CartaCapital
Compliance Zero/ De volta ao cárcere
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é preso em nova fase da operação
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, voltou a ser preso na quarta-feira 4, desta vez por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que assumiu a relatoria do caso em 19 de fevereiro, no lugar de Dias Toffoli. Nesta terceira fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal investiga a prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Vorcaro já havia passado pela carceragem da PF em novembro. Foi preso na primeira fase da operação, deflagrada às vésperas da liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central, quando tentava embarcar em um avião particular – avaliado em 200 milhões de reais – com destino a Malta, arquipélago europeu no Mediterrâneo. Após 12 dias, foi autorizado a responder ao processo em liberdade, mediante o uso de tornozeleira eletrônica. Os investigadores da PF encontraram, porém, evidências de que o banqueiro possuía uma espécie de milícia privada, dedicada a espionar e intimidar desafetos.
Vorcaro encomendava, em um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”, ataques contra jornalistas, funcionários e concorrentes a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que atendia pelo apelido de “Sicário” e é apontado como coordenador do grupo miliciano. Em uma das conversas interceptadas pela PF, o banqueiro teria solicitado ao capanga para “dar um sacode” em um chefe de cozinha ligado a um ex-funcionário. Em outra, ordenou um ataque contra uma empregada que o estaria ameaçando: “Tem que moer essa vagabunda”.
Zettel seria responsável pelos pagamentos a “Sicário” – Imagem: Redes Sociais
O dono do Master também teria pedido a Mourão que vigiasse os passos do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Em outra troca de mensagens mencionada na decisão judicial, foi além: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”. Sicário foi preso, mas enforcou-se com sua camiseta em uma cela da Superintendência da PF em Minas Gerais. O custodiado chegou a ser socorrido por agentes federais, mas teve a morte cerebral constatada por um hospital de Belo Horizonte.
Mourão era um velho conhecido da Polícia Civil mineira. Com passagens por furto e estelionato, era réu desde 2021 em um processo criminal, acusado de montar um esquema de pirâmide financeira. Além de Sicário, o ex-policial federal Marilson Silva também integrava o núcleo de espionagem. Ele é apontado no relatório de Mendonça como “integrante relevante da estrutura paralela de monitoramento e intimidação” de Vorcaro, e usaria sua experiência na PF para obter dados sensíveis de alvos do grupo.
Em seu despacho, Mendonça observa que a milícia do banqueiro tinha acesso a dados sigilosos de vários órgãos públicos. “Tais acessos teriam ocorrido mediante utilização de credenciais funcionais pertencentes a terceiros, permitindo a obtenção de informações protegidas por sigilo institucional”, escreveu o ministro. “A partir dessa metodologia, de acordo com a autoridade policial, o investigado teria obtido acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal, e até mesmo de organismos internacionais, tais como FBI e Interpol.”
“Sicário” enforcou-se na carceragem da Polícia Federal – Imagem: Redes Sociais
Alvo de mandado de prisão, Fabiano Zettel, pastor da Igreja Lagoinha em Belo Horizonte e cunhado do banqueiro, entregou-se às autoridades na Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro (3 milhões de reais) e Tarcísio de Freitas (2 milhões de reais) nas eleições de 2022, ele é suspeito de envolvimento em diversas operações fraudulentas do Master. Mensagens encontradas pela PF sugerem, ainda, que ele seria o responsável pelos pagamentos ao grupo comandado por Sicário, que chegavam a 1 milhão de reais por mês. O empresário havia sido preso anteriormente, em 14 de janeiro, quando tentava embarcar em voo comercial no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Com digitais espalhadas pelos maiores escândalos do País, da Carbono Oculto à Refit, o senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, também aparece em mensagens comprometedoras encontradas no celular de Vorcaro. Em uma delas, o banqueiro refere-se ao político como “um dos meus grandes amigos de vida”. O dono do Master tinha mesmo motivos para demonstrar gratidão ao parlamentar. Durante a tramitação da PEC 65/2023, que trata da autonomia do Banco Central, Nogueira propôs uma emenda para elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de 250 mil para 1 milhão de reais por depositante.
Nogueira tem as digitais expostas em outro escândalo – Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
A medida poderia, em tese, estimular novos investidores a comprar títulos do Master. Não por acaso, Vorcaro celebrou a proposta: “Ciro soltou um Projeto de Lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes! Está todo mundo louco”, escreveu. Por sorte, o Congresso rejeitou a mudança. A liquidação do Master e de outras instituições financeiras ligadas a ele gerou um rombo de, aproximadamente, 52 bilhões de reais no FGC. Caso a emenda de Nogueira tivesse prosperado, esse prejuízo poderia ser quatro vezes maior.
Apesar de ter sido citado ao menos 14 vezes em mensagens encontradas no celular de Vorcaro, com referências a jantares, recepções e reuniões, o parlamentar nega proximidade com o banqueiro. “O senador Ciro Nogueira mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas”, diz um trecho da nota divulgada por sua assessoria de imprensa.
Além de Nogueira, o presidente da Câmara, Hugo Motta, também aparece nas mensagens. Em uma delas, datada de 25 de fevereiro de 2025, há a menção a um jantar com “Hugo e 6 empresários” na “residência oficial”. Motta havia sido eleito para comandar a Casa Legislativa naquele mesmo mês.
Mendonça mandou bloquear 22 bilhões de reais em bens – Imagem: Gustavo Moreno/STF
Dois servidores do Banco Central, Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza – esse último ex-diretor de fiscalização da instituição – também foram alvo de mandados de busca e apreensão em suas residências. Eles já haviam sido afastados de suas funções pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, decisão agora reforçada por determinação judicial. Segundo os investigadores, eles atuavam como “consultores informais” de Vorcaro.
Mendonça ordenou ainda o sequestro e o bloqueio de bens de até 22 bilhões de reais, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos do grupo. A Compliance Zero investiga um megaesquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. Entre as suspeitas estão a venda de títulos podres, lavagem de dinheiro e corrupção.
A defesa de Vorcaro “nega categoricamente” as alegações atribuídas ao cliente e acrescenta que o “esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta”. Os defensores de Zettel, por sua vez, queixam-se da falta de acesso aos autos, mas reforçam que o empresário “está à inteira disposição das autoridades”. Na cadeia, quem não está?
Pé no freio
Com a segunda maior taxa de juros real do mundo, a economia brasileira desacelerou e encerrou 2025 com crescimento de 2,3%. O resultado era esperado por analistas, em razão da política monetária contracionista do Banco Central, que freia o consumo e os investimentos produtivos. Diante do cenário, a perda de fôlego da atividade foi até considerada moderada, com a Selic ainda em 15% ao ano. Nos quatro anos anteriores, o PIB havia registrado altas anuais superiores a 3%. A agropecuária teve o melhor desempenho, com expressivo avanço de 11,7%. Segundo o IBGE, o resultado foi impulsionado, principalmente, por safras recordes e ganhos de produtividade em diferentes culturas, sobretudo milho (alta de 23,6%) e soja (14,6%). Os demais setores apresentaram desempenho mais modesto, embora positivo: os serviços cresceram 1,8% e a indústria, 1,4%.
Golpista em cela comum
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou o retorno de Filipe Martins, ex-assessor da Presidência no governo Bolsonaro, à unidade prisional de Ponta Grossa (PR), onde cumpre pena de 21 anos de reclusão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. No despacho, assinado em 28 de fevereiro, o magistrado contesta a remoção para o Complexo Médico Penal, realizada no mês anterior pela Polícia Penal do Paraná. “A transferência do réu, realizada sem prévia autorização desta Suprema Corte, configura indevida mitigação da competência deste Juízo, além de comprometer o regular acompanhamento da execução penal”, registrou Moraes.
Carrinho na mão de hipocondríacos
A Câmara dos Deputados aprovou, na segunda-feira 2, o Projeto de Lei 2158/23, que autoriza a venda de remédios em supermercados, desde que em ambiente físico delimitado, segregado e exclusivo para a atividade. Segundo o deputado Zacharias Calil, relator da proposta, a medida facilita o acesso da população a drogarias. “Existem dificuldades enfrentadas pelos consumidores que residem em pequenos municípios, nas regiões mais remotas do Brasil, devido à ausência de farmácias nesses locais”, afirma. Especialistas alertam, porém, que a iniciativa serve de incentivo à automedicação. “O PL representa um grave risco para a saúde pública ao banalizar o uso de medicamentos sem a orientação necessária”, observou o Conselho Nacional de Saúde (CNS), no fim de janeiro, ao recomendar a rejeição do projeto. O texto segue agora para sanção do presidente Lula.
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’
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