Economia

Opinião

Mitos do debate entre ortodoxos e heterodoxos

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 08/12/2016 01h40, última modificação 08/12/2016 04h50
Acadêmicos brasileiros são distraídos por ideologias e disputas entre escolas
Marcelo Pinto / A Plateia
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A economia é dinâmica

Todo discurso é retórico e ideológico. O que diferencia os discursos é a qualidade dos argumentos, ou seja, se são claros, bem fundamentados, robustos, avançados e aptos a convencer. Um discurso econômico, entretanto, precisa ser, acima de tudo, solucionador de problemas.

Tanto ortodoxos quanto heterodoxos são retóricos e ideológicos. A diferença principal está no tipo de retórica, que se relaciona com o método de conhecimento e geração de conclusões, e no tipo de ideologia – se direita ou esquerda, se conservadora ou progressista – escolhidos.

Ortodoxos tendem a ser conservadores, estão mais à direita, se apegam muito à racionalidade lógica formal e, portanto, à matemática. Heterodoxos tendem a ser progressistas, estão mais à esquerda, buscam uma lógica mais informal, referência a grandes pensadores e exemplos comparativos na história. Isso, no entanto, depende muito do contexto, do tema discutido, do estudioso em si etc. 

O problema dos brasileiros é que a discussão entre ortodoxos e heterodoxos evoluiu pouco, de modo que muitos, dos dois lados, sustentam ainda posições atrasadas e, quando querem se criticar, procuram os exemplos mais degenerados para caricaturar como o modelo daquele grupo adversário.

Parece, contudo, que no debate público havido neste ano, os heterodoxos estavam muito mais preparados epistemológica e metodologicamente do que os ortodoxos. 

Por estarem mais presos ao estudo econômico tradicional, que compreende a Economia a partir da visão de método científico do início do século XX, ortodoxos tendem muito ao erro. Seus trabalhos parecem perfeitamente lógicos e pautados em números, mas suas propostas simplesmente não funcionam muitas vezes.

Por outro lado, muitos heterodoxos usam da maleabilidade maior dos seus métodos para manipular os resultados e encaixá-los nas posições que já queriam defender previamente, algo também feito por ortodoxos.

É inocente achar que, por usar mais os números, os ortodoxos não são ideológicos ou que não são retóricos, ou que estariam ainda menos sujeitos a erros. Não se está falando de Matemática Pura.

A própria escolha dos índices, dos números que serviram de base para análise, já é ideológica. Toda análise econômica é um corte de realidade social, de modo que a melhor forma de ter uma visão mais ampla e útil para gerar propostas de solução a problemas é considerar o máximo de dados e exemplos comparativos, inclusive históricos.

Ambos os lados estão, portanto, pecando muito no Brasil. Se olharmos para o exterior, vemos trabalhos que transpõem esse tipo de discussão entre ortodoxos e heterodoxos da forma como ela se apresenta aqui.

Os economistas que têm obtido melhores resultados e vêm sendo mais ouvidos pelos governos de países bem desenvolvidos, sobretudo por conta da grande crise de 2007-2009, claramente gerada pela influência do conhecimento ortodoxo exercida desde a década de 80, são heterodoxos. Na verdade, os próprios ortodoxos vêm mudando bastante sua perspectiva sobre a Economia, algo comentado em texto anterior.

O Institute for New Economic Thinking (Instituto para Novo Pensamento Econômico), com o qual contribuem celebridades como Joseph Stiglitz, vencedor de dois Prêmios Nobel de Economia, tem sido um celeiro de inovações econômicas. Um dos economistas que se destacam é Eric Beinhocker, professor de Oxford.

Beinhocker publicou em 2007 o livro The Origin of Wealth (A Origem da Riqueza), no qual defende aquilo que parece óbvio há algum tempo, mas que a maioria dos brasileiros, inclusive heterodoxos, continua deixando de lado: a economia é um sistema dinâmico e hipercomplexo.

Na Economia tradicional, os indivíduos são tidos por agentes racionais que usam razões de lógica dedutiva ou indutiva e com acesso a informação. É a típica visão do início do século XX, influenciada demais pela lógica formal e pela Matemática, que leva a muitos erros.

Note-se que ela não repercute apenas sobre o método, mas sobre a própria forma como se compreende a economia, pois, afinal, o método (metodologia) está intimamente relacionado com a forma de conhecer (epistemologia), e ambos definem o resultado da pesquisa.

O aumento de complexidade das relações e o aumento da percepção humana sobre elas levaram os economistas a notarem que, em verdade, os indivíduos usam não somente razão dedutiva e indutiva, mas também espiral (complexa) e até mesmo a intuição. Eles confiam em princípios e regras de caráter geral, estão muito sujeitos a erros e a aprender, não gozam das mesmas informações e muitas delas são imperfeitas.

Essa mudança de perspectiva por si faz cair boa parte do domínio econômico construído no Brasil até hoje. A maioria dos modelos e das econometrias, nos quais ainda se confia piamente, são, portanto, tentativas de representar a realidade que, quanto mais baseadas na ingenuidade de uma suposta racionalidade uniforme dos agentes, tenderão mais a erros.

Na Economia tradicional, interessa o estudo dentro do sistema de preços, não importando ou importando bem menos aquilo que está fora dele. Percebe-se hoje com clareza que a economia é um subsistema complexo dentro do todo social, que interage com os demais subsistemas, os quais se retroalimentam.

Para a nova economia, interações sociais em geral interessam muito, a exemplo de aspectos como confiança, reciprocidade e outros. Como não há uma racionalidade única, linear, formal nos comportamentos, é preciso compreender como os seres humanos se comportam nas mais diversas relações, fazendo da análise econômica um exame social, muitas vezes histórico.

Na Economia tradicional, as instituições são otimizadores racionais e são eficientes, sendo os aspectos em torno do seu design pouco ou nada relevantes. Percebe-se hoje, contudo, que as instituições, as estruturas que se formam na sociedade, são imperfeitas e determinantes para a economia.

As instituições, como a sociedade, são feitas pelos seres humanos e, sendo assim, podem ser analisadas, pensadas e refeitas para que deem melhores resultados. O design institucional deve ter, portanto, aspecto central na análise econômica, sobretudo quando se voltar para propostas de políticas públicas, de modo que visões pautadas demais em econometria e em noções simplistas tendem a levar a propostas ruins.

Na Economia tradicional, a dinâmica econômica tende ao equilíbrio e, assim, o bem-estar da maioria seria maximizado. Isso nunca aconteceu na história da humanidade. Nota-se que os melhores momentos da economia foram aqueles em que houve redesenho institucional para redução das desigualdades, de abusos pelos mais poderosos e aumento da produtividade.

Percebe-se hoje que a economia está quase sempre longe do equilíbrio, pois é um sistema complexo e muito dinâmico sujeito a grandes alterações a partir de mínimos acontecimentos, especialmente após o aumento da circulação de informações, da sua velocidade e das consequentes mudanças nas relações.

Na Economia tradicional, a inovação é um mistério, uma força do talento humano que brota. A prática, contudo, revela que a inovação é muito maior quando bem dirigida pelo Estado. Não é à toa o sucesso inovador dos Estados Unidos atrelado aos investimentos militares.

Na nova Economia, entende-se que inovações sociais e tecnológicas são processos evolutivos centrais para o crescimento econômico e dependentes de ação estatal.

Na Economia tradicional, os fenômenos da macroeconomia, como inflação, desemprego e outros, seriam resultados lineares das decisões individuais, mas o que se percebe é uma enorme emergência de resultados não previstos pela soma das decisões.

Como é típico de sistemas complexos e dinâmicos, as interações são tão ou mais importantes do que as decisões dos indivíduos, podendo levar, juntamente com os demais aspectos acima, a um grau de imprevisibilidade que é, em regra, negado pelos ortodoxos, crentes na racionalidade dos seus números.

Por teimosia ideológica e falta de estudos, muitos economistas brasileiros estão gastando seu potencial cognitivo com análises que não fazem sentido e que levam a resultados ruins, algo que está provado pela história humana e no que os próprios grandes especialistas nos quais eles se baseiam muitas vezes não acreditam mais. É preciso mudar com urgência.