Política

Opinião

É chegada a hora da Revolução Brasileira

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 14/06/2017 15h26, última modificação 14/06/2017 16h51
Este é talvez o momento mais propício para quebra do sistema político-patrimonial existente no Brasil em toda a República
Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Dilma e Temer

A chapa não foi cassada pelo TSE, apesar das evidências

Certa feita, o gênio suíço Jean-Jacques Rousseau, que foi caçado por suas ideias e influenciou muito a Revolução Francesa, além de reformas de várias naturezas em toda a Europa, disse o seguinte:

“A preocupação das questões morais está inteiramente por nascer; discute-se a política, que move os interesses morais, discute-se os interesses privados; apaixona-se pelo ataque ou pela defesa das personalidades; os sistemas têm seus partidários e seus detratores, mas as verdades morais, as que constituem o pão da alma, o alimento da vida, são deixadas na poeira acumulada dos séculos”.

As ideias de Rousseau lançadas em obras como Discurso sobre a origem da desigualdade, Emílio, ou da educação, e O contrato social deram base de sustentação a ideais como liberdade, igualdade e fraternidade para destituição dos regimes absolutistas que dominavam a Europa havia séculos. Ele foi um dos pilares do Iluminismo, não apenas influenciando fortemente a Revolução Francesa, como também reformas pedagógicas e políticas em todo o velho continente.  

O que Rousseau e a Revolução Francesa têm a ensinar ao Brasil? Quase tudo! Os momentos que precederam a revolução se assemelhavam à atual situação brasileira: um governante incompetente e autoritário não era mais desejado pela imensa maioria da população e ideias morais edificantes pululavam pelo país, dando o clima perfeito para que houvesse uma quebra no longo período de subjugação da massa cidadã pelos reis, sua nobreza e a Igreja, que distorcia a moral cristã. 

No Brasil, não é muito diferente. Há mais de um século, o País vive uma República de faz de contas, pois a coisa não é pública, e uma democracia fajuta, na qual alguns poucos governantes e uma casta rica que lhes sustenta, que faz negócios escusos com eles a todo momento, corrompem o sistema político do País em benefício próprio e em detrimento do restante da população.

Obviamente, há inúmeras diferenças entre o atual Brasil e a França daquela época, e não poderia ser diferente. Trata-se aqui de mera analogia, não de identidade, antes que os críticos mais exigentes comecem a bradar. Uma diferença crucial é que o absolutismo francês permitia uma unificação muito mais fácil dos interesses da massa cidadã, enquanto que, no Brasil, as paixões políticas da pseudodemocracia dividem o povo para enfraquecê-lo.

Não pretendemos cansar o leitor com o argumento de que nenhum político presta e de que devemos ficar contra todos. Não chega a tanto. Há que se analisar cada caso com cuidado. Não se pode negar, contudo, que os últimos governantes, em sua imensa maioria, nos três âmbitos da federação, têm claramente usado do corrompido sistema político para obter o poder ou se manter com ele, locupletando os cofres dos partidos com dinheiro público e, muitas vezes, seus próprios bolsos. Ninguém tentou verdadeiramente mudar as estruturas.   

No exato momento em que os cidadãos se agridem, os políticos que motivam as agressões se reúnem para tramar como parar investigações contra eles e dão meia volta nos seus ideais, se for para beneficiar seus partidos ou eles próprios. Essas situações escancaram a manipulação do povo.

Enquanto o brasileiro permanecer dividido, concentrado em orgulhosas, vaidosas e egoístas disputas políticas, o sistema não mudará, restando apenas a disputa entre os mesmos nomes que sempre estiveram aí, e claramente não mudaram as estruturas do poder, da divisão das riquezas e da renda, da educação etc.

Ainda que tenham havido ganhos nos últimos 20 anos – e não poderia ser diferente, pois o avanço do conhecimento e dos embates sempre leva ao progresso – como se sabe, nada efetivamente estrutural aconteceu. Não houve uma mudança sequer próxima daquela trazida pela Revolução Francesa, que buscava mais liberdade com igualdade em prol de um país mais fraterno. Tal qual a França, guardadas as dessemelhanças, o Brasil precisa de um novo sistema.  

A Revolução Francesa teve, infelizmente, os moldes revolucionários da época: foi marcada por muitíssimas mortes, golpes em cima de golpes e traições, mas o resultado, ao fim e ao cabo, em termos de liberdade, igualdade e fraternidade, terminou sendo positivo para a França e para a Europa.

Havendo união da população em torno de ideais comuns, como destituir qualquer político que tenha contra si fortes indícios (por que não dizer provas neste caso?) de corrupção, independentemente de partidos e preferências pessoais, juntamente com a realização de reformas política, tributária, previdenciária, trabalhista, educacional etc. que alterem as estruturas do País num sentido de mais liberdade, igualdade e fraternidade; o Brasil tem chances de fazer sua revolução estrutural com menos agressividade e mais eficiência.

Não se pode criar uma ilusão, porém, de mudança rápida. Para quebrar padrões construídos ao longo de séculos, é preciso tempo e muito esforço, mas o poder sempre esteve na mão do povo, desde que organizado, que tem condições de melhorar o País se conseguir deixar em segundo plano as paixões mundanas, como a política partidária, em prol do bem comum, que é reconstruir as instituições brasileiras, fazendo-as mais austeras e inclusivas.

A manipulação da população pelos líderes políticos, com ajuda da imprensa, causa a polarização, a fratura social hoje existente, que interessa mais aos próprios políticos do que aos cidadãos. É hora de se falar mais em moral do que em política. É hora de se falar na moral que olha para o bem do todo, e não que critica apenas o adversário. Se o brasileiro quiser sonhar com um país e uma vida melhor, precisa elevar o seu espírito e defender o país.

Como dito em texto anterior, uma vez unida a população, há a possibilidade de parar o Brasil, se preciso, causando menos prejuízos financeiros e para a saúde da população do que provocariam uma revolução radical e agressiva como a da França. Dada a situação dantesca e mais do que hollywoodiana do Brasil atualmente, não seria de admirar que algo terrível acontecesse, e é isso, também, que todos devem evitar.  

É preciso deixar de lado os personalismos e críticas levianas sobre quanto se deixa de faturar num dia de greve geral, por exemplo. Se a intenção for a de mudar estruturalmente o País, dificilmente se conseguirá passar por cima dos interesses daqueles que controlam todo o restante sem alguns prejuízos.

Os protestos precisam crescer e deixar de lado as bandeiras partidárias. Que reclame a militância, em sua maioria apenas interessada em alçar o seu preferido ao poder. É necessária uma trégua entre os lados da batalha política por fins que sejam comuns a todo brasileiro verdadeiramente de bem: a queda do governante implicado em corrupção e a realização de novas eleições, sejam indiretas, sejam diretas, com o objetivo de fazer reformas estruturais bem mais equilibradas e que abarquem mais subsistemas jurídicos.

Não adianta brigar agora pelo tipo de eleição que virá, se ainda há um passo crucial a dar. Praticamente ninguém nega que havia provas de sobra para caçar a chapa Dilma-Temer no TSE e, enfim, começar a dar novos rumos ao país, reconhecendo o erro de PT, PMDB e seus aliados, o que envolve quase todo o cenário político brasileiro. Situações e decisões muito estranhas acontecem no país nos últimos anos, e por que não dizer desde sempre?

Se Michel Temer não cair, não haverá eleição de nenhum tipo até o final de 2018. Perdida a chance no julgamento do TSE, a medida seguinte deveria ser parar o país até que o Legislativo se volte contra o Executivo e a permanência de Temer se torne insustentável politicamente, contribuindo para decisões pela sua retirada do cargo do próprio Congresso Nacional e também do STF.

Apesar de afirmar que só sai de lá morto, o que é natural, pois sabe que, uma vez sem foro privilegiado, deverá ser preso logo em seguida, uma pressão popular avassaladora terminará lhe tirando do cargo. A partir daí, as disputas políticas poderão retornar, mas com auspícios de maior respeito ao adversário e foco no bem da maioria.

Não se deve temer que o político “a” ou “b” assuma em caso de eleições. É preciso dar um passo de cada vez. No andar da carruagem, todos os políticos hoje em maior evidência tendem a acertar contas com a Justiça, e as suas candidaturas à Presidência, especialmente se tiverem chances de vitória, deverão acelerar esse processo. 

É preciso defender o Brasil, sustentar as investigações, desde que sem arbitrariedades, não permitindo mais conivência com a corrupção e lutando por reformas que redirecionem o país para um caminho de liberdade, igualdade e fraternidade, todas obtidas conjuntamente por meio de medidas inteligentes, obtidas a partir de amplas discussões democráticas. Falemos mais de moral e menos de política.