CartaCapital
Mal-me-quer, bem-me-quer
O tarifaço de Trump só empurrou o Brasil para os braços de outros parceiros comerciais, avalia Guilherme coelho, da Abrafrutas
Antes mesmo de a Suprema Corte dos EUA considerar que Donald Trump exorbitou de suas funções e derrubar o tarifaço, a fruticultura nacional já havia superado o impacto da cobrança global de 50% imposta aos produtos brasileiros, afirma Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). Segundo ele, o setor exportou, no ano passado, 1,5 bilhão de dólares – o dobro do registrado há uma década – e conseguiu atravessar o período mais turbulento da crise com novos parceiros comerciais e margens reduzidas. “Ninguém ganhou como no passado, mas também não houve prejuízo”, observa. Pouco antes de embarcar para Seul, como integrante da comitiva presidencial em viagem à Coreia do Sul, o empresário celebrou a abertura de mercados após o tarifaço e o acordo firmado entre Mercosul e União Europeia, em janeiro. “É algo muito vantajoso para nós”, avalia.
CartaCapital: Após o choque do tarifaço, qual é a situação da fruticultura brasileira hoje?
Guilherme Coelho: Donald Trump já havia imposto uma cobrança de 10% sobre as frutas importadas do Brasil no início de seu mandato, mas à época não houve muita divulgação, por se tratar de um impacto discreto. Com o tarifaço, em julho do ano passado, esse porcentual subiu para 50%. Exportamos para os EUA várias culturas, como amêndoas, melão, melancia e mamão, mas os produtores de manga foram os mais atingidos. Os norte-americanos não as cultivam, tudo vem de fora. Quem abastece esse mercado é o Brasil, juntamente com Equador, México e Peru. Nossa safra de mangas está concentrada entre os meses de agosto e outubro, exatamente o período em que as novas tarifas entraram em vigor. Nós, da Abrafrutas, procuramos representantes do setor e buscamos dividir o impacto dessa taxa de 50% entre os exportadores, os importadores e os supermercados. Cada um absorveu uma parte e o resultado foi positivo. Ninguém ganhou como ganhava no passado, mas também não tomou prejuízo.
CC: O problema foi totalmente saneado?
GC: Não exatamente. Após negociações, a manga voltou a ter a tarifa zerada, mas a uva continua com 50% (a entrevista foi concedida dias antes de a Suprema Corte dos EUA derrubar o tarifaço). Então, o segundo semestre de 2025 não foi bom para os produtores de uva. Os norte-americanos gostam muito de uma variedade chamada Cotton Candy (“algodão-doce”), e ela chegou ao consumidor final por um preço até 40% mais caro do que a uva branca tradicional. Não nos saímos bem nesse segmento, mas também não houve quebradeira. Buscamos exportar para outros mercados. Hoje, o cenário está bem mais tranquilo, e acreditamos que as negociações conduzidas pelo vice-presidente Geraldo Alckmin podem dar resultado, é possível reverter essa sobretaxação.
“O acordo entre o Mercosul e a União Europeia é muito vantajoso para a nossa fruticultura”
CC: Mesmo com o tarifaço de Trump, o Nordeste alcançou, em 2025, o maior volume de exportação dos últimos três anos, com vendas de 24,8 bilhões de dólares. Qual foi a contribuição do setor de frutas para esse resultado?
GC: O Nordeste é mesmo abençoado por Deus. Aqui, tem sol, solo fértil e o maior polo de fruticultura irrigada do País. No ano passado, as frutas mais exportadas pelo Brasil foram, respectivamente, manga, melão, limão (ou lima) e uva. A cada cem contêineres de manga enviados ao exterior, 90 saíram da região. E a cada cem de uva, 95 também partem do Nordeste. Com o sistema de irrigação do Rio São Francisco, a gente produz o ano inteiro. Temos duas safras e meia por ano. E temos todos os certificados internacionais para atender às exigências relacionadas ao meio ambiente, governança e questões sociais.
CC: Como anda o mercado interno?
GC: O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, mas é o 22º exportador. Por quê? Temos 220 milhões de habitantes, um mercado consumidor extraordinário. A Abrafrutas acredita, porém, ser possível abrir novos mercados. Estaremos, por exemplo, na missão presidencial na Coreia do Sul, representando a fruticultura brasileira e buscando novas oportunidades.
CC: Qual é a expectativa do setor em relação ao acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, firmado em janeiro?
GC: É a melhor possível. Hoje, para acessar o mercado europeu, pagamos 14% de tarifa no caso do limão, 12% para a uva, 10% para melão e melancia, e 7% para o abacate. Com o acordo, essas taxas serão reduzidas progressivamente, até zerar em sete anos. É algo muito vantajoso para a nossa fruticultura.
CC: Imagino que também diminui a dependência do comércio com os EUA…
GC: Com certeza. Atualmente, 70% das frutas que exportamos têm como destino a União Europeia. Com a redução das tarifas, é possível ampliar ainda mais essa participação. Mas também acredito que os EUA vão mudar de postura, já perceberam que o melhor caminho, entre dois países que negociam há mais de 200 anos, é o diálogo. A tendência é essa turma se acalmar.
CC: O agronegócio brasileiro, de modo geral, e a fruticultura, em particular, estão preparados para atender aos rigorosos padrões ambientais e sanitários da União Europeia? Eles são bem mais restritivos em relação ao uso de agrotóxicos, por exemplo.
GC: Somos auditados regularmente. Não utilizamos nenhum defensivo agrícola que não seja permitido pela Comunidade Europeia. Exportamos 70% das nossas frutas para lá e cumprimos todas as exigências. Enviamos todos os produtos de acordo com as especificações solicitadas por eles.
CC: O que o Brasil precisa melhorar, em termos logísticos e de infraestrutura, para evoluir na competitividade do setor?
GC: É preciso melhorar as estradas, portos e aeroportos e, principalmente, ampliar o número de fiscais agropecuários. Em alguns casos, no momento de liberar uma carga para embarque, há apenas um fiscal disponível. Se esse profissional adoece – o que é algo normal –, a carga simplesmente não embarca. O ministro Carlos Fávaro (Agricultura) tem investido na contratação de profissionais, mas é preciso reforçar muito mais o quadro. Uma grande conquista do setor de frutas foi a implementação do E-Phyto, o certificado fitossanitário eletrônico. Até cerca de seis meses, esse documento era físico, em papel, e o governo conseguiu digitalizá-lo. É um avanço enorme. Antes, muitas vezes o contêiner embarcava sem o certificado físico e o documento precisava ser enviado posteriormente por uma empresa. Quando o produto chegava ao destino, o importador nem sempre encontrava o documento ou identificava algum erro, o que gerava problemas e impedia a abertura do contêiner. Com o E-Phyto, essa dificuldade deixou de existir. •
Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mal-me-quer, bem-me-quer’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



