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Keynes e Descartes

O inglês subverteu os modelos da “economia das certezas”, que engessam a capacidade de observar

Keynes e Descartes
Keynes e Descartes
A dúvida cartesiana significa que devemos renunciar a qualquer pressuposto ou ideia preconcebida – Imagem: iStockphoto
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Quem procura conhecimento, procura saber mais. Essa correlação só acontece se você procura conhecimento livre de dogmas, doutrinas e certezas. Saber mais requer algumas características: ceticismo, inconformismo e incomodação. A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige ter mais dúvidas do que certezas. Sempre duvide das certezas ou verdades absolutas.

Hegel invocou René Descartes e disse que o pensador iluminista “começou do zero, do universal, do pensamento como tal, e que esse é um novo e absoluto começo.

“A afirmação de que o começo deve ser construído a partir do pensamento apenas ele expressou, dizendo que devemos duvidar de todas as coisas – de omnibus est dubitantur, não no ceticismo, como se devêssemos permanecer sempre em dúvida, na completa indecisão da mente.”

A dúvida cartesiana, ao contrário, significa que devemos renunciar a qualquer pressuposto ou ideia preconcebida, mas começar pelo pensamento como único início seguro.

O primeiro ponto, portanto, é que não devemos fazer pressuposições. Descartes­ afirma que “nossos sentidos são frequentemente enganados pelo mundo sensível e não devemos supor que a experiência é segura”.

John Maynard Keynes tem uma característica pessoal: a humildade e a autocrítica. Sem medo de errar, Keynes é seu principal crítico. Esse tom de personalidade de um pensador e filósofo moral como ele é condição necessária e suficiente para entender sua obra.

Rotular Keynes como apenas um ou mais um economista é um reducionismo da turba que prega verdades incontestes, não tem dúvidas e vive fantasiada de cientista algébrico. Típica forma de viver e pensar dos dogmáticos, crentes e doutrinários. Tudo o que Keynes nunca foi.

Em 2026, comemoramos 90 anos não de sua única obra, mas da derradeira, a Teo­ria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.

Essa obra de 1936 não mudou só a forma de ver a economia como um todo, mas é um exercício sobre a forma de pensar e de conceber as relações constitutivas da assim chamada “ciência econômica

O que mais chama atenção nessa obra é, muito além de criar conceitos como a desutilidade marginal e uma de suas maiores sacadas, a eficiência marginal do capital e a incerteza incontornável que afeta as decisões dos agentes econômicos. Além de exímio matemático e estatístico, Keynes desenvolve a capacidade de criticar e suplantar as certezas que imobilizam a mente dos economistas ortodoxos.

A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige duvidar das verdades absolutas

Ele inverte a ordem do processo de conhecimento abrigado nos modelos da “economia das certezas”. Modelos que engessam, inibem a capacidade de observar e desenvolver a criatividade dubitativa. A especialização dogmática é uma cruel inimiga do desenvolvimento das ideias: omnibus dubitator.

Keynes, em 1925, no artigo Am I a Liberal?­ expõe as desconfianças que impulsionam suas dúvidas:

“Agora, veja o meu próprio caso – onde cheguei neste teste negativo? Como eu poderia me tornar um conservador? Eles não me oferecem comida nem bebida – nem consolo intelectual nem espiritual. Eu não deveria ser divertido, animado ou edificado. Aquilo que é comum à atmosfera, à mentalidade, à visão de vida do – bem, não mencionarei nomes – não promove nem o meu interesse pessoal nem o bem público. Isso não leva a lugar nenhum; não satisfaz nenhum ideal; não está de acordo com nenhum padrão intelectual; nem sequer é seguro ou projetado para preservar, dos espoliadores, o grau de civilização que já alcançamos.

“Metade da sabedoria dos manuais de nossos estadistas baseia-se em suposições que antes eram verdadeiras ou parcialmente verdadeiras, mas que o são cada vez menos. Temos de inventar uma nova sabedoria para uma nova era. E, nesse ínterim, devemos, se quisermos fazer algum bem, parecer heterodoxos, problemáticos, perigosos e desobedientes àqueles que nos geraram”.

Keynes prossegue em seu propósito de escapar das velhas ideias: “Mudamos, sem perceber, nossa filosofia de vida econômica, nossas noções do que é razoável e do que é tolerável; e fizemos isso sem alterar nossa técnica ou nossas máximas de manual. Daí nossas lágrimas e problemas”.

Sua caminhada em direção à Teoria Geral evidencia traços de inconformismo e de uma busca incessante de conhecimento.

Ao introduzir as convenções como “fundamentos” das decisões dos detentores de riqueza em condições de incerteza radical, Keynes trouxe para o âmago da economia a complexidade e a precariedade da condição humana investida em sua existência capitalista: ela necessita de âncoras sociais e subjetivas para sua reprodução. A âncora que sustenta as ariscas subjetividades submetidas aos ditames do “amor ao dinheiro” está lançada, sim, na areia movediça das incertezas insuperáveis da vida humana. ­Keynes introduz, assim, na teoria econômica, as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução por indivíduos convencidos de sua liberdade e autodeterminação.

Diante da incerteza radical, os detentores de riqueza são compelidos a tomar decisões com base em convenções quanto às perspectivas da economia. Keynes sugere que as decisões individuais dos agentes só podem apoiar-se no que imaginam serem as opiniões dos demais.

As convenções desempenham, na economia monetária da produção, um papel especialmente importante na formação de preços dos ativos, reais e financeiros – que descontam seus rendimentos esperados à taxa monetária de juros submetida às oscilações da preferência pela liquidez. Na perspectiva keynesiana, essas decisões intertemporais não têm bases firmes, isto é, não há “fundamentos” que possam livrá-las da incerteza radical em que os proprietários de riqueza estão mergulhados.

No Capítulo XII da Teoria Geral, os concursos de beleza promovidos pelos jornais servem de exemplo para ilustrar a formação de convenções nos mercados de ativos. Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue àquela cuja escolha estiver mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada participante, mas sim de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião dos demais. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Keynes e Descartes’

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