Giorgio Morandi capturou o silêncio do tempo imóvel

De volta ao Brasil, a exposição O Legado de Morandi, em São Paulo e no Rio, reúne 34 obras do artista

A passeio por Bolonha, com a irmã Maria Teresa. (FOTO: Reprodução)

A passeio por Bolonha, com a irmã Maria Teresa. (FOTO: Reprodução)

CartaCapital,Cultura

Giorgio Morandi foi um artista que soube capturar o silêncio do tempo imutável. A obra do pintor bolonhês é uma incursão definitiva na busca da realidade permanente. Há quem queira compará-lo a Mondrian, o que representa uma contradição inaceitável. Mondrian é um destruidor da natureza, Morandi é um construtor da sua própria verdade, organizada sobre as mesas da casa da irmã Maria Teresa, onde morou sempre e a quem se deve o nascimento, em 1993, do Museu Morandi, depois da doação por ela feita de 62 pinturas, 18 aquarelas, 92 desenhos, 88 gravuras e duas esculturas.

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Na casa da Rua Fondazza, em Bolonha, hoje aberta à visitação do público, Morandi montava as suas naturezas mortas com objetos comezinhos, em primeiro lugar garrafas, potes e conchas, retirados de uma espécie de sótão ideal e ali ficavam à espera do toque do mestre, sem a mais pálida possibilidade­ de alguma alteração na composição, como se aguardassem a chegada da ­poeira do tempo.

Morandi nunca deixou a casa, a não ser durante o verão, quando subia as encostas do Apenino bolonhês até alcançar um lugar chamado Grizzana, onde pintava as suas paisagens. Alguns autorretratos juvenis são os únicos exemplos de cultivo da figura, depois abandonado por completo.

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Morandi lecionou gravura na Academia de Belas Artes de Bolonha, sede, juntamente com Pádua, das primeiras universidades do mundo, no século XIII, a determinar a definição de Bolonha como “a douta”. Trata-se do conjunto arquitetônico mais importante da Itália, depois de Veneza, Florença e Roma, naturalmente. Quanto às influências recebidas por Morandi, elas são, sobretudo, as da Renascença italiana, de Giotto, Masaccio e Piero della Francesca, guiadas por um pincel inspirado em Chardin, sem contar Cézanne, fonte inesgotável de inspiração para todos os artistas do século passado.

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A obsessão de Morandi foi a de rejeitar qualquer forma de vanguardismo, fazendo dele um modelo para a arte oriental (China, Japão, Coreia do Sul), sem contar o sucesso da retumbante exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, em 2008. Mas pode-se observar que houve um pioneirismo brasileiro no reconhecimento da qualidade extrema do grande pintor. Na 2ª Bienal de São Paulo, em 1953, e na 4ª Edição, em 1957, Morandi foi o grande vencedor, sendo premiado pela gravura, antes, e pela pintura, depois.

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Figura reservadíssima, nunca visitou Paris, meta de profissões de artistas do mundo inteiro. A única corrente artística­ à qual, de alguma maneira, se filiou foi a da chamada metafísica, e talvez seja­ esta­ uma definição aceitável dos começos da arte de Morandi. Agrada-me muito falar­ de um artista que me encantou desde a minha adolescência. Sempre me perguntei até que ponto Morandi imaginou contar algo assim como a metáfora da vida, mas é, de todo modo, o efeito da sua arte.

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Desta maneira, me poupei de abordar as histórias penosas do hospício Brasil e de um povo que ainda não se tornou nação. Evitar um certo gênero de surrados comentários representa um grande alívio e me congratulo comigo mesmo por ter escapado desta ao invadir o espaço reservado à editora Ana Paula Sousa.

Entrevista:  Morandi explorou todas as variações de um ponto de vista sobre o objeto pintado

por Ana Paula Sousa

O historiador da arte Gianfranco Maraniello, diretor do Museu Morandi, em Bolonha, sente-se, neste momento, tão satisfeito quanto inseguro. É que esta é a primeira vez que ele deixa as obras de Giorgio Morandi viajarem sozinhas. “Nunca antes deixei de acompanhar a montagem de uma exposição”, diz, com uma ponta de desconsolo, durante uma conversa por Zoom com CartaCapital.

Maraniello é um dos curadores da mostra O Legado de Morandi,­ que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inaugura em São Paulo na quarta-feira 22 e que segue para o Rio de Janeiro. A exposição reúne 34 obras de Morandi e outras 23 de artistas cujos trabalhos são, de alguma forma, influenciados por ele.

“Começamos a falar sobre a exposição antes da pandemia”, diz Maraniello. “Com a interrupção de tudo, achei que fôssemos demorar muito mais para retomá-la. Mas veio a oportunidade de apresentá-la no contexto da Bienal.” É que Morandi, neste momento, além de poder ser visto no CCBB, está na 34ª Bienal, no Pavilhão do Ibirapuera, em São Paulo.

(FOTO: Jacopo Salvi/Mart)

CartaCapital: Como surgiu a ideia da exposição?

Gianfranco Maraniello: Ela marca o reencontro de Morandi com o Brasil mais de 60 anos depois dele ter recebido o Grande Prêmio de pintura na IV Bienal. Naquele momento, o Brasil estava vivendo a utopia modernista e o debate cultural era intenso. Apesar disso, e mesmo o presidente do júri sendo o diretor do Museu de Arte Moderna de Nova York, quem ganhou o prêmio não foi Chagall ou Mondrian, foi Morandi. Voltar a apresentar sua obra significa prolongar o olhar do Brasil sobre ele.

CC: Qual é, hoje, o interesse em Giorgio Morandi no mundo?

GM: No Oriente, o interesse é imenso. Fizemos exposições importantes no Japão, na Coreia do Sul e na China. Também fizemos uma grande retrospectiva no Metropolitan, em Nova York. Nos impressionou, nessa ocasião, a quantidade de artistas, escritores e diretores de cinema que foram à exposição. Don DeLillo, por exemplo, inspirou-se em Morandi para escrever Still Life.

CC: Essa exposição no Metropolitan pode ser considerada um marco no resgate da obra dele?

GM: Ela foi muito relevante. Morandi, mais recentemente, foi exibido até na Documenta de Kassel, um espaço por excelência da arte contemporânea. Hoje há um entendimento de que Morandi é atemporal. Ele não fez parte das vanguardas, não aderiu a grupos ou assinou manifestos e, nos anos 1960 e 1970, acabou sendo excluído dos debates sobre arte. Embora sua obra possa ter sido influenciada por Cézanne, ele foi muito além de Cézanne e do pós-impressionismo. Morandi também nunca aceitou fazer parte da arte abstrata, a qual, para ele, era pura teoria. Mas o tempo tem se encarregado de mostrar a sua grandeza.

CC: Por que a obra dele é atemporal?

GM: Morandi vai ao essencial. Ele explorou, como talvez nenhum outro artista, todas as variações de um ponto de vista sobre o objeto pintado. A partir dessa observação, o que ele nos oferece não é nem a simples representação do objeto nem uma visão subjetiva. O resultado é quase um milagre. Ele nos coloca diante de algo que é, a um só tempo, frágil e eterno.

Publicado na edição nº 1175 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2021.
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