criou, mas assoprou sua brasa viva. A ditadura militar apagou o negro e a possibilidade de um negro se tornar um herói nacional, de negros e de brancos, criando um herói incontestável, exatamente por se tratar de um herói mudo, Tiradentes. Alguém conhece algum texto, poema, discurso, qualquer palavra por ele pronunciada, épico, corajoso, eloquente, arrepiante, bravo, ousado e libertador? Não. Mas ocupou o espaço que poderia ser invadido.

Ao apagar o passado, a ditadura moeu a História e todas as lições que dela poderíamos extrair.

Nascido nas ruas, nascido na massa, nascido e batizado no povo, apenas o futebol-arte, por ter sido aprisionado pelo regime militar encantava o mundo. Nossa última geração dos craques de rua perdeu para a Itália, em 1982, mas encheu a todos nós de orgulho e identificação. 

Capturado pela ordem unida, nosso futebol também mudou. Nem ele escapou. No colapso urbano que a ditadura protagonizou, no mais impressionante êxodo rural já vivido, o futebol migrou para as escolinhas, para instrutores e, bem, não preciso contar o restante da história.

Não há nada a se comemorar na data de hoje, que, nas ironias a que estamos acostumados em nossa Vera Cruz, o diabo e sua cadela fascista passeiam no jardim, estão famintos ambos e eles nos detestam. Ao lado, velhos generais, comemorando o que ninguém que fosse civilizado teria coragem de comemorar.

Eles estão mal intencionados.

Roberto Tardelli

Roberto Tardelli
Advogado membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP. É ex procurador de justiça do Ministério Público de São Paulo

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