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Bola de neve

Acumulam-se sinais de uma correção abrupta de preços, enquanto o investimento em IA atinge patamar sem precedentes

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O Google e a Amazon de Bezos (ao lado) estão na linha de frente dos investimentos em Inteligência Artificial. Nos últimos dias, os anúncios de gastos bilionários na tecnologia derrubaram os preços das ações de algumas big techs, mas o otimismo voltou a vigorar após um breve momento de pânico – Imagem: Google, Michael Dadain e Miguel J. Rodriguez Carrillo/AFP
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O anúncio de gastos adicionais de 660 bilhões de dólares das plataformas digitais na infraestrutura de Inteligência Artificial afetou a frequência cardíaca dos investidores mundo afora. Nos últimos dias, o Índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, viveu uma montanha-russa, um retrato da alternância de momentos de euforia e de medo diante de um não desprezível risco de explosão de uma nova bolha de ativos, desta vez a partir de ações das big ­techs. Os aplicadores se assustaram com as centenas de bilhões de dólares despejados por essas companhias nos seus negócios e na cadeia de fornecimento, até agora sem retorno, mas, ao que parece, acataram, por ora, as explicações dos CEOs sobre a consistência dos gastos. Na terça-feira 10, o CNBC Magnificent 7 Index, índice das principais plataformas, registrava discreta valorização, depois de uma queda de mais de 9% nas ações da Amazon. ­Alphabet, holding do Google, Apple, Meta, dona do ­Facebook, Microsoft, Nvidia e Tesla, além da própria Amazon, empenhadas na corrida pelo domínio da tecnologia, têm, juntas, um valor de mercado superior a 21 trilhões de dólares e representam mais de 30% da cotação total das empresas negociadas no S&P 500, índice que mede o desempenho de 500 das maiores empresas norte-americanas de capital aberto.

A importância do grupo no destino do maior mercado de ações do mundo é indiscutível. Há também uma aceitação geral quanto ao risco adicional para o sistema representado pela instabilidade do dólar e do mercado de títulos do Tesouro dos EUA, intensificada pelas ações do presidente Donald Trump fora dos marcos institucionais de funcionamento das finanças e da democracia. Mas não existe consenso, tanto entre organismos multilaterais quanto por parte de gurus do mercado, sobre a existência ou a iminência de uma crise.

O FMI não prevê uma crise generalizada prestes a eclodir, mas adverte, no World Economic Outlook de janeiro, que o cenário é de alto risco e exige vigilância, com foco em tensões políticas que podem desencadear instabilidade financeira. O Fórum Econômico Mundial não aposta em uma crise única e prestes a acontecer, mas alerta para um período de “alta incerteza, fragmentação geopolítica e múltiplas crises simultâneas, climáticas, financeiras, de dívida e de Inteligência Artificial entre 2026 e a próxima década”, segundo relatórios do encontro de janeiro em Davos. A OCDE sustenta que, apesar de a economia global ter mostrado resiliência, o crescimento será mais moderado, com um cenário de incerteza política a enfraquecer o comércio e o investimento, segundo o Economic Outlook de dezembro. O megainvestidor Warren Buffett, que previu a crise de 2008, alerta para o “desastre iminente” das empresas de IA. Nouriel Roubini, Mister ­Apocalipse (Mr. Doom), que também acertou ao antecipar o colapso das hipotecas subprime nos EUA, antes estava pessimista, mas hoje tem outra opinião e pondera que a Inteligência Artificial pode impulsionar um novo período de crescimento excepcional para os Estados Unidos. “Existe uma expectativa muito grande quanto a uma correção abrupta de preços. Nas últimas duas semanas, ocorreu um pequeno colapso, com alta dos preços do ouro e da prata, e depois um recuo muito rápido. Uma crise financeira não está, entretanto, instalada. Mas há cada vez mais temores e previsões sobre algum tipo de colapso um pouco mais generalizado”, afirma o economista André Biancarelli, professor da Unicamp.

O FMI adverte para o cenário de alto risco. Buffett vê um “desastre iminente”

Há sinais e existem alertas de que fragilidades financeiras se avolumam e podem resultar, como aconteceu outras vezes, em um episódio de crise financeira relevante. Isso não é grande novidade. A novidade é que há mais dúvidas, há mais incerteza em relação ao papel do dólar e a confiança num porto seguro, sublinha o professor. Crises financeiras, prossegue o economista, em geral acontecem em perío­dos de taxas de juro baixas, às vezes combinados com muito otimismo sobre o futuro, com frequência impulsionado por um novo setor, entre outros fatores. Essa mescla está presente no atual cenário.

Há uma percepção generalizada de que existe uma febre de otimismo com o setor de IA, com investimentos elevados. Elaboram-se previsões de rentabilidade, de receita, que acabam infladas por projeções exageradamente otimistas. Com as taxas de juro relativamente baixas, aumenta-se esse tipo de aposta e aí a situação fica “um tanto autoalimentadora”. A suspeita é de que houve exagero de previsões, de investimentos e de projeções de receitas. As big techs anunciaram aumentos significativos de investimentos com Inteligência Artificial neste ano, que podem chegar a 700 bilhões de dólares, com uma grande queda no fluxo financeiro. “Se você vai investir todo esse dinheiro em IA, isso vai reduzir seu fluxo de caixa livre”, ponderou Jake Dollarhint, CEO da Longbow Asset Management, ao The Wall Street Journal.

O ponto em comum do momento atual­ com as conjunturas que precederam outras crises é a presença de um otimismo misturado com certa ilusão quanto às perspectivas de um novo setor promissor, geralmente associado a uma mudança tecnológica. O problema é que o ambiente de taxas de juro relativamente baixas autoriza apostas que se avolumam e formam uma espécie de bola de neve. “O que tem de novidade nessa possível crise, em relação a outros episódios”, ressalta ­Biancarelli, “são dúvidas importantes sobre o futuro do dólar. Não que o dólar não tenha sido contestado em outras épocas, mas a novidade é que a política econômica, e mais do que econômica, a política diplomática do governo dos Estados Unidos parece não se importar muito com o enfraquecimento da moeda, e até aposta nisso. Não no enfraquecimento da posição do dólar enquanto reserva, mas do seu valor. É uma aposta na desvalorização. Mas uma coisa pode estar vinculada à outra.”

Tanto Buffett quanto Roubini anteciparam a crise das hipotecas de 2008. Agora, os dois divergem. O experiente investidor alerta para uma nova bolha. O economista inquieto antevê um período de prosperidade – Imagem: iStockphoto, S. Thanachaiary/WEF e Fortune US

Existe um movimento de crescente desconfiança quanto ao dólar e aos títulos da dívida norte-americana continua­rem a ser, como foram nos últimos 50 anos, o porto seguro, o refúgio das incertezas, esclarece o professor da Unicamp. Isso torna uma possível crise de confiança, um momento de fuga para a liquidez, “mais perturbador ainda e mais complicado, porque, quando não se tem um refúgio muito bem estabelecido, para onde todo mundo vai correr na hora da crise? Se isso está em dúvida, a crise pode ter contornos um pouco mais imprevisíveis”.

Tudo isso está, entretanto, no plano dos movimentos marginais, das dúvidas, das incertezas. “Eu não diria que a crise está colocada. Nem se ela vai ser maior ou menor do que outros episódios semelhantes.” O mundo passa por momentos perturbadores, desafios importantes ao conjunto de regras estabelecidas, em particular a postura dos Estados Unidos de desprezo pelas instituições e a tentativa até de criar outras sob o seu comando. “Uma certa agressividade imperial meio sem filtro.” E é preciso levar em conta também o problema ambiental, grave.

Suspeita-se de exageros nas projeções de receitas das big techs

Muitos consideram a desvalorização do dólar pelo governo Trump como algo deliberado, uma tentativa de estimular a reindustrialização dos EUA, mas o economista alerta para o risco de interpretações simplificadoras. A lógica é um pouco essa, tentar facilitar, incentivar a reindustrialização dos Estados Unidos, o que é uma tarefa bem difícil. A eficácia dessas medidas é motivo de dúvida. Ainda mais da maneira complicada com que são encaminhadas, pois decisões de alocação produtiva não são feitas assim, sujeitas a revisões tão rápidas. “Mas, se tem algo mais estratégico, que faz mais sentido, das decisões de Trump, e não é nada sutil, é essa aposta ou tentativa de garantia de fornecimento de minerais estratégicos para as big ­techs. Aí se está pensando um pouco mais longe”, sublinha o professor da Unicamp.

Um passo nessa direção foi a definição recente, pelo Departamento de Estado, do projeto denominado Pax Silica, de uma aliança multinacional destinada a garantir toda a cadeia de valor da economia da IA centralizada nos EUA. Formada por EUA, Japão, Coreia do Sul, Países Baixos, Reino Unido, Austrália, Israel, Cingapura, Emirados Árabes Unidos e Catar, visa assegurar todos os elos da cadeia de abastecimento da Inteligência Artificial. “Funciona como um clube de compradores, liga diretamente as minas de lítio australianas às fábricas de baterias sul-coreanas e às empresas de litografia holandesas, reduz a incerteza e assegura aos investidores que os recursos têm um destino garantido”, ressalta Sarah Ladislaw, diretora do Centro de Estratégia Industrial de Novas Energias, em artigo no portal Project Syndicate.

O receio de uma crise persiste e a referência inevitável é o estouro da bolha das hipotecas de baixa qualidade nos EUA. “Não há como avaliar se o potencial de estrago financeiro dessa vez seria maior ou menor do que aquele da crise de 2008. O que eu vejo de novidade é essa camada a mais de confusão, de incerteza, provocada pela política norte-americana e por esse questionamento que parece um pouco mais sério ao papel do dólar enquanto refúgio”, insiste Biancarelli. “Se ocorrer um episódio de abalo daquele tamanho, é possível que o desdobramento seja outro, por conta dessa desconfiança, desse movimento de migração de aplicações em títulos dos Estados Unidos. Acho que essa é a novidade e é também o fantasma.” •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bola de neve’

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