Educação

Entrevista - Claudia Costin

Claudia Costin: "Com teto de gastos, ser professor nunca será atraente"

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 08/02/2017 01h00, última modificação 12/02/2017 15h53
Professora da FGV-RJ defende melhor remuneração para educadores e fala sobre a importância da família na educação escolar

Cláudia Costin, professora efetiva da FGV-RJ e visitante do mestrado em Educação de Harvard, defendeu, na primeira parte desta entrevista, o uso de estudos científicos para embasar decisões relativas às políticas educacionais no Brasil. 

Na segunda parte da entrevista, a educadora discute o ensino de Filosofia nas escolas, a influência dos pais na formação dos filhos e o futuro da educação após a PEC dos gastos e a reforma do Ensino Médio. 

CartaCapital: Há pesquisas de sobra - de curto, médio e longo prazo - provando que o ensino de filosofia prática, como o Philsophy for Children – P4C (Filosofia para Crianças), eleva o rendimento dos alunos nas demais disciplinas e aumenta até o QI. Não deveríamos usá-la nas escolas brasileiras?

Cláudia Costin: Boa parte dessas pesquisas está relacionada com crianças ou adolescentes na Europa ou nos Estados Unidos, em, alguns casos, no Leste Asiático, onde a carga horária na escola é expressivamente maior do que a do Brasil.

Mantida a carga atual no Brasil, acho melhor que o processo de ensinar a pensar e de introduzir discussões éticas deveria acontecer nas disciplinas já oferecidas na escola.

Nada impede, por exemplo, que, nas aulas de Língua Portuguesa, em que se trabalha leitura e interpretação de textos, sejam usados dilemas éticos sobre os quais se possa refletir ou que se organizem discussões como essas em história.

É interessante fazer isso, pois, a cada fato histórico, descobre-se quais eram os valores morais predominantes naquela época e percebe-se como a humanidade passou de um conjunto de valores para outro.

No Ensino Médio, muda-se de perspectiva e a Filosofia aparece como disciplina. Com a mudança prevista nesta etapa da Educação Básica, ela pode ser ofertada como matéria em separado, em determinados itinerários formativos, ou se pode ter a filosofia abordada em história, inclusive como história do pensamento humano, o que é muito bom, ou como forma de ensinar a pensar e problematizar ideias nas várias disciplinas.

Até em Educação Física deve-se discutir como se enxerga o esporte e qual a importância da cooperação em um time. O saber pensar deve estar em todas as disciplinas, integrando diferentes campos de conhecimento.

O Brasil padece hoje de uma grande fragmentação dos saberes na escola. É preciso ensinar os professores a trabalharem de forma colaborativa para gerar maior interdisciplinaridade e para que o ensinar a pensar, que é a base da filosofia, apareça com muita força. 

CC: Estudos têm comprovado que a educação dos pais, especialmente das mães, é determinante para a formação dos filhos. Não seria o caso de passarmos a dar bem mais atenção à educação de adultos, o que envolve não somente ensinar-lhes disciplinas e técnicas práticas, mas conscientizá-los da sua importância como formador dos seus filhos?

CC: É verdade. Primeiro, acho que se deveria pensar na Educação de Jovens e Adultos (EJA), de preferência associada ao Pronatec, de forma a não apenas complementar a escolaridade dos pais, mas a prepará-los para uma profissão em maior demanda no mercado de trabalho que lhes dê possibilidade de autonomia.

Além disso, é preciso olhar para a formação de pais em situação de vulnerabilidade. O Brasil  ainda conta com importante incidência de gravidez na adolescência. Mães muito jovens ou com baixa escolaridade têm dificuldades para nutrir, formar vínculos familiares fortes e estimular o bebê.

Cursos ou rodas de conversa com os pais dos bebês ou crianças pequenas cadastradas como beneficiárias do Bolsa Família, por exemplo, podem ter um efeito muito relevante sobre a aprendizagem e o desenvolvimento na primeira infância, com impactos positivos para o resto da vida do indivíduo.

CC: O que se pode fazer na Educação Infantil? 

CC: As creches deveriam aproveitar o fato de que o equipamento, às vezes, fica ocioso nos finais de semana e fazer, no sábado, uma atividade que eu chamaria de “escola de pais" ou “escola da família”. Uma reunião para dar noções básicas sobre como apoiar o desenvolvimento das crianças, numa abordagem intersetorial, colocando diferentes secretarias juntas, como educação, saúde e assistência social.

No Rio de Janeiro, criamos algo nesse caminho, pensando em dois tipos de pais: os das crianças cadastradas no Bolsa Família, mas ainda fora da creche, e os daquelas já inseridas na Educação Infantil. 

As primeiras precisam mais urgentemente de cuidados e estímulos , pois estão abaixo da linha da pobreza. Para os pais dessas crianças, organizamos um curso ministrado três sábados por mês sobre os temas da educação e cuidados na primeira infância, uma biblioteca circulante de livros de bebê, vídeos, material apostilado e rodas de conversa.

Para os que já estavam em creche, fazíamos uma vez por mês, com a mesma abordagem.

Há outra questão importante para ampliar a escolaridade dos pais. Como não há vaga em EJA para todos e, às vezes, a demanda é muito maior do que se pode atender enquanto município, pode-se priorizar no atendimento de EJA dois públicos: os pais do cadastro do Bolsa Família e os pais dos alunos que estão vivenciando fracasso escolar. Muitas vezes, os dois grupos coincidem.

CC: Quão relacionado está o rendimento da criança com a escolaridade dos pais?

CC: Frequentemente, quando uma criança tem fracasso escolar, percebe-se que há um problema na escolaridade dos pais. Ou esses pais pararam de estudar em algum momento, saíram frustrados da escola, foram humilhados por colegas ou professores e, por isso, temem que o mesmo se passe com seus filhos.  

A rede pública do Rio criou um projeto muito interessante, chamado “Sou pai, sou aluno”, que consiste em trazer para o EJA justamente esses pais com escolaridade interrompida e com filhos com fortes chances de abandono escolar. O sucesso do projeto é grande.

Não faz sentido a escola lamentar que os pais, especialmente nas famílias mais vulneráveis, não educam os filhos. Temos que apoiá-las neste esforço. Nem todos têm a energia e o repertório para fazê-lo e é injusto que a criança pague o preço das limitações da família.Os pais e a escola devem ser apoiados, como se dá nas boas políticas públicas que integrem a família no processo educacional.

Para que isso ocorra, há aqui um ponto importante.

CC: O que?

CC: A escola fala uma língua muito estranha, de difícil apreensão para muitos pais. Quando o pai tem baixa escolaridade, a linguagem precisa ser simples, ou cria-se uma barreira de comunicação. Infelizmente, por vezes, para que o pai não dê trabalho para a escola, alguns educadores preferem falar um “pedagogês” que eles não têm como entender. Assim, os pais sentem-se ilegítimos para discutir a educação dos filhos ou participar da vida da escola.

Uma alternativa é criar cadernos de orientação para os pais sobre como apoiar em casa o trabalho da escola. Cabe aqui um esforço de traduzir para uma linguagem mais popular temas relevantes, como a organização do espaço em casa para o estudo das crianças, o trabalho de alfabetização, o que os pais podem fazer para apoiá-lo e o trato de crianças com deficiência na escola e na família.  

Esses textos podem ser lidos coletivamente, na reunião de pais das escolas, buscando-se esclarecer como as recomendações neles contidas se traduzem no cotidiano da sala de aula e da casa.  

Enfim, é possível fazer trabalhos interessantíssimos com os pais. Isso tem impacto determinante não só na formação deles, mas no rendimento das crianças.    

CC: Após a PEC dos gastos e a MP da reforma do ensino médio, o que muda na educação e qual a sua expectativa para os próximos 5 anos?

CC: Eu fiquei muito triste com as duas coisas.

Primeiro, com relação à emenda dos gastos, é natural que, em uma crise fiscal, seja preciso fazer cortes. Infelizmente, fez-se isso sem se estabelecer prioridades. Teria sido um momento excelente para priorizar gastos com educação e saúde, que são fundamentais para construir o futuro do País.

Para se ter uma educação de muito mais qualidade, é preciso tornar a profissão de professor muito mais atrativa. Com a lei do piso salarial, houve uma certa correção do salário do professor, mas ainda claramente insuficiente para atrair e reter jovens nesta importantíssima profissão.

Infelizmente, a docência não tem um patamar de remuneração assemelhado ao de profissões que demandam uma formação do mesmo nível.

A ideia de congelar os gastos pela inflação por 20 anos – verdade que haverá momento de revisão, mas somente depois de 10 anos – é muito triste, pois estamos condenando a profissão de professor a nunca ser atraente.

Isso é particularmente verdade, pois, embora a maior parte dos professores esteja em estados e municípios,  pode-se, com a lei, estabelecer-se um precedente para que as unidades subnacionais façam o mesmo. Então, espero que haja uma revisão muito mais precoce.

Pelas pesquisas, hoje no Brasil, tendem a cursar licenciaturas ou Pedagogia, em média, os 25% piores alunos do Ensino Médio, o que decorre da baixa remuneração da carreira.

Na Finlândia, para dar um exemplo, os 25% melhores alunos do Ensino Médio vão para a carreira de professor. Isso faz uma diferença grande. A profissão precisa ser atraente, bem remunerada e é preciso haver condições de se fazer um trabalho relevante.

CC: E a MP do Ensino Médio?

CC: Acho que ela padeceu de um grande mal, logo de início, que foi ser feita por Medida Provisória. Havia uma discussão muito interessante entre os Secretários Estaduais de Educação e o conteúdo da MP veio por iniciativa dos próprios Secretários, por meio do Conselho Nacional de Secretariado de Educação - Consed.

Uma lei estava tramitando com apoio dos ministros do governo anterior, com basicamente o mesmo conteúdo. Quando se propõem mudanças em educação, num momento politicamente conturbado, como o atual, com a sociedade muito polarizada, por Medida Provisória, cria-se uma forte resistência até aos melhores aspectos da reforma.

Para mim, o mais positivo, é que a futura lei enfrenta o problema que temos hoje de um currículo enciclopédico, com mais de 13 disciplinas obrigatórias, para uma carga horária média de cerca de 4 horas e meia.

Nestas condições, tudo é visto superficialmente, sem desenvolver competências, sobretudo a de pensar criticamente e aplicar os conhecimentos adquiridos em situações da vida real. Além disso, isso certamente não leva o aluno a se empoderar para ser o sujeito de sua própria aprendizagem. 

Apesar desse começo ruim, a esperança é que a reforma possa ser aperfeiçoada e, quando for construída a base curricular comum do Ensino Médio, que ela se beneficie de  um  processo de discussão mais amplo.