CartaCapital
Justiça/ Um acerto, um erro
Preso pelo ICE nos EUA, Alexandre Ramagem é liberado dois dias depois
Parecia um simples remake da tragicomédia estrelada por Carla Zambelli, mas resolveram inovar no roteiro. Na trama original, a ex-deputada, condenada a dez anos de prisão por invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça, fugiu para a Itália, onde se julgava “intocável” por possuir cidadania italiana e afinidade ideológica com o governo de Giorgia Meloni – até ver a extradição ser decretada pela Justiça local. Na atual, o protagonista é o colega Alexandre Ramagem, foragido desde setembro de 2025 nos EUA, onde dizia sentir-se “protegido” na condição de “exilado”.
Condenado a 16 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi detido em uma prosaica abordagem de trânsito em Orlando, na Flórida. Com visto vencido, acabou sob custódia do ICE, a temida polícia migratória do governo Trump. Corria o risco de ser despachado de volta ao Brasil, mas, ao contrário de Zambelli, contou com o empenho de aliados e logo ganhou a rua.
Desde o início, o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, neto do ditador João Baptista Figueiredo, atuou como porta-voz, alegando que a detenção era meramente migratória, sem relação com o pedido de extradição protocolado pelas autoridades brasileiras. Sustentou também que houve um equívoco: “O status de Ramagem é legal, ele possui um pedido de asilo pendente, protocolado há tempos e ainda sob análise, o que lhe permite permanecer legalmente nos EUA até a decisão final do caso”.
Nos bastidores, Eduardo Bolsonaro trabalhou pela liberação sem pagamento de fiança. Nas redes, celebrou: “Ramagem solto e em casa! Agradeço principalmente ao presidente Donald Trump e ao secretário Marco Rubio pela sensibilidade em tratar do caso deste verdadeiro herói nacional, que mesmo perseguido não se abate”. A devoção é tamanha que o deputado cassado nem se preocupa em disfarçar a bajulação.
Futuro incerto
O Tribunal Superior Eleitoral adiou novamente a conclusão do julgamento que pode tornar o ex-governador de Roraima Antonio Denarium inelegível e cassar o mandato de Edilson Damião, seu sucessor. Ambos são acusados de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, com a distribuição irregular de cestas básicas e realização de reformas em casas de eleitores. O placar parcial está em 3 a 0 pela inelegibilidade de Denarium e 2 a 1 pela cassação de Damião, mas a sessão da terça-feira 14 foi suspensa após pedido de vista da ministra Estela Aranha. Dias antes, Denarium renunciou ao cargo para disputar o Senado, e Damião, então vice, assumiu o Palácio Hélio de Campos. Caso sejam condenados, será necessário eleger um governo-tampão no estado, a exemplo do que ocorrerá no Rio de Janeiro.
Câmara/ Discussão brecada
Após protestos de trabalhadores, o PL dos Aplicativos é retirado de pauta
Motoristas e entregadores organizaram atos em 23 capitais do País – Imagem: Miguel Schincariol/AFP
Em meio a protestos de motoristas e entregadores de aplicativos em 23 capitais, o deputado Augusto Coutinho (Republicanos), relator do Projeto de Lei Complementar 152/2025, que regulamenta o trabalho plataformizado, decidiu retirar seu parecer da pauta de uma comissão especial da Câmara. O recuo foi oficializado na terça-feira 14, após um pedido do novo ministro de Relações Institucionais, José Guimarães. Na avaliação do governo, a proposta afastou-se de seu objetivo original – proteger os trabalhadores – e passou a incorporar demandas das grandes plataformas.
Um dos principais pontos de conflito é o valor mínimo por corrida. O relatório previa 8,50 reais para entregas de até 4 quilômetros, abaixo dos 10 reais reivindicados pela categoria. Outro aspecto criticado foi a ausência de garantias sobre o pagamento integral de pedidos agrupados em uma mesma rota. Para o governo e os trabalhadores, a remuneração prevista não reflete as condições desses profissionais, que usam veículo próprio e arcam com todos os custos.
O debate deve ficar para depois das eleições. Enquanto isso, o governo prioriza a votação do projeto que prevê o fim da escala 6×1. A proposta foi enviada ao Congresso na terça-feira 14 e tramitará em regime de urgência.
A mortadela bolsonarista
O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito civil para apurar o uso indevido de emendas parlamentares para financiar atos em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado. Na quinta-feira 9, o promotor Sílvio Marques pediu explicações da Secretaria Municipal de Turismo sobre as suspeitas de desvio de finalidade nos repasses, que somam 478 mil reais. O pedido de investigação partiu da vereadora Keit Lima, do PSOL. Os repasses, feitos a pedido do vereador bolsonarista Gilberto Nascimento (PL), custearam a estrutura de eventos realizados na Avenida Paulista em favor da anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. As transferências foram reveladas pelo portal UOL.
Previdência/ Longa espera
Governo troca chefe do INSS com 2,8 milhões na fila da aposentadoria
Sai Waller Júnior, entra a servidora de carreira Ana Cristina Silveira – Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil
O governo Lula anunciou, na segunda-feira 13, a demissão de Gilberto Waller Júnior da presidência do INSS e a nomeação da servidora de carreira Ana Cristina Viana Silveira para o cargo. A mudança foi oficializada pelo Ministério da Previdência Social (MPS), ao qual o instituto é vinculado. Waller Jr. havia assumido o comando em abril de 2025, em meio à crise provocada por investigações de descontos indevidos sobre pensões e aposentadorias. Sua breve gestão ficou, porém, marcada pelo avanço da fila de beneficiários à espera de atendimento, que ultrapassou a marca recorde de 3 milhões em fevereiro, com um tímido recuo em março (2,8 milhões).
Há tempos, integrantes do governo manifestavam insatisfação com o desempenho de Waller Jr. À Folha de S.Paulo, o agora ex-presidente rebateu a crítica: “Se for a fila, quem teria de ser exonerado não era ninguém do INSS. A maioria dos que aguardam há mais de 45 dias depende de perícia médica, de responsabilidade do ministério”. A nova titular assume com a missão de simplificar processos e acelerar a análise de benefícios. Servidora do instituto desde 2003, Silveira construiu carreira na área previdenciária e, até então, ocupava o cargo de secretária-executiva-adjunta do MPS.
Peru/ Cavalo paraguaio?
Keiko Fujimori vai pela quarta vez ao segundo turno
A herdeira do ditador tenta, outra vez, assumir o comando do país – Imagem: Redes Sociais
Atrasos no processo estenderam por um dia a votação no Peru. As urnas só foram fechadas na segunda-feira 13 e a apuração se prolongou ao longo da semana. O instituto Ipsos foi o único a captar, na boca de urna divulgada no domingo 12, a tendência consolidada na reta final da contagem. A ultradireitista Keiko Fujimori, herdeira do ditador Alberto Fujimori, condenado a 16 anos de prisão por crimes contra a humanidade e falecido em 2024, vai enfrentar o esquerdista Roberto Sánchez, ex-ministro do presidente Pedro Castillo, deposto e preso após uma tentativa de golpe de Estado. Pela quarta eleição consecutiva, Fujimori filha avança ao segundo turno. As três experiências anteriores foram dolorosas, de derrotas amargas, sinal de que os peruanos ainda têm vivos na memória os anos de chumbo e corrupção do pai da candidata. Sánchez superou os concorrentes direitistas, entre eles o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga, por uma estreita margem e, principalmente, com os votos das regiões interioranas e empobrecidas do país. Com 35 candidatos na disputa, o eleitorado se dividiu. Keiko Fujimori alcançou perto de 17% dos votos e Sánchez, um pouco menos de 12%. Até o fechamento desta edição, na manhã da quinta-feira 16, a contenda não estava definida. O segundo turno está marcado para 7 de junho. Na última década, o Peru teve oito presidentes da República.
Exemplo espanhol
O governo da Espanha logrou aprovar, na terça-feira 4, a regularização de cerca de 500 mil imigrantes, na contramão da tendência de endurecimento das leis na União Europeia. Para se legalizar, os estrangeiros precisam ter chegado ao país antes de 1º de janeiro deste ano, comprovar ao menos cinco meses de residência contínua e atender a requisitos de emprego, laços familiares ou vulnerabilidade. Em carta aberta à população, o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, defendeu a medida. “Sabemos que a migração apresenta desafios. Seria irresponsável negá-los”, escreveu. “Mas também sabemos que a regularização é a melhor forma de lidar com muitos deles.”
Cruzada/ “Cristo” contra o papa
Donald Trump arruma um novo inimigo: Leão XIV
Jesus? Não, um médico da Cruz Vermelha, segundo Trump – Imagem: Redes Sociais
Depois de compartilhar e apagar de sua rede social uma imagem na qual é retratado como Jesus Cristo, o presidente dos Estados Unidos manteve a guerra santa contra o papa Leão XIV, primeiro norte-americano, lembre-se, a comandar a Igreja Católica. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, Trump voltou a fustigar o pontífice, crítico dos ataques ao Irã. “Ele não entende e não deveria estar falando sobre guerra, porque não tem ideia do que está acontecendo.” Na sexta-feira 10, o papa havia se manifestado. “Deus não abençoa nenhum conflito”, escreveu no X. “Quem é discípulo de Cristo, príncipe da paz, nunca se coloca ao lado daqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas.” O comentário desencadeou a fúria do “Cristo dos memes”. Em uma resposta digna do tinhoso, o republicano lançou as chamas do inferno. Disse que Leão XIV é “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa” (???), e que “não quer” (como se dependesse dele) um papa que “ache normal o Irã ter armas nucleares”. Na visão de Trump, a moderada, quase omissa, Sua Santidade não passa de um perigoso comunista. “Não estou com medo”, retrucou o papa.
P.S.: A péssima repercussão da imagem de Cristo levou Trump não só a apagá-la, mas também a inventar uma desculpa esfarrapada. O magnata disse que estava, na verdade, vestido de médico. Quantas ave-marias são necessárias para a remissão dos pecados?
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’
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