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À margem da lei

Os policiais influencers surfam no vácuo regulatório das corporações, revela estudo do Instituto Sou da Paz

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Celebridades. Breno Vieira, agente da PRF, ganhou fama com conselhos amorosos de teor machista. Gabriel Monteiro não faz mais parte da Polícia Militar do Rio de Janeiro, mas ainda associa sua imagem à da corporação – Imagem: Redes Sociais
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Homens encapuzados, perseguições eletrizantes por vielas mal iluminadas e discursos de guerra típicos de filmes de ação dos anos 1990. Vídeos com essa estética têm grande apelo nas redes sociais, sobretudo quando os protagonistas são policiais fardados que buscam entreter o público com uma amostra da “realidade das ruas” e, claro, ganhar uns bons trocados com isso. Para impulsionar o próprio engajamento, vale quase tudo: de dancinhas da última trend a conselhos amorosos para os seguidores.

Os policiais influencers surfam no vácuo regulatório e, não raro, usam a popularidade alcançada nas redes como trampolim político. Especialistas observam que esse comportamento tem gerado uma crise de legitimidade nas forças de segurança, pois a opinião individual do agente se confunde com a voz do Estado, e alertam para a falta de regulação para conter esses abusos.

Na quarta-feira 8, a deputada estadua­l Ediane Maria, do PSOL de São Paulo, denunciou ao Ministério Público Federal o agente da Polícia Rodoviária Federal Breno Vieira, responsável pelo canal “Café com teu pai”. Ele se apresenta nas redes como conselheiro amoroso e faz o papel de um “pai” para orientar mulheres em relacionamentos. As lições amorosas são temperadas com altas doses de misoginia e machismo. Ainda assim, ele acumula quase 30 milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok.

Dois terços das forças de segurança possuem normas para o uso das redes, mas as regras são frágeis e pouco específicas

“É uma questão problemática: um servidor público concursado, designado para atuar como agente de segurança pública, que, em vez de servir à população, está focado em trabalhos extras”, comenta Ediane Maria. A prática é proibida pela PRF, mas o canal está no ar há mais de um ano sem qualquer repreensão, observa a parlamentar. “Isso é nocivo porque pode induzir a população a acreditar que esse posicionamento é oficial.”

Para dimensionar o problema, o Instituto Sou da Paz analisou as regras internas de 56 corporações policiais no País, incluindo a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as polícias civis e militares estaduais. O levantamento identificou que apenas 37 instituições contam com algum tipo de regulação, em sua maioria criada às pressas a partir de 2021. A diretora-executiva da ONG, Carolina Ricardo, afirma que a “ausência de contornos nítidos favorece a atuação de agentes em uma zona cinzenta”. Segundo ela, o cenário impõe “desafios disciplinares”, pois, à medida que esses policiais ganham fama, torna-se mais difícil puni-los ou desligá-los das corporações.

Um caso emblemático é o de Gabriel Monteiro, ex-soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que usou a exposição nas redes para impulsionar a carreira política. Armado e fardado, publicava no YouTube vídeos de “experimentos sociais” e, amparado pela popularidade, passou a desrespeitar superiores e fazer acusações sem provas – como em 2020, ao atribuir ao coronel Íbis Pereira, ex-comandante da PM fluminense, envolvimento com o tráfico e filmá-lo sem autorização. O episódio resultou em punição disciplinar, mas não houve responsabilização pelo uso das redes, à época sem normas específicas. No mesmo ano, chegou a ser expulso por deserção (decisão revertida), depois deixou a corporação e ingressou na política. Eleito vereador pelo PL no Rio, teve o mandato cassado por má conduta em agosto de 2022. Três meses depois, foi preso preventivamente, acusado de estupro, e permaneceu em Bangu 8 até 2025, quando o Superior Tribunal de Justiça concedeu liberdade com monitoramento eletrônico. Hoje, mantém presença nas redes, onde exibe a tornozeleira e ainda associa sua imagem à polícia, inclusive no nome de usuário no Instagram: @gabrielmonteiropm­.

Trunfo. O canal de Da Cunha no YouTube segue ativo com mais de 3 milhões de inscritos – Imagem: Redes Sociais

Em outubro de 2023, a PM do Rio editou uma instrução normativa com regras para o uso de redes sociais e aplicativos de mensagens, incluindo a proibição expressa de usar símbolos da corporação, como brasões e nomes, em perfis pessoais. Para a gerente de advocacy do Instituto Sou da Paz, Nathalie Drumond, a decisão é bem-vinda, embora um tanto tardia. Ela reconhece, porém, que se trata de um debate complexo, por “esbarrar em liberdades individuais e no direito à manifestação de opinião”.

O estudo do Sou da Paz mostra que o número de deputados federais oriundos das forças policiais saltou de 4, em 2010, para 42, em 2018 – aumento de 950%. Em 2024, ao menos 849 policiais foram eleitos vereadores. Para Carolina Ricardo, o uso das redes gera “desigualdade nas eleições”, pois muitos agentes iniciam a campanha antes do período oficial. Segundo a especialista, a saída não é proibir as plataformas, mas reforçar a fiscalização interna e a aplicação de punições para desestimular a prática.

O uso das redes sociais não traz apenas visibilidade e influência, mas também lucros elevados com a monetização de conteúdo. Em meados de 2020, o delegado Carlos Alberto da Cunha passou a publicar, no YouTube, vídeos sobre a “rotina de um policial civil” na capital paulista, sob a justificativa de incentivar jovens a ingressar na carreira. A exposição rapidamente se converteu em fonte de renda paralela. Dados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo indicam que ele mantinha uma estrutura profissional de produção, com ­custos superiores ao próprio salário (cerca de 10 mil reais), enquanto os ganhos com o canal ultrapassavam 500 mil reais por ano. Em 2022, Da Cunha elegeu-se deputado federal pelo União Brasil.

Delegado Da Cunha foi denunciado por encenar nas redes o resgate de uma vítima de sequestro

Especialistas alertam para o risco de subordinar o cumprimento da lei à lógica dos algoritmos. Da Cunha levou esse comportamento ao extremo ao encenar uma operação de resgate de uma vítima de sequestro em seu canal no YouTube. O estudo do Sou da Paz revela que ele não participou do momento real da libertação: ao chegar ao local, após a operação já ter sido concluída, obrigou a vítima e os suspeitos, já detidos, a participar de uma reconstituição forjada para suas câmeras. As irregularidades não param por aí. Instalações da Polícia Civil foram usadas como estúdios pelo influenciador. Além disso, funcionários contratados para sua equipe de filmagem foram flagrados dirigindo viaturas e portando armas da instituição. A conduta resultou em denúncia por crime de peculato.

A Corregedoria da Polícia Civil investigou a conduta do delegado e recomendou sua demissão em 2022. O processo baseia-se em acusações de abuso de autoridade e constrangimento ilegal. A palavra final cabe ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Para Drumond, o caso ganhou complexidade adicional devido à alta exposição do agente. “Quando o delegado Da Cunha sofreu medidas disciplinares, o caso virou um debate público e a discussão, que deveria ser técnica sobre a adequação da conduta de um servidor da segurança pública, passou a ser politizada”, afirma.

Da Cunha foi denunciado criminalmente pelo Ministério Público no caso da encenação do resgate, ainda sem desfecho. Em sua defesa, alegou que a filmagem foi uma “simulação para fins probatórios”. Reconstituições oficiais, no entanto, são atribuição da Polícia Técnico-Científica, e não devem ser usadas como ferramenta de autopromoção em redes sociais, observa o Sou da Paz. A única sanção efetiva até o momento foi um breve afastamento em 2021, quando o delegado teve arma e distintivo recolhidos pela Corregedoria da Polícia Civil. Em 2023, a corporação devolveu sua carteira funcional e uma pistola, por decisão do delegado-geral. O canal no YouTube segue ativo, com mais de 3 milhões de inscritos.

Segundo o Sou da Paz, embora dois terços das polícias tenham algum nível de regulação sobre redes sociais, as normas são pouco específicas. O estudo defende a proibição do uso de elementos de identificação – como fardas, armas e viaturas – em perfis pessoais, além de mecanismos mais ágeis de responsabilização. “As normativas atuais ainda não dão conta desse problema de produção de conteúdo e monetização”, avalia Drumond. “Esse é um problema que precisa ser enfrentado com urgência.” •

Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘À margem da lei’

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