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Jogo bruto

Neymar, Trump e Infantino não entendem o espírito do Mundial 

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Neymar fez do Brasil um mau perdedor. Trump e Infantino, uma dupla de fazer inveja a Havelange e Blatter. E o míster Ancelotti nem resistiu ao lobby como havia prometido nem estabeleceu um padrão – Imagem: Yoan Valat/AFP, Pedro Ugarte/AFP e Justin Setterfield/Getty Images/AFP
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Os fados do futebol impuseram a justiça negada pelos mortais. Os 4 a 1 aplicados pela Bélgica nos Estados Unidos nas oitavas de final foram a mais emblemática resposta à manipulação descarada levada a cabo, antes da partida, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu sabujo na Fifa, Gianni Infantino. Trump impôs uma espécie de Lei Magnitsky contra o árbitro brasileiro Raphael Claus, que havia expulsado o atacante norte-americano Folarin Balogun no jogo contra a Bósnia, pela fase de 16 avos. Segundo reportagem do diário The New York Times, o republicano, como parte da pressão para reverter o cartão vermelho e liberar Balogun para o confronto decisivo contra os belgas, fez circular denúncias falsas contra Claus, levianamente acusado de integrar um esquema para fraudar o resultado de partidas. “Esse árbitro, que é um pouco suspeito, se você verificar o histórico dele…”, instilou. “Não quero dizer isso porque não gosto de criar polêmicas (sic), mas é muito suspeito. Se quiser, lhe forneço o histórico dele.” O assassinato de reputação não terá consequências no longo prazo, mas obteve o resultado imediato esperado. A Fifa, à revelia de qualquer padrão da própria entidade, anulou a expulsão de ­Balogun. Em comunicado, Infantino­, genuíno aprendiz de João Havelange e ­Joseph Blatter, tentou se desvencilhar do vexame e atribuiu a decisão à comissão de arbitragem. “Os órgãos judiciais são independentes, atuam­ de forma autônoma.” Mas era tarde. Àquela altura, Trump não só havia revelado um telefonema direto ao cartola, mas agradecido, pelas redes sociais, a decisão de suspender a punição. “Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!”

“Reverta isso”, ironizou a federação belga ante a inútil interferência do presidente dos EUA

A eliminação da seleção dos Estados Unidos, cujo desempenho louvável até então dispensava a interferência de Trump, tornou-se um feixe de luz e uma revanche global em meio à penumbra de um torneio que tem escrito um dos mais vergonhosos capítulos dos Mundiais, mesmo quando se leva em conta o histórico nada edificante da Fifa. A discriminação, o espírito antidesportivo e a submissão aos delírios particulares e geopolíticos do ocupante da Casa Branca venceram de goleada. Diante das restrições impostas ao Irã, eliminado na primeira fase, um cidadão norte-americano de origem persa pede na Justiça uma indenização de 1 bilhão de dólares. Jogadores de Gana foram submetidos a uma humilhação ainda em pista, ao desembarcar nos Estados Unidos. Atletas egípcios trocaram tapas com agentes de segurança no aeroporto de Dallas. Melhor árbitro da África, segundo a própria Fifa, o somali Omar Abdulkadir ­Artan teve o visto negado por alegadas relações com grupos considerados terroristas. O Haiti acabou proibido, a pretexto de não se “misturar futebol e política”, de envergar no uniforme uma referência à revolução de 1791, conduzida por escravizados e que libertou o país do jugo da França, mas os torcedores de todo o mundo viram-se obrigados a suportar, em 4 de julho, exaustivas homenagens aos 250 anos de independência dos EUA, data capturada por Trump para servir a seus interesses eleitorais e ideológicos e sem nenhuma relação direta com a Copa. Adendo: os EUA não são a única sede, dividida de forma proporcional com México e Canadá. Ao contrário de outros Mundiais, a Fifa não apresentou uma lista de exigências draconianas aos anfitriões, sob a ameaça de cancelar o evento. Em vez disso, submeteu-se às regras do império. Resultado: gramados ruins, estádios que desvalorizam o espetáculo e não protegem o público do calor intenso e preços abusivos.

Haaland precisou de dois lances e, com humildade, manteve a escrita da Noruega contra o Brasil – Imagem: Dan Mullan/Getty Images/AFP

O diktat de Trump e a subserviência de Infantino caíram tão mal quanto a recusa de Adolf Hitler em cumprimentar Jesse Owens, negro norte-americano que, nas Olimpíadas de Berlim de 1936, demoliu a fantasia da supremacia ariana. Milhões de memes inundaram as redes sociais após a derrota. Durante a partida, jogadores da Bélgica liderados pelo centroavante Lukaku imitaram a dança estrambólica do presidente norte-americano. Encerrado o confronto, a federação belga de futebol provocou nas plataformas digitais: “Reverta isso”. Em artigo no jornal inglês The Guardian, Robert Reich, secretário do Trabalho no governo do democrata Bill Clinton, resumiu o sentimento da parcela da população norte-americana que não se sujeita às vontades do ex-apresentador de reality show. “Trump está mostrando ao mundo mais uma vez que os Estados Unidos não jogam pelas regras. Não aceitamos derrotas e não aceitamos as decisões dos árbitros”, escreveu. “Assim como suas grandes mentiras sobre a eleição de 2020 e o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, Trump também manchou a integridade dos Estados Unidos.” Reich poderia ainda ter citado o tarifaço.

“Mito do passado”, afirmou a revista alemã Kicker sobre a Seleção Brasileira

À sua maneira peculiar, o magnata e o cartola são “protagonistas” desta Copa, para não fugir do jargão repetitivo da crônica esportiva brasileira. Outro é Neymar, símbolo de uma era melancólica, sobretudo pelo que ela tem de megalomania. Durante o torneio, o ex-atleta se notabilizou por dois feitos: a compra de um relógio avaliado em 1 milhão de dólares e o anúncio do quinto filho. No domingo 5, foram 33 minutos em campo. Quando substituiu Gabriel Martinelli e encheu de esperança o pré-candidato Flávio Bolsonaro, notório pela argúcia, a partida contra a Noruega estava 0 a 0. Nesse período, Haaland marcou duas­ vezes para os adversários, enquanto o “ídolo” canarinho, o salvador da pátria de chuteiras, errou três cruzamentos, acertou nove passes inúteis, tomou um cartão amarelo em consequência de um pontapé no meia Odegaard e marcou um gol de pênalti. Faltava pouco para o fim da partida, mas em vez de pegar a bola, levá-la ao meio do campo e liderar uma reação da equipe, no mínimo em sinal de dignidade e altivez, Neymar preferiu um show particular. Bateu boca com o goleiro norueguês, como se o Brasil estivesse à frente do placar, e deu uma “ombrada” em um distraído Odegaard. Não só gastou um tempo precioso. Exibiu ao mundo a incapacidade da porção do País que representa de lidar com a frustração, as limitações e a decadência. O Brasil poderia ter caído de pé, a exemplo de outros ao longo da Copa. Preferiu o vexame do mau perdedor. Mostrar a mão cheia, em referência ao pentacampeonato, já não impressiona nem os mais simplórios praticantes do esporte bretão. No apito final, o camisa 10, arruaceiro no tempo regulamentar, incorporou o “cidadão do bem”. Chorou, ajoelhou-se e ergueu as mãos para os céus, como se fosse digno do perdão dos deuses do futebol. Também como de hábito, Neymar fez de tudo para transformar um drama coletivo em um monólogo. “O Brasil é um mito, mas apenas um mito do passado”, sintetizou a revista alemã Kicker. “A eliminação na Copa do Mundo levanta uma questão: eles são mais uma marca do que um time?”, perguntou The Guardian. “A entrada de Neymar e suas consequências inclinaram o jogo do Brasil para um lado oposto e levaram à eliminação”, analisou o francês L´Équipe. “A eliminação não pode ser entendida como uma soma de erros isolados. É o fim de um ciclo que já mostrava sinais de exaustão há tempo demais”, argumentou o espanhol Marca. Dois dias depois, na terça-feira 7, a antítese pisaria o gramado. Aos 34 do segundo tempo, a Argentina perdia de 2 a 0 para o Egito e Messi havia desperdiçado um penal na primeira etapa. Fim da linha para a atual campeã? Ao contrário. Bastaram 11 minutos para o argentino traçar a fronteira entre os gênios e os medíocres. Um passe, um gol ao mesmo tempo espetacular e enérgico e uma liderança eletrizante em campo empurraram o time à virada épica: 3 a 2, e mais uma partida para ficar gravada na memória dos Mundiais.

Na convocação, sob o comando de Xaud, a prova de que o mundo do futebol brasileiro está preso ao passado e se recusa a ver o desastre. O oba-oba da festa só provocou vergonha alheia – Imagem: Rafael Ribeiro/CBF

A derrota para a Noruega começou a ser desenhada bem antes, em 18 de maio, dia da convocação. Em um caso patológico de completa desconexão com a rea­lidade, a CBF, sob a batuta de Samir Xaud, promoveu um espetáculo à altura da “Oba Oba”, boate de Oswaldo Sargentelli que animava as noites paulistanas nos anos 1970. Só faltaram as mulatas. O mito, aquele do passado, conforme a Kicker, exibiu-se em todo esplendor. Àquela altura, alguns iludidos fiavam-se na palavra do míster Carlo Ancelotti, ou Anselote para os íntimos. O treinador italiano prometia reunir os mais preparados, física e tecnicamente. Neymar, repetia, só entraria na lista se estivesse 100%. Mas a malandragem brasileira se apreende por osmose. Uma semana antes, Ancelotti renovou o contrato por quatro anos. Naquele fim de tarde de maio, entre encabulado e nervoso, subiu ao palco para anunciar os 23 jogadores. Uma claque organizada explodiu em festa quando o atacante do Santos, sem condições de jogo, foi anunciado, em detrimento do centroavante João Pedro, do Chelsea, em ótima forma. O lobby venceu e, no minuto seguinte, começou a operar. Neymar, argumentaram seus defensores, faria bem à Seleção, pelo astral e por ser ídolo dos mais jovens. Se era o caso de ter um animador de elenco e não uma opção em campo, faria mais sentido levar Ronaldinho Gaúcho. Quando a convocação veio à tona, esta revista anotou: a festa da CBF talvez se explique por um motivo, este será o único momento de celebração no percurso desta Copa. Dito e feito. Desde 1990, o Brasil não era eliminado em uma fase tão precoce. Entramos no maior jejum de títulos em quase um século de torneio. O racional seria aceitar, de bom grado, a predisposição de Neymar para encerrar sua trajetória com a camisa verde-amarela e não abrir nenhuma brecha para uma mudança de planos. É uma era a ser superada de forma definitiva. Sem remorso, sem olhar para trás. Não se pode cair em tentação. E ela voltou a rondar. Nem bem fomos eliminados e o lobby, irrefreá­vel, saiu a campo. Teremos Neymar, aos 38 anos, em 2030?, ouve-se por aí. •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Jogo bruto’

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