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Ativo estratégico

O Brasil reúne as condições necessárias para liderar a produção de semicondutores na América Latina

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Hoje, a cadeia produtiva está concentrada nos países do Pacífico Leste. - Imagem: ISTOCKPHOTO
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Existem momentos na história que se tornam pontos de inflexão para a humanidade, nos quais avanços científicos, técnicos e inovadores sinalizam transformações que moldarão o mundo no período seguinte, revelando que nações podem surgir nesse cenário de forma soberana ou subjugada. Vive-se um rearranjo na cadeia produtiva global de semicondutores, ativos essenciais do nosso tempo. Seu domínio e expertise ampliam a influência de países nas relações internacionais, sendo decisivos nas determinações comerciais – sempre orientados, é claro, pelo princípio de que os seres humanos devem guiar as inovações tecnológicas, não serem capturados por elas.

Os semicondutores são o quarto produto mais comercializado no mundo, depois do petróleo bruto, do petróleo refinado e dos automóveis. Sua escassez generalizada, catalisada pela pandemia, pela guerra no Leste Europeu, pela crise climática, pela transição energética e pela acelerada transformação digital, entre outros fatores, revelou sua indispensabilidade para a economia global. Como a fabricação desses componentes está adensada nos países do Pacífico Leste, responsáveis por mais de 80% dos dispositivos no “estado da arte”, evidenciou-se ainda que a desconcentração regional passou a ser um tema estratégico, sobretudo pelo fato de os polos produtores estarem afastados dos grandes centros consumidores.

Daí decorre o movimento de descentralização da cadeia produtiva, polarizado, de um lado, pelos Estados Unidos, com o Chips Act, a prever investimentos de 280 bilhões de dólares até o fim da década; e, de outro, pela China, com seu Big Fund, estimado em 1,4 trilhão de dólares para o mesmo período. Trata-se do que, em 2023, Chris Miller definiu como “a batalha pela tecnologia que move o mundo”, em seu livro Chip War, no qual atualiza conceitos produtivos como nearshoring (trazer fábricas para países próximos dos maiores centros consumidores) e reshoring­ (repatriar a produção), prática anteriormente comum nos EUA nesse setor.

A demanda e a competição por esses dispositivos alavancaram uma nova dinâmica global. Essa reestruturação tornou a cadeia mais resiliente. Investimentos passaram a ser estratégicos. A desconcentração da produção no Pacífico Leste, em busca de maior segurança jurídico-comercial, e até mesmo política, tornou-se imperativa. Tudo isso é impulsionado pelo uso de equipamentos do cotidiano: eletrônicos, smartphones, laptops, redes 5G, Inteligência Artificial (IA), Internet das Coisas (IoT), Machine Learning (ML), e big data, entre outros. A previsão é de que o mercado global de semicondutores alcance, até o fim da década, valores na ordem de 1,3 trilhão de dólares.

O Brasil investe nessa indústria desde a segunda metade do século passado. Contudo, foi no fim dos anos 1970 e início dos 1980, impulsionado pelo Plano Nacional de Informática (PNI), tachado à época como uma política de “reserva de mercado”, que iniciamos uma incursão mais estruturada. Grupos empresariais e o setor estatal receberam delegações induzidas pelo Estado para a fabricação de minicomputadores em solo brasileiro. Surgiram, então, empresas como Edisa (RS), SDI (PR), Cisco (SP) e Cobra (RJ), entre outras, que deram passos importantes rumo a um modelo de desenvolvimento tecnológico-industrial local.

No entanto, a abertura desenfreada da economia, promovida pelo governo Collor no início dos anos 1990, reduziu drasticamente as tarifas de importação, permitindo a entrada massiva de produtos estrangeiros sob o argumento de “modernização tecnológica”. O impacto sobre a nascente indústria – já estratégica à época – foi severo.

Se não deseja ficar para trás na Chip War, o País precisa acelerar o passo

Ainda no período do PNI, formaram-se polos de eletroeletrônica no País, com destaque para o Rio Grande do Sul. Surgiram programas de pós-graduação e pesquisas que impulsionaram o setor. Uma das primeiras medidas foi apoiar estudantes em busca de qualificação no exterior, para que retornassem trazendo aportes fundamentais ao desenvolvimento nacional. Essa base sustenta até hoje um diferencial brasileiro: a formação permanente de profissionais com conhecimento e expertise global, condição essencial para a inserção definitiva na cadeia produtiva e de suprimentos de semicondutores, ainda que essa trajetória seja complexa e desafiadora.

Além da formação contínua de recursos humanos, frequentemente recrutados por players globais, esse capital intelectual constitui diferencial estratégico para a criação e atração de empresas do setor. Já demos os primeiros passos, não começamos hoje. O País reúne requisitos e elementos-chave para atuar em diferentes etapas da cadeia produtiva: ­design houses (desenvolvimento e projeto), back-end (encapsulamento e testes) e front-end (fabricação). Há um ecossistema com mais de 20 empresas nessas três frentes, além de instrumentos de política pública, como o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis), a Lei de Informática e a Lei do Bem, bem como programas estaduais, a exemplo do gaúcho, que são estruturantes para a alavancagem do setor.

Recentemente, o CEO da Tellescom, parceira da Malásia que está se estabelecendo no Rio Grande do Sul, destacou: “O mais importante é a capacidade de conhecimento aqui instalada. As universidades têm programas de formação e treinamento de recursos humanos, inclusive com pós-graduação”. Somam-se a isso empresas já instaladas localmente, fruto de décadas de acúmulo: HT Micron, itt CHIP, Chipus, Silvaco, EnSilica, Impinj e Ceitec, sendo esta última uma espécie de indutora de spin-offs.

Em desenvolvimento, projetos, encapsulamento e testes, o Brasil já é uma referência na América Latina. Na manufatura, contudo, estudos indicam que devemos priorizar certos nichos, como os chamados chips maduros, de nanometria intermediária. Ou ainda trilhar novas rotas tecnológicas, como os dispositivos de potência, direção que a Ceitec vem adotando, especialmente diante do mercado promissor que se abre para esses produtos.

Por fim, é necessário ampliar parcerias com competências globais e revisar parâmetros orçamentários para garantir nossa inserção definitiva nessa cadeia produtiva, que também demanda minerais críticos. Países e regiões que dominarem essa agenda, associados à garantia de suprimentos, ampliarão seu potencial de negócios, afirmarão sua independência científico-técnica, consolidarão sua soberania geopolítica e poderão alcançar um desenvolvimento com sustentabilidade econômica e social. Condições necessárias para se tornarem, no mínimo, influentes – ou mesmo decisivos – em uma nova economia global que se delineia com rapidez crescente. •


*Engenheiro, professor de Gestão do Conhecimento e da Inovação na Escola Politécnica da PUC do Rio Grande do Sul e consultor de semicondutores no TecnoPUC, o parque tecnológico da universidade.

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ativo estratégico’

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