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Eleição polarizada na Holanda é termômetro político da Europa

por Daniel Mandur Thomaz — publicado 15/03/2017 00h25, última modificação 14/03/2017 15h26
Geert Wilders, candidato da extrema-direita, acirra os ânimos em país que cresce, mas sente efeitos da austeridade
Yves Herman / AFP
Yves

Wilders e Rutte, em Roterdã, durante debate: o atual premiê promete não realizar um governo de parceria com o extremista

O ano de 2017 será decisivo para o futuro da Europa. Na sequência do Brexit e das eleições norte-americanas, os próximos meses serão marcados por eleições em países chave para a estabilidade do projeto europeu.

Com a proximidade das eleições na França em abril e na Alemanha em setembro, a disputa eleitoral na Holanda, que ocorre nesta quarta-feira 15, emerge como uma espécie de termômetro das tensões políticas que marcarão 2017.

As eleições decidirão quantos assentos no Parlamento holandês os partidos políticos disputando o pleito poderão ocupar. Esse processo é crucial para a escolha do primeiro-ministro, que se dá por voto indireto.

O parlamentarismo que vigora na Holanda é marcado por intensa proporcionalidade, o que significa, em termos gerais, ser extremamente improvável que um partido consiga a maioria absoluta das cadeiras do Parlamento. É imprescindível que os partidos eleitos construam coalizões capazes de garantir maioria. Isso viabiliza a governabilidade e permite que um gabinete ministerial seja formado a partir das indicações de um membro eleito pelo próprio Parlamento.

Num sistema político extremamente complexo, 28 partidos holandeses disputam 150 assentos no Parlamento. Quatro partidos lideram as pesquisas até agora. O partido de centro-direita do atual primeiro-ministro Mark Rutte (VVD) disputa ombro a ombro com o PVV, do populista de extrema-direita Geert Wilders.

Atrás deles, por alguns pontos percentuais, vêm o CDA, partido democrata-cristão, e o GL, a esquerda verde, liderada pelo jovem Jesse Klaver, que aos 30 anos é a grande aposta de renovação da esquerda holandesa.

Para Karola Vos, 33 anos, moradora da cidade de Utrecht, as eleições deixaram ainda mais clara a polarização da sociedade holandesa: “As pessoas são cada vez mais radicais na maneira em que expressam suas opiniões”. Perguntada sobre como vê o país nos próximos cinco anos, não parece muito otimista: “Acho que as pessoas estarão ainda mais insatisfeitas com o sistema, com a política em geral e em conflito entre si”.

Mas, de onde vem esse pessimismo? A economia holandesa não vai mal. Os índices mostram que o país se recuperou de maneira efetiva da crise de 2008. De acordo com o CPB, o instituto de pesquisa em políticas econômicas da Holanda, o PIB do país cresceu 1,8% em 2016 e a projeção para 2017 é de 2,0%.

A taxa de desemprego no ano passado ficou em 6,5%, com projeção de queda para 6,3% em 2017. Se comparado ao desemprego de 7,4% em 2014, o cenário atual é de visível melhoria das condições econômicas. Por que os holandeses parecem insatisfeitos e apostam em saídas arriscadas como o populismo de extrema-direita de Geert Wilders?

A resposta para a insatisfação e a descrença dos holandeses pode ter vindo do remédio para a crise de 2008: as medidas de austeridade e a maneira como elas afetaram a população. Embora o sistema de seguridade social continue funcionando, os serviços de saúde e assistência social sofreram inúmeros cortes na Holanda. Os mais atingidos foram idosos e setores mais fragilizados da sociedade.

A elite política holandesa tentou se proteger dos efeitos eleitorais desse impacto social acusando os burocratas de Bruxelas – responsáveis por desenhar as políticas econômicas anticrise implementadas em vários países da União Europeia. Por outro lado, a extrema-direita capitaneada por Geert Wilders buscou um bode expiatório menos abstrato e mais visível aos olhos do holandeses: os imigrantes.

Daniel Schiavini, brasileiro naturalizado holandês que vive no país há 9 anos e trabalha como programador numa multinacional de softwares, vê com preocupação o que está em curso na sociedade holandesa: “A economia pode até crescer, mas o dinheiro não está indo para quem mais precisa.”

Para ele, o impacto do discurso de ódio aos imigrantes propagado pela extrema-direita será intenso: “As pessoas estão bravas com a situação e Geert Wilders conseguiu colocar a culpa de tudo nos imigrantes, o que acaba criando um clima maior de intolerância”.

Os dados empíricos mostram, no entanto, que a entrada de novos imigrantes na Holanda foi reduzida pela metade após acordos entre a União Europeia e a Turquia para fechar rotas usadas por refugiados vindos do Oriente Médio.

A imigração continua um assunto delicado. A Holanda é um país de 17 milhões de pessoas, onde aproximadamente 3,8 milhões são imigrantes. As tensões culturais entre imigrantes não europeus e a população local é constantemente explorada por grupos de extrema-direita. 

A extrema-direita

Embora a imagem internacional da Holanda seja a de um país progressista, os últimos anos têm sido de avanço da extrema-direita capitaneada pelo Partido da Liberdade (PVV), liderado por Wilders.

No ano passado, ele foi condenado pela justiça holandesa por incitação ao ódio contra imigrantes depois de uma aparição pública em que perguntava a seus seguidores se eles queriam mais ou menos [imigrantes] marroquinos no país, “menos, menos”, gritaram pessoas da plateia.

Wilders vem promovendo uma espécie de cruzada anti-islâmica e anti-imigração. Ele propõe, entre outras medidas, fechar todas as mesquitas do país e proibir o uso de véus em espaços públicos.

Segundo ele, o islã não é uma religião, mas uma ideologia antiocidental. Isso, obviamente, o coloca em rota de colisão não apenas com os imigrantes de origem muçulmana, mas com a própria tradição de tolerância e multiculturalismo que a Holanda projetou para si no cenário internacional.

Mesmo assim, a retórica xenófoba e racista de Geert Wilders magnetizou vastos setores da sociedade holandesa, fragilizados pela crise econômica e pelo sentimento de descrença em relação à política tradicional.   

Após sua condenação por incitação ao ódio, vários políticos de partidos tradicionais de direita, como o atual primeiro-ministro Mark Rutte (VVD), vieram a público para dizer que não trabalhariam com Wilders em uma futura coalizão.

A recusa da direita tradicional de se coligar com ele significa, na prática, que, mesmo que seu partido seja o mais votado nas eleições – algo que pode ocorrer de acordo com as pesquisas –, a possibilidade de ele se tornar o primeiro-ministro é muito remota. Sem se tornar parte de uma coalizão com maioria parlamentar, seu poder de influência na formação do novo gabinete ministerial é pequeno. 

Klaver em entrevista em 14 de março: ele pode ajudar a renovar a esquerda holandesa

O sucesso eleitoral de Wilders deixa claro que, na Holanda e na Europa, o gênio do populismo está fora da garrafa. “Wilders já é o político mais influente no país, antes de ganhar ou perder as eleições”, diz Patrícia Schor, pesquisadora da Universidade de Utrecht. Segundo ela, o impacto da sua retórica foi capaz de catalizar sentimentos que já existiam na sociedade holandesa: “Wilders alargou a fronteira do que é considerado ético, possível e responsável no espaço público. Naturalmente, ele não inventou a xenofobia e o racismo na Holanda. Astuta e antiteticamente, ele faz uso de sentimentos de intolerância já muito presentes na sociedade holandesa.”

Segundo a historiadora Marianne Wiesebron, da Universidade de Leiden, a retórica de Wilders produziu uma guinada conservadora no debate público, radicalizando o discurso: “Os partidos de centro-direita certamente foram ainda mais para a direita para se aproximarem dos eleitores de Wilders, especialmente em questões como a imigração.” 

A aposta da esquerda       

Os partidos tradicionais de esquerda na Holanda passam por uma profunda crise de identidade, que tem como resultado imediato a perda de parte considerável do seu eleitorado.

O Partido Trabalhista holandês (PvdA), tradicional eixo de centro-esquerda, se desgastou nos últimos anos ao aderir à coalizão de centro-direita que governa o país atualmente: perdeu, assim, sua identidade histórica.

O Partido Socialista holandês, o SP, com agenda mais à esquerda, parece ter perdido parte da capacidade de dialogar com os anseios do eleitorado de esquerda, e aparece nas pesquisas recentes com cerca de 9% das intenções de voto.

A novidade no cenário parece ser Jesse Klaver, do partido Esquerda Verde (GL). Segundo a historiadora Marianne Wiesebron, “O Groen Links (Esquerda Verde) está subindo incrivelmente nas sondagens em grande parte pelo apelo de Jesse Klaver, por ser jovem, de esquerda e pró-europeu”.

O jovem de 30 anos, com descendência marroquina e indonésia, aposta no discurso da sustentabilidade: propõe, entre outras coisas, reformas fiscais para cobrar mais impostos de empresas que poluem e redistribuir renda para setores mais fragilizados da sociedade.

Chamado por alguns de  “Jessiah”, um trocadilho com seu nome (Jesse) e a palavra “messias” (messiah), Jesse Klaver parece ser a grande aposta da esquerda. Seu carisma arrebanha uma grande quantidade de jovens, até então desacreditados. Embora seu partido tenha crescido muito nas intenções de voto, em grande parte graças a sua atuação, sua capacidade de liderança será posta à prova no Parlamento diante da crise da esquerda holandesa e mundial.

Para a pesquisadora Patricia Schor, os desafios são imensos: “Não acredito que a Esquerda Verde consiga fazer frente a este conservadorismo que ganhou proeminência na Holanda, como em vários países europeus. Mas gostaria muito de ser contrariada pelo resultado das eleições.”

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