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‘É uma frustração muito grande. Eu não sonho mais’: os relatos do Brasil de Paulo Guedes

No país do ministro que guarda uma fortuna em paraíso fiscal não é mais permitido sonhar. Restam os boletos

Créditos: Reprodução Créditos: Reprodução
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Há gente que diz que sou um pouco monotemática, pois sempre me refiro às pesquisas de campo que realizo, às entrevistas que conduzo com os mais diversos setores sociais do Brasil, entrevistas estas que consistem em conversar, perguntar, escutar, observar, prestar atenção aos interlocutores. Olhar no olho, escutar o dito e o não dito. Observar quando a boca fala e quando a boca cala.

Talvez os críticos tenham razão, mas eu nunca me senti à vontade no campo da completa especulação, da abstração que pretende analisar, soberba e distante, a realidade sociopolítica desde pressupostos, desde teorias, desde metafísicas, desde hipóteses que não conversam com a rea­lidade do cotidiano. Livro na mão, olho atento e sapato desgastado, não tem para mim outro jeito de entender e interpretar a sociedade.

Pois bem, na semana passada fiz uma entrevista com três senhoras da periferia de São Paulo, da classe C. Vamos pensar nelas como Maria, Mercedes e Margarida, por que não? Elas eram amigas, simpáticas, conversadoras, daquelas entrevistas que fluem de forma espontânea e deliciosa porque se cria um clima de intimidade e confiança mágico que só uma conversa despojada, sincera e despretensiosa pode fornecer. Elas tinham muito a dizer. Em um determinado momento, perguntei como a vida delas mudou nos últimos anos.

Pelo menos a gente não passa fome. Chegam as contas, chegam, a gente paga hoje as contas do mês passado. A gente tem que rebolar para poder comer. Dá para sobreviver, mas não dá para fazer planos. A gente conta com o que tem hoje. Eu não fico na expectativa de fazer planos, porque eu sei que não vai dar, já me frustrei muito. Eu vivo o hoje (Maria).

Eu não estou nada tranquila, vivemos no limite, as coisas aumentaram, tem que cortar, cortar, você não pode sonhar e isso estressa, eu não sonho mais. Cortei o passeio com minha família no fim de semana, não posso mais fazer unha, ir no cabeleireiro não faço mais, pescar com o marido pescador não pode mais, a gente teve que se limitar. É uma frustração muito grande. E a gente não pode fazer nada porque não está no controle, uma impotência… (Mercedes)

Pelo menos com o PT a gente poderia até comer um pedaço de carne, agora está tudo muito difícil. (Margarida)

“Você não pode sonhar.” Só sei que fiquei com um nó na garganta o restante da entrevista e com uma raiva profunda de um governo, de um fascismo que limita tanta gente à mais triste sobrevivência, que tira tudo, até o direito de sonhar, que tira tudo até, inclusive, a frustração, porque foram tantas frustrações que chega um ponto em que muitos brasileiros não se frustram mais. Todos necessitamos de mecanismos para não cair no fundo do poço. Esqueçam os sonhos, esqueçam a frustração. Não comam tanta carne, povo obeso, povo sem noção, façam dieta vegana, que é muito mais saudável, não gastem tanta energia, vocês parecem que só ficam lavando roupa, pobre não tem que ser tão limpinho assim, pensem no meio ambiente, uma sujeirinha não faz mal… “Rico capitaliza recursos, pobre consome tudo”, “pobre não poupa”, “todo mundo quer viver 100 anos”, “arroz subiu porque a vida dos pobres melhorou”. Guedes dixit.

Segundo a pesquisa Exame/Ideia Big Data de 22 de outubro, 74% dos brasileiros têm comido menos carne por causa da inflação. São 74%, mas Paulo Guedes, com sua offshore, deve estar de boa. Sobra picanha, uísque. Só para lembrar: Guedes mantém um patrimônio em sociedade com sua esposa, Maria Cristina Bolivar Drummond, e uma filha, de 9,5 milhões de dólares, valor depositado na ­offshore Dreadnoughts International Group, segundo informação dos Pandora Papers.

Agora ele quer pedir uma licença de 30 bilhões de reais para furar o teto de gastos e bancar o Auxílio Brasil. Segundo o ministro-offshore, seria uma “licença para gastar essa camada temporária de proteção dos mais frágeis”, o que atenuaria “o impacto socioeconômico da pandemia”.

Guedes, como Paulo de Tarso, que caiu do cavalo ao enxergar Deus, teria visto a luz: os pobres necessitam de apoio. Que epifania. Como não tinha pensado nisso antes? Furemos o teto, mas não vão pensar que isso tem a ver com manter Bolsonaro no poder, ou com a proximidade da eleição. Vocês sempre buscam duplos sentidos nas ações, mentes sujas.

Não, não, não, são coisas de ministros que têm um grande coração, no qual também cabem os pobrezinhos brasileiros.
Que ódio. Maria, Mercedes e Margarida não podem mais sonhar. Só ficaram os boletos e a tristeza.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1181 DE CARTACAPITAL, EM 28 DE OUTUBRO DE 2021.

Esther Solano

Esther Solano
Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

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