Economia

Entrevista

"Precisamos desenhar um modelo de capitalismo inclusivo e sustentável"

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 02/01/2017 06h13, última modificação 04/01/2017 11h56
Eric Beinhocker, professor de Oxford, defende o desenvolvimento de um sistema que crie relação saudável entre o mercado e o Estado
F. Blanc / Force Ouvrière
Ato contra o capitalismo

Ato contra a austeridade na França, em novembro

Eric Beinhocker é diretor-executivo do Instituto para o Novo Pensamento Econômico na Universidade Oxford, no Reino Unido. A instituição se dedica a estudos que aplicam abordagens interdisciplinares à teoria econômica e às práticas de políticas públicas. Necessariamente, assim, precisam deixar de lado conceitos que avaliam como ultrapassados.

Nesta entrevista a CartaCapitalBeinhocker defende a criação de um sistema capitalista sustentável, faz duras críticas à economia ortodoxa e a seus fracassos simbolizados pela crise de 2008 e também à tradicional discussão entre ortodoxos e heterodoxos"As fantasias utópicas de socialistas e libertários são fadadas ao fracasso", afirma.

CartaCapital: No Brasil, está na moda agora uma antiga discussão entre ortodoxos e heterodoxos. Os primeiros acusam os segundos de não serem científicos, pois, segundo eles, a Economia heterodoxa é pautada em retórica, referência a autores clássicos e ideologia, enquanto a Economia ortodoxa é pautada em números e testes empíricos, o verdadeiro método científico. O que acha?

Eric Beinhocker: Essa é uma discussão ultrapassada, que poderia fazer sentido 30 anos atrás, mas não hoje. A Economia ortodoxa tem um problema de não ser cientificamente fundamentada na medida em que sua teorias são baseadas em pressupostos irreais e muitos dos seus principais resultados falham no teste empírico. 

Paul Romer, o novo economista-chefe do Banco Mundial, recentemente escreveu um artigo muito crítico sobre macroeconomia ortodoxa, chamando-a de Economia “pós-real” e um “campo de crença”, não uma ciência. 

Em contraste, o que chamamos de “nova Economia” está tentando criar um fundamento científico sólido para o ramo, baseando, por exemplo, suas teorias em observações experimentais do comportamento humano real ou testando os resultados das teorias com dados. Esse tipo de trabalho usa Matemática, mas um tipo muito diferente do que os modelos ortodoxos tradicionais usam.   

Ela também faz um uso muito mais pesado de métodos modernos de simulação em computador. Muitos dos cientistas expoentes nesse tipo de trabalho vêm de ramos científicos diferentes do econômico, como físicos, biólogos evolucionistas, fisiologistas, ecologistas, matemáticos etc. 

CC: Parece que mesmo os economistas ortodoxos, como Alan Greenspan, Larry Summers e Olivier Blanchard, mudaram um pouco e admitiram seus erros. O FMI tem mudado algumas conclusões do passado também. Como você vê essa mudança da Economia e o seu futuro?

EB: O ramo está certamente mudando, embora devagar. Críticas à teoria ortodoxa foram sendo construídas ao longo de muitos anos, sobretudo por economistas comportamentais, pela comunidade heterodoxa e por alguns economistas empiricistas.

A crise de 2008 foi um enorme aviso para que todos acordassem. Ela tem criado uma maior abertura a novas ideias do que antes.

A academia se move devagar, mas a demanda dos elaboradores das políticas públicas por novas propostas está ajudando a acelerar o processo. Eles viram durante a crise que o assunto é sério. Não apenas os modelos tradicionais falharam na previsão da crise – o que é desculpável, pois prever essas coisas é inerentemente difícil –, porém, mais importante, eles foram quase inúteis quando a crise estourou para entendermos o que estava acontecendo e o que deveríamos fazer.

Organizações como os bancos centrais, o FMI, a OCDE e a Comissão Europeia têm experimentado novas ideias e métodos. Eles têm incentivado os acadêmicos a sair da caixinha ortodoxa.

CC: Alguns famosos economistas brasileiros dizem não estar interessados em política, mas, ao mesmo tempo, eles apresentam propostas de políticas públicas para o Brasil. Como você vê a interação entre a Economia e outras disciplinas?

EB: A economia é, sem dúvida, um importante tema político, então é natural que os políticos queiram economistas apoiando suas visões e que os economistas sejam atraídos pelo poder e prestígio da influência política. E muitos economistas sentem uma obrigação profissional de se manifestar e apresentar ideias que possam ajudar as pessoas dos seus países e criticar possíveis erros. Eu, periodicamente, me envolvo em debates políticos nos Estados Unidos e no Reino Unido.

O que faz a Economia diferente de uma Ciência Física, contudo, é que as ideias dos economistas influenciam as políticas públicas, que, então, mudam o sistema econômico, que, então, influenciam, as ideias dos economistas num círculo de feedback.

Isso é o que o investidor e filântropo George Soros chama de “reflexividade”. Se nós acreditamos na teoria da relatividade de Einstein ou não, isso não muda como a Terra se move em torno do sol, mas, se a teoria econômica diz que os derivativos financeiros fazem a economia mais segura, então nós os desregulamos e temos uma crise financeira. Nossa teoria mudou o sistema. 

Essa é uma das razões pelas quais os sistemas sociais, como a economia, são fundamentalmente mais difíceis de prever do que muitos sistema físicos. 

CC: Você pode falar sobre alguns dos erros concretos dos economistas na última década? O que levou à crise financeira?

EB: É uma lista longa! Eu começaria com as suposições que os economistas fazem sobre as pessoas serem perfeitamente racionais e sempre terem informação perfeita. Qualquer novo estudante sabe imediatamente que isso é errado. Mas, depois de décadas de trabalhos experimentais e outros, nós podemos agora dizer exatamente como isso é errado, como as pessoas realmente se comportam e porque as teorias que supõe serem os comportamentos das pessoas racionais farão previsões erradas. 

Outra falha é que os modelos formais ortodoxos têm frequentemente ignorado as estruturas institucionais, supondo, por exemplo, que todas as interações entre as pessoas acontecem no mercado, ou, ainda mais absurdo, que todos os mercados são leilões.   

Na crise, nós vimos que as estruturas institucionais do sistema importavam muito: como os bancos negociam uns com os outros, como os mercados realmente funcionam (ou não funcionam), como os bancos centrais e os reguladores influenciam o sistema etc. Uma descoberta recente foi o uso da teoria das redes para entender essas interações. 

Outra falha é supor que o sistema se autocorrige para um equilíbrio ótimo, onde todo mundo está empregado e tudo funciona tranquilamente. Nós vimos depois da crise muitas economias travarem em armadilhas de deflação e alto desemprego. 

Finalmente, Romer escreveu sobre os absurdos de uma teoria que diz que política monetária não importa, quando ela claramente importa, e meu colega [em Oxford] David Hendry recentemente escreveu um artigo devastador sobre as falhas empíricas da teoria do dinheiro e da inflação de Milton Friedman. 

CC: A austeridade está mostrando resultados relevantes para recuperar os países depois da crise? O que você acha da PEC 55 brasileira que coloca uma regra na Constituição para limitar despesas com base na inflação do ano anterior durante ao menos 10 anos?

Eric Beinhocker
Beinhocker: velhos conceitos devem ficar para trás (Foto: Divulgação)
EB: A política fiscal é um assunto espinhoso. Os políticos e o público querem regras simples e claras. Por exemplo, nós precisamos de austeridade para manter o débito baixo e ter uma moeda estável, ou nós precisamos de gastos públicos para investir em crescimento futuro e ajudar as pessoas que estão sofrendo? Isso, é claro, nos leva a grandes debates ideológicos.

A realidade, num sistema complexo como a economia, é que não há regras duras e rápidas. Então, a resposta é “isso depende”. Depende das circunstâncias da economia no momento, às vezes você precisa se preocupar com o débito, a moeda, e a austeridade é necessária. Outras vezes você precisa gastar para estimular o crescimento e investir em capacidade econômica de longo prazo, e há argumentos legítimos sobre justiça econômica. 

Um problema é que as teorias e os modelos que nós temos hoje não são muito úteis para nos guiar nesses debates. Eu sonho com o dia em que esses debates serão bem chatos, porque será bastante óbvio o que as pessoas devem fazer. John Maynard Keynes disse famosamente que a Economia seria um sucesso quando se tornasse tão chata quanto a Odontologia.

Sobre a emenda constitucional, por um lado eu entendo o desejo de colocar limitações no sistema político. Os políticos gostam de gastar o dinheiro das pessoas, porque é uma fonte de poder e patrocínio, e isso pode sair de controle. Mas, regras rígidas, principalmente constitucionais, não permitem às políticas públicas se adaptarem às circunstâncias em mudança. Por exemplo, eu acho que a regra fiscal constitucional da Alemanha e as regras rígidas da União Europeia têm sido um desastre para a Europa e arriscam, em última instância, a levar à desintegração da UE.

Um proposta potencialmente melhor é criar estruturas institucionais independentes e apolíticas. Bancos centrais tecnocráticos e independentes foram uma inovação para a política monetária e têm sido, geralmente, bem sucedidos. 

Você não pode fazer isso com a política fiscal, porque precisa de responsabilidade democrática ao gastar o dinheiro do contribuinte. Mas, alguns anos atrás, o Reino Unido criou um apolítico e independente Escritório para Responsabilidade Orçamentária, que não faz políticas, mas age como um tipo de árbitro imparcial no campo de futebol da política. 

Eles assegura que as previsões sejam apolíticas, que os fatos sejam tornados públicos mesmo quando eles são embaraçosos para o governo e possibilitam que a mídia e o público obtenham a informação de que eles precisam para manter o governo responsável.

O Reino Unido também tem uma tradição de criar regras fiscais pela vida do parlamento (5 anos), que criam alguns limites à política fiscal, mas elas são também flexíveis se muitas das circunstâncias mudarem ao longo do tempo.

Eu não estou dizendo que o Reino Unido é o exemplo ideal (seu débito depois da crise é ainda considerado alto) e isso, obviamente, é algo para o povo brasileiro decidir, mas eu acho que informação independente e regras fiscais limitadas no tempo criam um bom balanço entre limitação e flexibilidade.   

CC: O Brasil é talvez o país mais desigual do mundo e a tributação brasileira é uma das mais regressivas do planeta. O que você acha disso?

EB: Alta desigualdade como o Brasil tem é um dos desafios econômicos mais difíceis. Há uma tremenda quantidade de novas pesquisas sobre as causas da desigualdade e quais políticas são efetivas para aliviá-la. Não há mágica, mas eu acredito que um conjunto compreensivo de políticas para promover a inclusão econômica pode ajudar.

Por "inclusão", quero dizer a habilidade de todo mundo contribuir para a economia e se beneficiar justamente dela. Não é a mesma coisa que qualidade de resultados. É todo mundo ter uma chance igual de contribuir e se beneficiar de acordo com suas habilidades, não importando se eles nasceram pobres ou ricos.

É um contrato de duas partes entre sociedade e cada indivíduo. Mas, para fazer isso, são necessárias vastas melhorias em educação e habilidades voltadas para o trabalho, investimentos em infraestrutura para conectar as pessoas dentro da economia, investimentos em saúde pública, esforços para trazer a economia informal para dentro da economia, políticas trabalhistas para garantir salários e tratamento adequados aos trabalhadores, incentivos para negócios, para investir e para criar empregos (e remoção dos desincentivos), e assim por diante.

Um programa tão amplo apoiando a inclusão econômica não inerentemente de esquerda ou de direita, porém um programa prático para assegurar que um país esteja obtendo o máximo dos talentos e a ampla massa de cidadãos esteja obtendo o máximo da economia do país. 

CC: Você concorda que é preciso ir além da luta de classes? Um dos principais fins progressistas é convencer conservadores de que eles precisam usar perspectivas de médio a longo prazo, entendendo a sociedade como um sistema complexo que só funciona se todas as partes estão indo bem?

EB: Precisamos olhar para além dos rótulos tradicionais de conservador e progressista. Essas são ideologias do século XX que viram mercados e Estados como duas instituições frequentemente opostas e competitivas entre si. 

Nosso trabalho olha para a sociedade mais como um ecossistema, no qual mercados e Estados são partes profundamente interconectadas. Falar sobre mercados vs. Estados faz o mesmo sentido que, numa floresta, falar sobre plantas vs. animais. Eles estão ligados entre si num ecossistema complexo, cada um afeta e depende, de vários modos, do outro.

O desafio é tornar essa relação saudável, em vez de predatória, que crie crescimento compartilhado, segurança e prosperidade para participantes do sistema. As fantasias utópicas de socialistas e libertários são fadadas ao fracasso. Precisamos avançar para além das categorias tradicionais de esquerda vs. direita, e desenhar um modelo de capitalismo que seja inclusivo, resiliente e ambientalmente sustentável. Esse é o desafio da nossa geração.

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