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Pestalozzi e a revolução da educação brasileira

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 26/05/2017 00h05, última modificação 26/05/2017 12h58
Soluções para a educação brasileira existem há pelo menos 200 anos. Educação deve ser prática e desenvolver a intuição e a moral, nada do que acontece hoje.
Wikimedia Commons
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Pestalozzi (1746-1827) dirigiu instituto de ensino, na Suíça, que ficou célebre em toda a Europa.

O problema da reforma educacional não é dos mais complicados, ao contrário do que parece. Difícil mesmo é criar uma solução nova para um problema novo. No caso da educação brasileira, os problemas são muito antigos, repetidos, e as soluções pululam pelo mundo há pelo menos dois séculos, sendo necessário conhecê-las e haver boa vontade política.

Ainda no início do século XIX, 200 anos atrás, Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) dirigia um instituto de ensino localizado à margem do Lago Neuchâtel, em Yverdon, na Suíça, que ficou célebre em toda a Europa. Foi visitado por reis, rainhas e intelectuais da época, além de elogiado publicamente por pensadores da educação como Wilhelm von Humboldt e Johann Fichte. Alguns diziam que os alunos de Pestalozzi aprendiam em um ano o que alunos de outros institutos aprendiam em dois ou três anos. 

Pestalozzi formou muitas das figuras mais importantes do século XIX, como Friedrich Fröbel (1782-1852), célebre pedagogo que passou um tempo como visitante no instituto e mais tarde criou o jardim de infância; Hyppolite Léon Denizard Rivail (1804-1869), aluno e instrutor do instituto por muitos anos, grande educador que assumiu o pseudônimo Allan Kardec aos seus 52 anos; além de famosos políticos, artistas etc.  

Nenhuma obra de Pestalozzi ou de Rivail sobre educação foi traduzida para o português até hoje, exceto por uma ação do Ministério da Educação, na gestão de Fernando Haddad, que traduziu algumas cartas da obra clássica de Pestalozzi intitulada Como Gertrudes ensina seus filhos. Considerando a dificuldade brasileira com línguas estrangeiras e a escassez de material em português, pode-se imaginar quanto se conhece das propostas desses dois grandes educadores por aqui. 

Apesar de muito pouco debatidas no Brasil, as obras de Pestalozzi e Rivail, juntamente com as de outros discípulos do mestre suíço, foram centrais para reformas educacionais na Suíça, França e Alemanha no século XIX, e para a criação de uma educação pública ampla e de qualidade na Europa. Compôs, ainda, parte do que se denominou mais tarde de Escola Nova, cujo fundador foi o suíço Adolphe Ferrière, projeto apresentado no Brasil por Rui Barbosa em 1882, sem grande avanço. 

Um dos principais fins de Pestalozzi era universalizar a educação, que ficava restrita aos abastados, resolvendo, por meio dela, os problemas sociais. Nada diferente do que o Brasil precisa ainda hoje. Apesar de existir no país educação pública, ela é, em regra, muito debilitada, e mesmo a educação privada é, em sua maior parte, fraca. 

O instituto de Pestalozzi tinha em torno de 150 alunos internos (em sua maioria) e externos, muitos deles vindos de fora da Suíça. Após a notoriedade que o instituto ganhou, boa parte dos alunos era de origem estrangeira, inclusive do Brasil e dos Estados Unidos. 

Olhando para aquela experiência bastante positiva, percebe-se soluções para muitos dos problemas existentes na educação brasileira. Pestalozzi foi um indivíduo de moralidade e intelectualidade elevadíssimos. Esteve sempre preocupado com a difusão do conhecimento para os mais pobres e era alguém dedicado a inovar os métodos de ensino, buscando soluções para os problemas da época.

O centro do seu espectro educacional era desenvolver o ser humano espiritualmente, elevando-o em moralidade e intelectualidade, ao contrário da educação de catequização e doutrina dos alunos, de exposição teórica visando mero acúmulo de conhecimento e cumprimento de normas, sem bom desenvolvimento das capacidades morais e intelectuais, com vistas numa suposta preparação para o sucesso material na fase adulta.

Pestalozzi era capaz de entrever o tipo de educação que poderia, de fato, elevar os humanos por ser exatamente um indivíduo muito elevado. Dotado de uma grande intuição, tinha o desenvolvimento intuitivo como foco do seu programa. Ao contrário da educação da época, adotada ainda hoje no Brasil, que mecaniza e condiciona o ser, ele buscava torná-lo dinâmico, sensível e intuitivo.  

As relações formadas dentro das instituições educacionais são, é claro, reflexos da capacidade moral e intelectual dos seus diretores, que precisam ser pessoas “espelho”, parâmetros nos quais os professores e os alunos possam se mirar, valendo o mesmo nas relações entre esses dois grupos, que precisa ser cooperativa e de respeito, em vez de coercitiva e repressiva. 

Pestalozzi já dizia que tudo começa na formação dos educadores, que precisa ser extremamente exigente, dado o papel mais do que fundamental deles na sociedade. As universidades devem formar administradores e educadores de alta moralidade e intelectualidade, pautadas em métodos semelhantes àqueles que devem ser aplicados nas próprias escolas.   

Para que isso seja possível, é importante remunerá-los na mesma proporção. Sem elevar os ganhos de diretores e professores, especialmente sob condição de alcance de resultados, fica difícil atrair grandes talentos para os postos de trabalho e estimulá-los ao progresso constante.

Não basta, porém, vincular remunerações variadas a resultados em índices pobres como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), conforme já tratamos aqui quando analisamos o caso de Sobral (CE). Se, por um lado, ajuda a melhorar um pouco o ensino de português e matemática, os efeitos, sob olhar mais amplo, podem ser muito mais graves, gerando um completo afastamento em relação ao que Pestalozzi pregava.

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Pestalozzi buscava tornar o aprender dinâmico, sensível e intuitivo (Wikimedia Commons)
Dada a necessidade de uma formação apropriada e à carência educacional que Pestalozzi via naquela época, muito semelhante ao que se observa no Brasil ainda hoje, os professores do Instituto de Yverdon tinham sido, em regra, formados pelo próprio educador suíço.

Como conta o professor alemão Wilhelm Ackerman (1789-1848), a educação de Pestalozzi era muito mais heurística, prática, ativa, do que o normal daquela época, um modelo catequético semelhante ao adotado no Brasil ainda hoje. O aluno era estimulado a buscar o saber de acordo com suas capacidades, ensinado a gostar de aprender, de pesquisar, ao contrário de ficar numa sala de aula ouvindo um professor doutrinar por mais de uma hora, o que é cansativo para a maioria e não retém a sua atenção, sobretudo numa época de aparelhos digitais e de circulação muito rápida de informações.

Por sinal, nenhuma lição durava mais do que uma hora, apesar de o período ser integral e bastante longo, em geral de dez horas. Como não eram aulas teóricas doutrinárias, mas imersões práticas em temas relevantes para o crescimento moral e intelectual dos alunos, eles reportam com imenso prazer àquele tempo, ao contrário da visão que a maioria tem hoje das escolas.

O Barão Roger de Guimps (1802-1890) explica que os “alunos gozavam de grande liberdade” na escolha de ir e vir, assim como no aprendizado. A última hora do dia era dedicada a trabalho livre, de modo que os alunos podiam fazer desde tarefas até escrever cartas para os pais. Dentro do período de dez horas, estavam excursões, atividades físicas, manuais, artísticas, dentre outras, todas consideradas tão importantes quanto as disciplinas. A música, sobretudo o canto, era muito incentivada por Pestalozzi.

Nota-se que, ao contrário do que vem acontecendo hoje em muitas escolas públicas, nas quais se ensina basicamente português e matemática para obter bons resultados no Ideb, uma educação para formação de um cidadão moral e intelectualizado envolve muitas práticas distintas orientadas por grandes mestres.

Pestalozzi costumava dizer que existem basicamente dois métodos de ensinar: das palavras para as coisas ou das coisas para as palavras, sendo que o seu método era o segundo. A educação mais pragmática, indutiva, mostra-se com resultados melhores na maioria dos casos. Por sinal, é curioso notar que boa parte dos países mais desenvolvidos do mundo, como os nórdicos e os de origem anglo-saxã, adotam com mais frequência esse tipo de educação há algum tempo. No entanto, o mais relevante não parece ser a questão de partir das palavras para as coisas ou das coisas para as palavras, o que, aliás, cria um dualismo desnecessário.

O método educacional deve ser complexo, capaz de entrelaçar palavras e coisas, criando um inter-relacionamento constante entre os métodos dedutivo e indutivo, entre teoria e prática, entre o ser (e sua língua) e o mundo exterior. O essencial é o conteúdo escolhido e as inter-relações realizadas dentro dele juntamente com o que se quer provocar no aluno, ou seja, qual tipo de capacidade se quer despertar a partir daquele trabalho de reflexão, manual, físico ou artístico.  

De acordo com John Ruskin (1819-1900), seguindo Pestalozzi, toda criança deveria aprender profundamente a fazer algo com as mãos, sentir, tocar. Era preciso também ver, assistir à arte com regularidade, despertando nela o sentir, porta da intuição.

Pestalozzi não apreciava definições, isso no século XIX, onde tudo ainda se pautava em reduções, definições, classificações e busca de uma suposta verdade. Ele procurava ensinar pela história das coisas, apresentando as mais diferentes acepções, sua existência dentro do processo histórico.  

Um dos focos centrais de Pestalozzi era desenvolver sentimentos nos seus alunos, despertando neles especialmente o amor, mas esse, os seus métodos e outros pontos da sua educação ficarão para um texto seguinte.