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Bella, ciao

O Bar Partisan resiste e se consagra como point progressista na Lapa

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Militância com cerveja. O Partisan promove debates, como no lançamento do Atlas de Política Experimental. Vieira, o dono, é o último à direita na mesa – Imagem: Guilherme Taboada/CartaCapital
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Ambiente antifascista e cerveja gelada. Estampado no cardápio em letras garrafais, o lema do Bar Partisan não deixa dúvida sobre um dos points emergentes da esquerda carioca. No início de uma promissora noite de sexta-feira, o espaço, também integrado pela Gráfica Pavunão da Lapa, é tomado aos poucos por um público eclético em gênero, estilo e idade. Bem diferente do grupo formado por uma dezena de fiscais do Procon, da Vigilância Sanitária e da prefeitura do Rio de Janeiro, que em abril ocupou o local para comunicar a cassação do alvará de funcionamento do estabelecimento e lavrar uma multa de 9.250 reais. As punições aconteceram após a denúncia feita pelo vereador Pedro Duarte, do PSD, que flagrou na porta do Partisan um quadro com os dizeres “US and Israel Citizens Are Not Welcome!” escritos com giz. A ação e sua ampla divulgação, apimentada por uma estranha denúncia de antissemitismo, causou polêmica nas redes e quase levou ao fechamento do bar. Mas o Partisan resistiu, deu a volta por cima e atraiu novos frequentadores.

“A cassação do alvará foi facilmente revertida porque não tivemos ciência de que o processo havia sido aberto, não teve prazo de recurso nem direito ao contraditório. Na verdade, nem sequer tinham feito flagrante no bar, que estava fechado. Eles não viram placa nenhuma”, diz Thiago Vieira, dono do ­Partisan e da gráfica que funciona na mesma casa de três andares. As mensagens no quadro mudam a cada dia e fazem parte de um cenário decorado com camisetas de Marx, Lenin e Lula, bandeiras da Palestina e uma estante com livros de autores de esquerda, entre outros itens. Tudo pode ser comprado por quem frequenta o local, que tem um espaço multiuso para reuniões, debates, exposições e exibições cinematográficas.

Ex-diretor da Associação Municipal de Estudantes Secundaristas e ex-assessor parlamentar do PSOL, Vieira garante que nunca houve intenção de discriminar ou de incentivar o antissemitismo. “Não tem nenhuma vítima, ninguém foi barrado. Temos os cavaletes onde escrevemos palavras de ordem e fazemos artes políticas. Na semana passada era sobre Fidel e Che ­Guevara­. Hoje tem um desenho ligado à Palestina. A gente se expressa politicamente nesses cavaletes.” O fato de ser uma lousa de giz, diz o dono do Partisan, prova que se trata de algo efêmero. “Uma regra da casa é uma placa fixada na parede permanentemente. Ficam dizendo que instalei uma placa vetando a entrada, mas não tinha nenhuma placa instalada e não havia veto. Tinha um cavalete de giz com uma mensagem política.”

“Estava expressando uma opinião política e isso incomodou”, afirma Thiago Vieira, propietário

Passado o temor pelo fechamento e a preocupação com a multa, as conversas nas mesas não disfarçam que o episódio da placa acabou por inflar o orgulho de quem trabalha ou frequenta o Partisan. “Entenderam que era uma provocação para fazer as pessoas no meio da boemia lembrarem que, enquanto a gente está relaxando na Lapa, tem gente morrendo, que violências em Gaza e no Irã estão acontecendo. Era esse mal-estar que eu queria provocar”, diz Vieira. A reação, avalia, foi eminentemente fascista. “O Partisan estava expressando opinião política e isso incomodou. Tem tanta merda acontecendo e os caras foram se incomodar com isso.” Para ele, há várias evidências de que a questão é política. “Na semana seguinte, nosso cartaz dizia Israel should surrender Bibi to the ICC, e o mesmo vereador falou que estávamos reincidindo na xenofobia. Pô, era uma frase claramente política.”

A cliente Isabela Araújo, “ex-participante do movimento estudantil, não filiada a nenhum partido, mas de esquerda”, concorda e diz que a verdade incomoda. “Como o Rio tem essa cultura da repressão, quanto mais nós que temos voz quisermos botar nossa voz na rua, mais seremos alvo do incômodo de quem não quer que a gente se expresse.” ­Isabela ressalta a sensação de se sentir em casa e “de saber que um cuida do outro aqui”, e considera um absurdo a ameaça de fechar o boteco. “Tem tanta coisa errada na cidade, né? Problemas de transporte, de roubo, traficantes, milícias. Com situações tão extremas, uma placa com um dizer político incomodar nesse nível foi algo bem chocante para mim.”

O ambiente politizado é reforçado pelos funcionários do Partisan, integrantes de correntes ou partidos. “Todos os empregos daqui são reservados à esquerda. Em qualquer outro lugar você esconde no currículo que é filiado a um partido, pois isso fecha portas. Aqui esse currículo conta para abrir portas. No ­Partisan, as pessoas estão trabalhando e fazendo ­política”, diz Vieira. Um exemplo é o chef Thiago Abraão, com formação em cinema e gastronomia, oriundo do coletivo negro Minervino de Oliveira e atualmente militante do PCBR. “Primeiro, eu vim para organizar o cineclube Madame Satã, iniciativa do Coletivo Gonzaguinha, que acontece toda última quinta-feira do mês e tem a pegada de apresentar filmes brasileiros e fazer um debate político sobre eles. Depois, eu trouxe umas ideias gastronômicas e comecei a assumir a parte dos sanduíches, da alimentação aqui.”

Vieira ainda teme uma investida da prefeitura, mas o apoio dos clientes o anima. “Não tem nenhuma vítima, ninguém foi barrado”, diz

Entre o preparo de um sanduíche de mortadela na baguete e o atendimento às mesas, Abraão ressalta o espaço de construção, militância e diálogo. “Trazemos muito do que fazemos institucionalmente nos movimentos e partidos para o ­Partisan. Aqui você tem o entendimento de que é uma construção coletiva. Por mais que existam as hierarquias e complexidades normais do capitalismo, a gente tenta apaziguar isso nesse coletivo”, revela.

Ainda sem saber se haverá nova ofensiva da prefeitura, o bar dá sequência às atividades. Mesmo em uma noite carioca de sexta-feira e com as inúmeras distrações oferecidas pelo Baixo Lapa, o espaço multiuso reunia dezenas de clientes para o debate de lançamento do livro Atlas de Política Experimental, organizado pelo Espaço Comum de Organizações, que normalmente se reúne às terças-feiras. Segundo Rafael Saldanha, um dos autores do Atlas, o Partisan sempre foi um espaço ecumênico. “Diferentes grupos que talvez não conversariam entre si conseguem fazer isso aqui, porque não tem problema com nenhuma luta política. Então, qualquer tipo de ataque a este espaço é um ataque à esquerda do Rio de Janeiro.” Saldanha vê perseguição por parte da prefeitura. “A gente sabe de quantidade de instituições que nem sequer são de esquerda, mas admitem que o que está acontecendo nessas guerras de Israel é um genocídio contra o povo palestino e outros povos da região. Querem se aproveitar de um protesto político legítimo para colar nele uma imagem de antissemitismo”, justifica Saldanha. •

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bella, ciao’

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