Educação

Transformando a educação com o pensamento sistêmico

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 13/07/2017 00h50, última modificação 13/07/2017 11h59
Hábitos de pensamento sistêmico e complexo, sobretudo na sua perspectiva social, estão amplamente relacionados com a Aprendizagem Socioemocional
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Desde que se inicie do fácil para o difícil, que se utilize experiências ao alcance das crianças e os estímulos adequados, elas compreenderão e praticarão o pensamento sistêmico

No último texto, continuando a análise do livro Triplo foco: uma nova abordagem para a educação, de Daniel Goleman, autor do best-seller Inteligência Emocional, e Peter Senge, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), tratamos do que Senge denomina de "complexidade dinâmica" dentro de sua perspectiva de aplicação do pensamento sistêmico à educação.

Senge trata em seguida da complexidade social, aquela decorrente da problemática de vivermos em constante interação com uma grande quantidade de pessoas com visões de mundo muito diferentes, que nos influenciam e que são influenciadas por nós o tempo todo, gerando reações em cadeia, positivas ou negativas.

Senge cita interessante exemplo de alunos de uma escola que foram postos a refletir sobre o ciclo de retroalimentação das brigas, começando pelas palavras maldosas, que geram sentimentos ruins e se transformam em dissensões, podendo acarretar um ciclo vicioso.

Alunos de 6 anos foram postos a discutir esse ciclo e entendê-lo como um processo que poderia ser transformado se fossem dados inputs distintos nele. Senge conta que a atividade foi filmada pela professora e que ele utiliza esse vídeo em muitos lugares, gerando surpresa pela capacidade de indivíduos tão novos de discutir o tema sob uma perspectiva tão complexa.

Não há, porém, nada de surpreendente aí. Desde que se inicie do fácil para o difícil, que se utilize experiências ao alcance das crianças e os estímulos adequados, elas compreenderão e, mais importante, praticarão o pensamento sistêmico, transdisciplinar e complexo. 

No exemplo citado, uma criança afirmou que, se fossem ditas “palavras bondosas”, no lugar de maldosas, o ciclo seria de alta alavancagem, com geração de resultados melhores do que no outro caso, o que gerou concordância do seu colega. Esse tipo de atividade leva as crianças a pensarem sobre suas emoções, sobre como agem com os demais, sobre como melhor deixar de fazer com os outros aquilo que não gostariam que fizessem com elas. É útil também para adultos.

Um dos grandes problemas das habilidades socioemocionais é que a consciência dos indivíduos não foi estimulada a aprofundar nelas. Muitas pessoas julgam as outras por erros que cometem até com mais gravidade, não percebem seus próprios defeitos e assim por diante. A educação socioemocional deficiente gerou um mundo desconectado, de sujeitos apenas competitivos e nada ou quase nada cooperativos.

Como a sociedade é um sistema complexo, uma vez que as suas estruturas são falhas, ela se torna fadada ao fracasso. Os elementos batem cabeça, não conseguindo gerar resultados bons para o todo sistêmico. Eles apenas conflitam entre si, impondo resultados do tipo dominante, nos quais um ganha tudo e o outro não ganha nada, para utilizar um termo da teoria dos jogos do gênio John Nash Jr. Esse tipo de interação desconecta os participantes e provoca diversos ruídos.  

A respeito do exemplo acima, Senge conclui o seguinte:

“O que poucos notam no vídeo é a sutil guinada de compreensão sobre como realmente efetivar a mudança sistêmica. Obviamente, alguém (como um professor) poderia tentar intervir e impedir as brigas dos meninos apenas lhe dizendo que precisam mudar seu comportamento. Mas a alavancagem, como percebem os meninos, reside na mudança de todo o processo de reforço mútuo das percepções e ações”.

Senge destaca que não há nada de especial nos garotos do exemplo, ao contrário do que a maioria pensa. Há uma educação diferente, realizada por pessoas capacitadas, para, de fato, moldar indivíduos capazes de viver bem socialmente. Compreendendo com profundidade os processos de relação social, sobretudo na fase infantil de formação, é muito mais provável que o ser amadureça entendendo bem como se dão as perguntas e respostas nas interações, a importância da empatia etc.

Uma vez muito bem preparado nas habilidades socioemocionais, aqueles que continuarem errando o farão por vontade própria. No entanto, quando o exemplo do próprio professor e de boa parte dos colegas é sólido, isso também impulsiona os mais arredios a entrarem no eixo do processo de interação que se dá naquela determinada classe. É isso que se vê há 20 anos em uma escola privada localizada em região humilde de Salvador/BA, como explicado em entrevista publicada neste blog.

As crianças têm basicamente 2 ambientes nos quais podem aprender a conviver, a respeitarem diferenças, a não serem agressivas, a serem democráticas, dentre tantas outras coisas: em casa com a família e amigos, e na escola com professores e colegas. Se o Estado e a sociedade não trabalharem para garantir que isso aconteça nos dois ambientes, as chances de a sociedade continuar caótica como hoje são bem grandes e, por guerras ou desastres ambientais, talvez não exista mais sociedade na Terra dentro de algum tempo.

Para promover a transformação, é preciso ter ferramentas. Não se reconstrói algo sem os instrumentos devidos. Nesse caso, é preciso capacitar professores e escolher os métodos mais adequados, como os exemplos que vêm sendo citados nestes textos sobre o livro de Goleman e Senge, assim como em outros textos sobre Rousseau, Pestalozzi e Rivail.

A inteligência sistêmica, segundo Senge, tem se mostrado uma faculdade inata e, como é natural, se não for desenvolvida, se atrofia. Ele afirma que o ensino tradicional apresenta conteúdos desconexos e quase nenhum trabalho socioemocional, requerendo-se do aluno comportamento para o qual ele não foi treinado, o que termina sendo imposto autoritariamente por meio de castigos.

A capacidade humana de destruição do planeta e de si mesma evoluiu rápido demais no século XX, causando sérios riscos no século XXI, pois o acompanhamento da evolução nas relações sociais e na relação do homem com o meio ambiente não se deu no mesmo passo. Daí a preocupação hoje de todos que são conscientes com os riscos pelos quais o mundo passa, o que está claramente refletido em governantes egoístas e destrutivos no Brasil e em vários outros países.

Para uma reforma das instituições, é preciso, acima de tudo, uma reforma no íntimo dos seres humanos e, para esse último fim, é necessária uma nova educação, que transforme a sociedade, elevando o nível da qualidade socioemocional dos indivíduos. 

Na conclusão do capítulo sobre inteligência sistêmica, Senge explica, então, quais os hábitos de um pensador sistêmico e como desenvolvê-los nos indivíduos:

“Reconhece a importância dos delays quando explora relações de causa e efeito (por exemplo, os estudantes de ciências do ensino fundamental examinando as consequências de curto e longo prazo nos sistemas de trilhas alternativos do novo parque industrial).

Descobre onde consequências não intencionais emergem (por exemplo, quando os alunos de ciências do ensino fundamental viram os possíveis efeitos colaterais de uma trilha que geraria mais tráfego de pedestres mas também passaria perto de um cemitério local).

Muda perspectivas para aumentar a compreensão (por exemplo, os alunos do oitavo ano com seu projeto de fim de ano e sua exploração de questões controversas em sua comunidade).

Identifica a natureza circular de relacionamentos complexos de causa e efeito (por exemplo, os menininhos com o processo de retroalimentação de ‘palavras maldosas / sentimentos feridos’).

Reconhece que a estrutura de um sistema gera seu comportamento (por exemplo, os modelos de simulação dos alunos do ensino médio para entender como as drogas interagem com o sistema imune).

Usa a compreensão da estrutura sistêmica para identificar ações de alta alavancagem (por exemplo, as mudanças sobre as quais os meninos pequenos ponderavam com seu diagrama de ‘palavras maldosas / sentimentos feridos’)

Traz à tona e testa hipóteses (evidente nos meninos pequenos, na aula de ciência do ensino fundamental e no oitavo ano)

Verifica resultados e muda ações, se necessário: aproximação sucessiva (por exemplo, os meninos pequenos testando diferentes intervenções: 'da próxima vez que começar uma briga')

Procura entender o cenário mais amplo (todos esses exemplos)”.

Esses hábitos de pensamento sistêmico e complexo, sobretudo na sua perspectiva social, estão amplamente relacionados com a Aprendizagem Socioemocional (ASE), que tem como um dos seus cernes conectar adequadamente os indivíduos em uma sociedade e, numa escala menor, num setor do mercado ou numa empresa.

Para aumentar a eficiência das relações, é preciso elevar a consciência de si mesmo e das consequências dos seus atos, aumentando a compreensão de que não devemos fazer aos outros aquilo que não esperamos seja feito para nós. Aprofundaremos na inter-relação entre pensamento sistêmico-complexo e ASE em textos futuros.    

Há muito o que ser feito na educação brasileira, porém os meios de transformá-la estão à disposição, faltando apenas mais vontade do público e do privado. Mãos à obra, Brasil!      

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