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Cuba, a ilha de Sísifo

Novos protestos, velhos dilemas… O país de Fidel Castro é prisioneiro do embargo e de uma crise estrutural

Os organizadores culpam a repressão pelo fracasso das manifestações. O governo exalta o patriotismo (Fotos: STR/AFP)
Os organizadores culpam a repressão pelo fracasso das manifestações. O governo exalta o patriotismo (Fotos: STR/AFP)

A data foi escolhida a dedo, 15 de novembro, a segunda-feira que marcou a reabertura das atividades de turismo, com a reativação de dez aeroportos e centenas de hotéis, e a volta às aulas presenciais para estudantes de todos os níveis em Cuba. A oposição planejara protestos em Havana e diante de embaixadas e consulados em mais de 80 cidades ao redor do mundo para exigir liberdade de expressão e soltura de supostos presos políticos. A expectativa era ter mobilizações mais expressivas que as de 11 de julho, com maior repercussão internacional.

As tentativas fracassaram. Nem mesmo a combinada exposição de toalhas e flores brancas em sacadas e janelas de edifícios aconteceu. Em diversos países houve a concorrência de lados contrários na frente de representações diplomáticas. A oposição alega que uma forte repressão e a prisão de ativistas predominantemente jovens forçou um recuo momentâneo. Os boatos se multiplicaram e o mais forte deles jogava sobre o regime a responsabilidade pelo súbito desaparecimento do dramaturgo Yunior García, de 39 anos, organizador da plataforma virtual Archipiélago e uma das lideranças mais visíveis dos protestos. Dois dias depois, García ressurgiria com a esposa e o filho em Madri, alegando ter fugido da repressão.

O economista cubano e conselheiro da Unesco Julio Carranza, simpático ao regime, escreveu em seu blog que “a convocatória foi contaminada desde o início por uma agenda política antigovernamental e antissistêmica em meio a um ambiente de forte agressão ao país”. Para ele, a economia cubana foi submetida a uma garra que a aperta fortemente. “O bloqueio reforçado e a pandemia, que reduziram o turismo e outras atividades a zero, combinam-se com um injustificado terceiro fator: uma reforma econômica imprescindível, mas que avança de forma desagregada e inexplicavelmente lenta.”

Apesar do malogro oposicionista, ­Carranza avalia ser equivocado por parte das autoridades fazer uma leitura triunfante do ocorrido. Qualquer análise minimamente rigorosa constatará que a crise política e econômica iniciada com a queda da União Soviética, há exatos 30 anos, não foi superada. A eleição de Hugo Chávez, em 1998, e os acordos estabelecidos entre Cuba e Venezuela para a compra de petróleo em condições favoráveis deram fôlego à transição de uma dinâmica primário-exportadora de açúcar a uma economia de serviços voltada para o turismo. A exiguidade do mercado interno num país de pouco mais de 11 milhões de habitantes é, no entanto, entrave para alterar a dependência crônica das oscilações do setor externo. Com alguns perío­dos excepcionais, a situação resulta em escassez de gêneros de primeira necessidade e interrupções imprevisíveis no fornecimento de energia e água.

Assim, o espantoso não é o fracasso dos protestos e o reduzido apelo popular que tiveram. O surpreendente é o regime perdurar, com metade de sua existência marcada por uma crise estrutural.

‘Há dificuldades, mas não há fome como no Brasil’, diz Teresa Sopena, jornalista aposentada

Quase um terço da população tem até 25 anos de idade e calcula-se que pouco menos da metade chegue a 30. Trata-se de gente que não conheceu outra realidade e para quem promessas de um futuro de abundância e justiça social viraram palavras vazias.

No dia seguinte às malogradas manifestações, o jornalista de oposição Abraham Jiménez Enoa, de 32 anos, descreveu em sua coluna no ­Washington Post: “Subo ao telhado do meu prédio e contemplo a incrível tranquilidade que se vive em Vedado, bairro de Havana. Faltam alguns minutos para as 15 horas, quando está previsto o início dos protestos”. Enoa alega ter sido colocado em “prisão domiciliar” pela polícia, para impedir sua participação nas manifestações. Denuncia “ser difícil viver em um país onde não se pode falar o que se pensa”. Mais adiante, ele assegura que, “depois da imposição do medo, as ruas ficaram vazias e apenas militares, policiais e agentes da segurança do Estado passaram por elas”. Enoa não apresenta maiores evidências, mas garante que a operação foi suficiente para desmobilizar os ativistas, apesar de a internet não ter sido cortada, ao contrário do 11 de julho. Em nota, a Anistia Internacional afirma ter recebido relatos de centenas de prisões, o que é negado pelo governo.

É difícil avaliar a exatidão do depoimento do jornalista. Quinze dias antes, em 31 de outubro, ele produzira outra coluna, em tom alarmista. Sob o título “Não há uma única razão para que os cubanos não marchem contra o regime”, Enoa relatava que “o dramaturgo Yunior García foi atirado à entrada de sua casa de terra batida e o corpo de vários animais decapitados”. Para o profissional, parcela da população é constituída por “turbas de civis que o regime usa para reprimir em nome do povo”. Evidentemente, as colunas de Enoa num dos mais tradicionais diários do establishment estadunidense, cujo proprietário é Jeff Bezos, dono da ­Amazon, são tão isentas quanto o noticiário do Granma, órgão oficial do PC cubano.

Para a jornalista aposentada cubana Teresa Sopena, não é segredo que a pregação oposicionista se soma aos desígnios de sucessivos governos norte-americanos de colocar um fim ao regime. “Isso é inaceitável para o governo. O socialismo está reafirmado na Constituição, aprovada por 90% do povo cubano em 2019.” A Carta flexibilizou diversas modalidades de propriedade e de negócios particulares, como forma de alavancar uma economia em dificuldades. “Quando a atividade turística vivia seus melhores momentos, veio a pandemia e o país se fechou totalmente.” O impacto numa atividade que movimentava cerca de 14% do PIB e era responsável pelo ingresso de 40% de suas divisas cambiais foi forte. O Banco Mundial acusou a queda de 11% no PIB em 2020.

A tradução de tamanho solavanco na vida cotidiana é significativa. “Há dificuldades, mas não há fome como no Brasil”, sublinha Sopena. “Havana é uma cidade marcada por filas, que se formam muitas vezes de madrugada, em busca de gêneros de primeira necessidade”, descreve. Café, cerveja e xampu são luxos raramente encontrados nas lojas.

Os indicadores sociais da Ilha seguem surpreendentes. A expectativa de vida de 78 anos ainda a coloca acima do Brasil. Segundo o site Our World in Data, 89,5% da população está vacinada contra a Covid, 80% com duas doses de imunizante, o que torna o país o terceiro mais protegido do mundo contra a pandemia, com medicamentos totalmente produzidos internamente. Mas há um problema mais grave, sentido em especial pela juventude: a perspectiva de uma vida sem escassez, mais estável e com maiores oportunidades. Aliás, é o que falta em todo o continente.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1185 DE CARTACAPITAL, EM 25 DE NOVEMBRO DE 2021.

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