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“É possível ter relação amigável com a morte”, diz criador do inFINITO

Tom Almeida convida a uma releitura do viver e do morrer a partir da ótica da dignidade e dos cuidados paliativos

Tom Almeida, o criador do festival inFINITO. Créditos: Bruno Martin
Tom Almeida, o criador do festival inFINITO. Créditos: Bruno Martin
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A morte é, definitivamente, um dos principais temas de 2020. A pandemia do novo coronavírus já deixou um milhão de mortos no mundo, mais de 145 mil deles no Brasil, obrigando a sociedade a conviver de perto com o assunto, tão envolto em tabus, há sete meses. Para Tom Almeida, que há cinco anos estuda o tema com base em cuidados paliativos, esta é também uma oportunidade para falar sobre a vida e “um processo de finitude”.

“Três experiências de perdas pessoais me levaram a esse caminho. Minha mãe sofreu uma queda aos 85 anos e o seu quadro piorou de uma maneira muito rápida. Em pouco tempo ela foi para uma UTI, sedada, intubada, e eu me senti completamente refém daquele processo, sem saber se havia outras alternativas para tudo aquilo que estava acontecendo”, conta Almeida.

Não se trata de não morrer, mas como morrer com qualidade e dignidade”

Logo após a morte da mãe, Tom acompanhou um primo em estágio avançado de câncer: “Com ele, consegui fazer diferente, conversar sobre o que estava ocorrendo, encarar perguntas aparentemente indelicadas, mas necessárias, tais como: ‘Você tem medo da morte?  Tem alguma conversa que ainda gostaria de ter? Preferiria ser cremado ou enterrado? Tem declarações sobre seus bens que gostaria de deixar?'”.

O caminho foi o mesmo trilhado com o pai, também já falecido. “Ele não foi para a UTI, como aconteceu com a minha mãe. Os médicos queriam levá-lo, mas eu fui tentar entender o porquê daquilo, se estaríamos apenas evitando lidar com o sofrimento ou teríamos outros ganhos? Foi então que a nossa família decidiu criar para ele um espaço para que a morte acontecesse da maneira mais natural possível. Foi em casa, no quarto, cercado de filhos e netos, em um ambiente residencial, não hospitalar”.

Tom afirma que não se trata de negar a medicina ou a Ciência, mas de estabelecer um espaço de conversa, decisões e protagonismo acerca do paciente e de toda a família. “Foi aí que entendi a importância dos cuidados paliativos e de uma abordagem que trate a pessoa em todas as suas dimensões, física, emocional, espiritual, social. Não se trata de não morrer, mas de como morrer com qualidade e dignidade”, explica.

Os cuidados paliativos foram definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como ações que consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio de prevenção e alívio do sofrimento. Ou seja, como uma forma de aliviar o momento com compaixão, controlando os sintomas e a dor, buscando oferecer qualidade e bem-estar enquanto o paciente estiver assistido.

O tema é um desafio, sobretudo no Brasil, que está entre os piores países para se morrer. Segundo a The Economist, o País é 42º em um ranking feito a partir do Índice de Qualidade da Morte (2015) que avaliou 80 nações e levou em consideração, principalmente, o acesso aos cuidados paliativos. No Brasil, há apenas 177 serviços dessa área para mais de 200 milhões de habitantes.

Festival inFINITO 2020

Tom Almeida criou o Festival inFINITO como uma forma de ampliar o diálogo e as trocas de experiências mais avançadas sobre o viver e o morrer. O evento chega à sua terceira edição no Brasil este ano, em um formato completamente online devido ao cenário da pandemia.

Em dois dias, 3 e 4 de outubro, o festival reunirá nomes nacionais e internacionais para bate-papos sobre finitude. “Queremos que as discussões sobre o viver e o morrer extrapolem o âmbito hoje restrito à medicina ou hospitais. A ideia é lembrar que a morte e o luto são experiências humanas, e não hospitalares. Daí o nome inFINITO, achar o que é infinito dentro da finitude, é a vida que segue, são as memórias, as emoções, a forma como eu me mantenho conectado a tudo isso”, explica.

Estão previstas rodas de debate com doulas que cuidam da vida e da morte, e a presença de temas como envelhecimento, cuidados paliativos, terminalidade e luto. Uma das mesas deixa a provocação: “É possível criar uma relação amigável com a morte?”.

Tom garante que sim. “Se você vive a finitude, o fim da vida, dessa forma íntegra, você cria muitas boas memórias boas, vê beleza, gratidão e amor. Não é sobre minimizar a dor, mas viver essa experiência de maneira completa, incluindo todos os sentimentos que esse processo nos traz”.

Para participar do evento. é necessário se inscrever. As programações começam a partir das 10 horas.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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