Não basta derrotar o ex-capitão em 2022. É preciso desbolsonarizar o Brasil

A sociedade precisa civilizar-se política, moral e culturalmente

MANIFESTAÇÃO BOLSONARISTA EM SÃO PAULO NESTE 7 DE SETEMBRO. FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

MANIFESTAÇÃO BOLSONARISTA EM SÃO PAULO NESTE 7 DE SETEMBRO. FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

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O bolsonarismo não é um fascismo ou um nazismo estruturado, ideologicamente desenvolvido e coerente. Ao contrário, é uma mistura de ideias confusas, um fascismo tosco, ignorante, intelectualmente embrutecido, que beira a miséria cultural. Essa pobreza ideológica se espelha também na incompetência gerencial e governamental que se manifesta no desgoverno de Bolsonaro.

O bolsonarismo é um fascismo mais de arroubos do que de ação, mais de fanfarronices do que de ousadia criminosa, mais de charlatanismo do que de concepções estruturadas acerca do Estado, da sociedade e do poder. Mas não é menos perigoso: milhares de mortes pela Covid-19 devem ser debitadas à ação criminosa do governo na pandemia.

O que espanta são duas coisas. Primeira: como essa formação política tão grotesca conseguiu pontificar por dois anos e meio, semeando o medo, impondo-se por intimidações, acantonando as oposições e mortificando a sociedade? A explicação sintética é uma só, a política brasileira é dominada por um caráter covarde, que se refugia no medo ao primeiro grito, ao primeiro estampido de festim. Eis a fragilidade da democracia. Muitos políticos agora surgem como valentões. Mas eles só surgiram quando a CPI do Senado e o STF, por meio do ministro Alexandre de Moraes, mostraram que o bolsonarismo é uma horda de fascistoides confusos, com vontade de dar um golpe, de praticar a violência, de matar e de se perpetuar no poder, mas sem capacidade e coragem de fazer qualquer coisa. Bolsonaro move-se menos por ideologia e mais por um projeto pessoal de poder, dele, da família e de amigos.

A segunda coisa que espanta consiste em desvendar como Bolsonaro, essa figura grotesca, conseguiu galvanizar setores significativos da política e da sociedade. A adesão de setores políticos é mais fácil de explicar. No Brasil, a política é marcada por uma eterna conciliação em torno da mesa do poder. Nela sentam-se os amigos, os adversários, os inimigos, e todos estão dispostos a fazer as encenações necessárias para ficar com um naco do Estado em detrimento da sociedade. Os argumentos são os de sempre: garantir a governabilidade, apreço pelo Brasil, unidade, conveniências táticas etc.

A adesão de setores sociais pode ser explicada por duas motivações. Uma diz respeito ao fato de que os setores oportunistas do empresariado aderem a qualquer governo de plantão, desde que este lhes garanta os ganhos. Não se importam se é um ditador ou um democrata, um fascista ou um social-democrata. Não importa se há comida na mesa dos brasileiros pobres ou se passam fome. O que importa é a garantia do ganho. Nesse balaio entram os generais adesistas, o mercado financeiro, empresários da estirpe de Luciano Hang e assemelhados. A mentira é o seu método.

A segunda motivação diz respeito ao fato de que figuras como Bolsonaro são como um catalisador que desperta o que há de mais sombrio, cruel, impiedoso e desumano nas potências do mal da alma. São esses seres que não sentem compaixão diante do sofrimento, mas prazer com a dor e a morte dos outros. Algumas figuras perversas que se agregaram em torno de Bolsonaro, principalmente empresários, com destaque para os gestores da Prevent Senior, somam as duas motivações: o oportunismo do ganho e o caráter sombrio e cruel da personalidade.

Bolsonarismo não é só Bolsonaro, seus filhos e o gabinete do ódio. O bolsonarismo fascistoide expressa-se nesses empresários que financiaram as fake news, na conivência criminosa do Conselho Federal de Medicina com a política de morte, na omissão igualmente criminosa da ANS, nas atitudes da direção da Prevent Senior, que transformou os hospitais do plano em subcampos de uma mini-Auschewitz. Os nazistas, com o objetivo de testar e desenvolver medicamentos, fizeram experiências cruéis em doentes e prisioneiros nos subcampos de Dachau, Buchenwald, Natzweiler e outros.

Para desbolsonarizar o Brasil, não basta derrotar Bolsonaro nas eleições. A sociedade precisa civilizar-se política, moral e culturalmente. Significa criar barreiras morais, políticas e legais capazes de impedir que o fascismo, a ditadura e a antidemocracia se apresentem com desenvoltura. Os fascistas, os psicopatas políticos e os desumanos precisam se sentir reprimidos de se apresentar publicamente. Precisam sentir uma repressão moral, subjetiva e legal de fazerem proselitismo do crime. O proselitismo do crime não pode ser entendido como liberdade de expressão, mas como estímulo à sua destruição.

Publicado na edição nº 1179 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2021.

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Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor.

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