Educação

Opinião

Rousseau, Pestalozzi e a educação brasileira

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 08/06/2017 16h21
A educação precisa encontrar um equilíbrio entre desenvolver as faculdades concedidas pela natureza e a preparação do indivíduo para a vida social. Hoje ela não faz nenhum dos dois

Em texto anterior tratamos, de modo breve e inicial, da educação oferecida por Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) no instituto de Yverdon, na Suíça, que começamos a aprofundar, por meio do estudo de suas ideias e seu método, em texto seguinte.

Continuaremos a apresentar esse modelo educacional neste e em futuros textos. A pedido de leitores, todavia, julgamos importante dar um passo atrás agora e contar um pouco da história de Pestalozzi para contextualizar como ele chegou a Yverdon e como se tornou o maior educador da Europa no século XIX, responsável, em diferentes medidas, pelas reformas dos sistemas educacionais de vários países do velho continente.

Pestalozzi perdeu seu pai logo cedo, quando ainda tinha 6 anos, e teve uma infância muito humilde. Sua família não era inicialmente pobre; seu pai era cirurgião e oculista; mas, com a falta dele, houve muitas dificuldades financeiras. Teve, no entanto, a felicidade de ser educado pela sua babá Barbara Schmid, de apelido “Babeli”, que prestou imensa ajuda a Hotze, mãe do gênio suíço.

Babeli tinha experiência na educação de crianças nobres suíças e sua influência na vida de Pestalozzi foi tanta, que ele terminou elegendo uma mulher humilde chamada “Gertrudes” como a heroína pedagoga das suas principais obras.

Se Babeli foi a influência prática na infância de Pestalozzi, Jean-Jacques Rousseau foi quem lhe exerceu maior influência teórica na juventude, sobretudo por conta da obra “Emílio, ou da educação”, publicada pela primeira vez em 1762, ambos determinando muito do seu caráter e das suas ideias, o que apenas confirma como grandes mestres, por meio de boas práticas e teorias, podem definir um indivíduo.

Bem no início de Emílio, Rousseau destaca a importância da educação materna e faz uma brilhante análise sobre a lógica da natureza para o funcionamento da sociedade humana. Segundo ele, se a natureza não quisesse que a educação inicial fosse dada especialmente pela mãe, ela teria dado leite ao pai.  

Continua explicando que os humanos nascem pequenos e frágeis para que outros possam cuidar dele e educá-lo. Se nascessem já grandes e fortes, mas sem educação, a humanidade estaria perdida. De acordo com Rousseau:

“Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos, é-nos dado pela educação” (p. 10).

Pestalozzi absorveu de Rousseau essa importância concedida à educação e sua visão de que ela começa quando a vida se inicia. Para eles, a educação começava com o nascimento, mas hoje a ciência prova que o feto responde a inúmeros estímulos e tem relação profunda, ainda pouco compreendida, com a mãe.

Deste modo, como dito em textos passados, a educação deve começar no exato momento em que a gravidez for descoberta, a partir, por exemplo, de leituras edificantes em voz alta, para que o feto tenha seus primeiros contatos com o néctar do pensamento humano, e de busca por equilíbrio constante dos pais, sobretudo da mãe, com sentimentos de amor para o filho que já se forma.

Alimentação equilibrada, cancelamento total da ingestão de álcool, fumo e outras drogas, assim como evitar locais nos quais se faça uso dessas substâncias, exercícios físicos periódicos, mas sem exagero, são apenas algumas das medidas que repercutem na saúde da criança, como também lhe educam, pois a mãe é o primeiro “espelho” do seu filho, que já absorve tudo dentro da barriga. 

Alguns pais se educam para educar seus filhos, mas a imensa maioria não. Se não houver políticas públicas realmente eficientes para promover essa instrução com alguma fiscalização, a educação e a saúde das crianças já sai prejudicada logo no seu nascimento e isso repercutirá negativamente na sociedade mais tarde. 

Pestalozzi também absorveu de Rousseau a ideia de que uma boa educação é aquela que forma o indivíduo para “os bens e males desta vida”. Por isso, a educação deve consistir mais de exercícios do que de preceitos. Ela deve ser o resultado especialmente de práticas, muito mais do que de exposições teóricas. Segundo Rousseau, em Emílio:

“...daí decorre que a verdadeira educação consiste menos em preceitos do que em exercícios. Começamos a instruir-nos em começando a viver; nossa educação começa conosco, ” (p. 16).  

Do alto da sua genialidade, Rousseau já destacava problemas na educação das crianças, desde o seu nascimento, que são atuais ainda hoje. Atacava a superproteção, que contradiz a natureza de liberdade e a vontade de descobrir da criança, assim como o desleixo de mães que contratam outras amas para dar o leite e educar seus filhos, transmitindo-lhes uma mensagem de desatenção, desamor, terceirizando tarefa que é só sua por imposição da natureza. 

Rousseau também lembrava da importância dos pais serem “espelhos” para as crianças, não podendo  esperar delas gratidão quando eles mesmos agem, por exemplo, de forma ingrata maltratando seus empregados. É muito curioso que os pais não apreciem determinados defeitos nos seus filhos quando quase sempre eles foram absorvidos dos próprios pais, enquanto isso os filhos criticam os pais, mas são o reflexo deles, não percebendo que absorveram muitos dos mesmos defeitos.   

Ao ler Rousseau com cuidado, comparando-o com o método Pestalozzi, percebe-se quanto este foi influenciado por aquele. O que o pedagogo suíço fez foi basicamente viver a obra Emílio, realizando aperfeiçoamentos nas ideias do filósofo, seu compatriota, a partir da prática.

Valorizar as faculdades dadas pela natureza, não contradizê-las, dar foco à prática sobre a teoria, colocar o amor pelas crianças acima de tudo, mas sem protecionismo, essas são todas ideias encontradas na obra de Rousseau e que Pestalozzi pôs em movimento nas suas experiências pedagógicas.

Um dos cernes das propostas educacionais de Rousseau era, como se insiste aqui repetidamente, não contradizer a natureza humana, fazendo ele duras críticas à educação que tenta moldar o ser às instituições. Pestalozzi seguia essa linha, mas percebeu também a necessidade de preparar o ser para a vida social, tanto que, no início dos anos 1770, investiu do seu próprio dinheiro e criou um empreendimento educativo sem fins lucrativos completamente original, no qual reuniu crianças pobres que trabalhavam para sustentar sua própria formação.

A ideia dele era, além de tornar possível o sustento financeiro do instituto educacional, permitir que as crianças pudessem aprender ofícios, ganhando autonomia para viver no novo mundo industrial que se formava à época.

Colocar as crianças para sustentarem sua educação não seria algo aceitável hoje, exceto talvez por alguns que são contra todo gasto do Estado que não lhes beneficie diretamente, pois há certo consenso de que a criança deve ser educada em sentido amplo e, nas horas vagas, brincar com outras, o que não deixa de ser também um aprendizado, a depender das brincadeiras que sejam feitas, além de continuar sendo educada e amada no seio familiar. 

A criança, então numa fase de completa abertura ao aprendizado, deve ter cada atividade da sua vida pensada de forma inteligente para que lhe ensine algo. A educação na escola, a propriamente dita, precisa ser mais educativa e, para isso, as brincadeiras devem ser educativas, deve-se estimular os mais velhos a empreenderem educativamente, tema já analisado em outro texto, e assim por diante.

Nos conflitos entre desenvolver as faculdades da natureza humana e preparar a criança para o seio social, como defendiam Rousseau e Pestalozzi, deve-se ficar com a primeira. Os humanos são pródigos em conclusões erradas, que são tidas por certas ao longo de um período.

Na dúvida, desenvolva-se o espírito do homem, o ser natural. A educação deve focar em tornar o indivíduo livre, autônomo, porém mais preocupado com o todo do que consigo mesmo; humilde, mas corajoso; audaz, mas polido e precavido; etc. A grande tarefa da educação é ser complexa para preparar indivíduos complexos, que, com espíritos elevados por faculdades naturais bem desenvolvidas, serão também grandes "o que quiserem" dentro do seio social, podendo mesmo mudar de espaço e atividade várias vezes ao longo da vida sem perder a galhardia.  

Como aconteceu com outros dos seus projetos, a original entidade educativo-industrial criada por Pestalozzi foi à falência após alguns anos por questões administrativas, mas, apesar do aparente fracasso, não se pode descartar o aprendizado gerado para aquelas crianças e para si próprio.

Como se verá em próximos textos, os supostos fracassos de Pestalozzi se deviam quase sempre a fatores administrativos e outros alheios aos seus métodos educacionais. As suas práticas e suas obras, por outro lado, foram ganhando cada vez maior sucesso na Europa e alterando a educação dos mais diferentes países.