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A paixão de Dirceu

Um sentimento que exclui a arte do possível

O jovem office-boy tornou-se líder estudantil
 O jovem office-boy
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estudantil
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Aqui estão os principais tópicos da longa conversa com José Dirceu, transmitida ao vivo na tarde de segunda-feira 8 e ainda disponível no site de CartaCapital. Como sempre, tratou-se de uma conversa entre amigos, igual àquelas já publicadas com Lula e com Ciro Gomes. Explico que a conversa sempre envolve figuras que valorizaram a minha existência como cidadão e jornalista, e que, a despeito de eventuais divergências, foram companheiras preciosas de vida na qualidade de partícipes desejados. Por causa disso, ao concluir a conversa, lembrei-me de um vinho tinto Pêra-Manca que Zé Dirceu me ofereceu anos atrás, espero tomar outro o mais rapidamente possível, ao sair da quarentena a que ambos somos condenados. De saída, comento uma definição clássica da política: ela é a arte do possível?

Nunca, responde Dirceu, eu não teria feito o que fiz na vida, a partir de quando cheguei em São Paulo, office-boy com 14 anos de idade, e vi do alto de um prédio os estudantes do Mackenzie comemorando o golpe. Tomei consciência de que estava do outro lado. Em confronto com eles, a elite, os almofadinhas, os conservadores, os reacionários. Eu era um jovem office-boy, trabalhei num almoxarifado. Como seria possível aceitar a tese da política como arte do possível, organizar uma eleição nas ruas, com tropa de choque jogando bombas, cavalaria investindo, para eleger o Centro Acadêmico e, depois de um ano, para eleger a União Estadual dos Estudantes? E como se daria que, depois da prisão e da soltura por causa da troca pelo embaixador, eu voltasse para o Brasil, fazer uma plástica, viver em São Paulo, no Brás? Aliás, um bairro tão próximo da Itália e do Brasil. E depois viver no Paraná, com o nome de Carlos Henrique Gouveia de Melo? E o sonho do PT, de construir um partido dos trabalhadores para governar o País? Então, a política é audácia, sempre, é paixão. Política sem paixão, para mim, não é política.

Atalho: “Isto significa também uma vida com princípios, ideais, crenças, ideias…”

Responde: “Importante é não mudar de lado. Mudar sem mudar de lado, as coisas mudam, a vida muda”.

A prisão

Quando fui preso, em 2015, fiquei muito deprimido. Minha filha estava ameaçada de prisão, meu irmão foi preso, pois este é o jogo para levar à delação. Superei a depressão com disciplina, mas ela ficou por dentro. (…) A prisão é algo contra a natureza humana, perder a liberdade e as circunstâncias em que a perdia. (…) O Lula e tudo que estava acontecendo com o Brasil, a carga era muito pesada.

Lembrando o Gushiken

Preso, sempre lembrava dos meus companheiros que morreram na tortura, e outro, o Luiz Gushiken. (…) Uma força da natureza, primeiro ele era um estrategista político. (…) Organizador do movimento social, um estudioso. (…) Enfrentou o câncer de frente. (…) Era o nosso samurai.

A prepotência fardada

Quando Villas Bôas tuíta que não pode dar habeas corpus para Lula, quando o Estado-Maior do Exército se reúne no mesmo dia do STF. (…) Vemos que o poder está nas mãos dos militares. (…) A formação deles é histórica, temos de recordar que o Estado Novo foi uma ditadura militar, quando Getúlio chamava Góis Monteiro, que pedia para Francisco Campos, o Chico Ciência, redigir a Polaca. (…) Quando a FEB voltou da Itália, já cultivava a ideia do pró-americanismo, da democracia ocidental. (…) O governo Bolsonaro está militarizado. (…) O Mourão militarizou a Comissão da Amazônia, o Ministério da Infraestrutura. (…) Só detém o golpe a luta popular nas ruas, a resistência, o combate. Acordos, conchavos, conciliações, não funcionam, discursos não vão resolver. Tem de haver povo na rua.

A frente

Nós temos que constituir uma frente de esquerda para lutar contra Bolsonaro e para ser a alternativa no Brasil. (…) Você há de convir comigo que não é esta a posição do PDT, PSB, PCdoB. (…) Mesmo do PSOL. (…) Fernando Henrique, Ciro Gomes, Marina e a Globo avançam para uma proposta de frente ampla e é evidente que vão trabalhar para uma transição por cima, já tivemos esta experiência no Brasil. Temos que trabalhar para uma ruptura e uma transição por baixo nas ruas, como se deu na campanha das Diretas Já.

O candidato Lula

Lula tem dito que não quer ser candidato, assim estou lendo. (…) Ele não quer, quer contribuir para a unidade da esquerda, é a leitura que eu faço. Ele fala de Flávio Dino, de Rui Costa, como tem falado de Fernando Haddad, ainda que o Haddad seja o candidato, vamos dizer assim, natural do ex-presidente.

Povo na rua

É preciso fazer luta política, cultural, ideológica, para organizar o povo, e nós não organizamos. Por que não organizamos as mães do Bolsa Família? Por que não organizamos os filhos do ProUni? Nós subestimamos, ou acreditamos ingenuamente que a elite brasileira, o aparato do Estado, a Justiça, as Forças Armadas e o Ministério Público aceitariam. (…) Mesmo depois de Collor e Fernando Henrique, o povo elegeu Lula duas vezes e Dilma também duas. E ia eleger a quinta vez depois do golpe, se tivéssemos uma eleição limpa, nós íamos ganhar a eleição de 2018. Então têm forças no Brasil, tem legado, tem memória, agora o problema é se nós estamos à altura destas forças. Parece que não. (…) Não estamos à altura deste povo, para organizá-lo, para mobilizá-lo, para conscientizá-lo. (…) Nós é que precisamos nos colocar à altura, sempre digo que a militância do PT é muito melhor que nós, os dirigentes, e estou me incluindo.

O erro da esquerda

Um dos principais erros nossos foi não mobilizar o povo, não confrontar o nosso contra o deles, classes médias conservadoras, que eles põem nas ruas como puseram contra Dilma.

A revolução social

O Brasil precisa, e digo em meu nome, já que, no caso, não posso falar em nome do PT, que nós precisamos retomar o fio da revolução brasileira inacabada, para fazer uma revolução social pelos caminhos da distribuição da propriedade, da renda e da riqueza. O Brasil não pode mudar se não retomar o projeto de desenvolvimento nacional para fazer uma revolução social, que é uma reforma radical tributária, uma reforma do sistema bancário, já que hoje a classe trabalhadora brasileira é expropriada nos juros e na estrutura tributária. (…) É uma mudança radical na estrutura política do País.

Mino Carta

Mino Carta
Diretor de Redação de CartaCapital

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