Sociedade

Opinião

Brasil pode ser mudado pelo trabalho social

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 07/04/2017 13h09
Juntamente com o ensino filosófico prático, o trabalho comunitário pode transformar os comportamentos e o raciocínio dos indivíduos
ANPR
Idosos

O trabalho com idosos pode ajudar a tornar as pessoas mais confiantes

Frente à grave crise moral que o Brasil enfrenta, uma forma cientificamente comprovada de atacar o problema com eficiência é provocar a participação da população em obras sociais nas quais ela possa se engajar, aprender e ajudar o próximo, estimulando o seu senso de grupo, de cooperação, para que prevaleça sobre o individualismo que guia hoje os comportamentos.

Além da discussão sobre filosofia moral em escolas, já discutida em texto anterior, o trabalho social deveria ser fortemente estimulado na própria escola, mas também na faculdade e, no tocante aos adultos, pelas políticas públicas em geral. Assim, seria possível engajar boa parte da sociedade em atividades sociais, criando uma comunidade integrada de indivíduos que vivem não somente para si, porém, ao mesmo tempo e principalmente, uns para os outros.  

Estudos realizados no exterior, como aquele da Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, comprovam que os ensinamentos morais são muito mais bem apreendidos quando praticados. O indivíduo precisa ter que discutir dilemas morais práticos desde muito novo e exercitar atividades de ajuda ao próximo para que ele entenda quão relevante e gratificante é levar uma vida mais voltada para o grupo social do que uma apenas voltada para beneficiar si próprio e/ou sua família. 

Escolas e universidades devem exigir os trabalhos sociais como parte do currículo, para que formem sujeitos aptos a lidar melhor com as questões morais no dia a dia e a cooperar com os demais, no trabalho ou fora dele. É possível destinar as pessoas conforme sua idade e formação a cada tipo de trabalho social mais adequado, começando desde muito cedo.

Escolas podem usar modelos mais simples de plantio de árvores, fazer companhia a crianças e a idosos, arrecadar e distribuir cestas básicas etc. Faculdades podem entrelaçar o trabalho social com o conhecimento técnico, ou seja, futuros advogados podem ajudar a prestar assessoria jurídica gratuita a pessoas carentes, como já se tornou comum, futuros médicos podem ajudar a diagnosticar pessoas carentes, futuros engenheiros podem ajudar a construir moradias para pessoas sem teto ou em áreas de risco etc. O professor deve lembrar de induzir os alunos a focarem também na visão social, e não apenas na técnica. 

As políticas públicas de fomento a atividades comunitárias não devem se resumir às educacionais. O estímulo ao trabalho social pode ter efeitos econômicos mais diretos, pois o progresso social é pilar fundamental do desenvolvimento. Uma forma de fazê-lo é atrelar a concessão de benefícios que garantem renda aos mais pobres à necessidade de “x” horas de trabalho social por dia. Esse tipo de política permitiria não somente um estímulo do senso social, como a possibilidade de desempregados aprenderem ou se aperfeiçoarem em algum ofício e, de quebra, milhares de novas mãos ajudariam aqueles que precisam.

Os adultos beneficiados pelo Bolsa Família, por exemplo, dos quais não é exigida nenhuma contrapartida direta, pois elas estão focadas na educação e na saúde dos filhos, poderiam ser obrigados a colaborar por algumas horas diárias em trabalhos sociais, o que lhes traria uma porção de benefícios.

Tirar da inércia desempregados e fazê-los colaborar, por um período, em obras sociais que lhes ensinem valores morais e ainda algum ofício ajudaria, inclusive, na busca de um emprego ou na criação de um empreendimento que os tornasse independentes de programas sociais. Utilizar o tempo de alguém inativo, desde que não seja um incapaz, para fazer trabalhos sociais e ajudar outras pessoas parece ser uma estratégia “ganha-ganha”. Se a política for bem desenhada, dificilmente alguém sairá perdendo.

Todo e qualquer programa social que envolva garantia de renda mínima à população mais carente, até mesmo o Benefício de Prestação Continuada dos idosos, deveria envolver algumas horas por dia de trabalho comunitário. Há diversos estudos científicos comprovando que, quanto mais o idoso não executa atividades físicas e mentais, e quanto menor o seu senso de positividade perante a vida, a degeneração física e mental dele é muito mais rápida.

O engajamento de idosos em trabalhos sociais poderia mantê-los ativos, felizes consigo mesmos por estarem ajudando outras pessoas, contribuindo para a comunidade, fazendo-os viver mais e melhor.

A sociedade brasileira atual observa cada vez mais indivíduos trabalhando em ritmo frenético para si próprios, buscando acumular riqueza, muitas vezes sob o mito, que engana até a eles próprios, de que isso seria pelo bem dos seus filhos. Enquanto estes cresceriam melhor se recebessem mais atenção, amor e carinho, são estimulados pelos pais a pensar que é importante trabalhar o máximo de horas por dia para garantir bens de consumo e ter mais luxos do que os demais.

É preciso dar estímulos às pessoas que as tornem mais cooperativas e com paz interior, felizes independentemente do que é material, equilibradas. É louvável trabalhar muito desde que por fins justos e que, para isso, não seja preciso ferir pessoas, como os próprios familiares. 

Os relatórios finais de alunos no início do curso de ética da Universidade de Rhode Island que precisaram se engajar em trabalhos sociais são extremamente reveladores sobre o potencial que eles têm sobre o ser humano que os realizam. Uma aluna que não conseguia lidar bem com questões morais, que “colava” nas provas e obtinha notas ruins escreveu o seguinte:

“Antes dessa aula, eu nunca tinha prestado muita atenção a questões morais. Parte do problema é que nunca havia sido pedida minha opinião sobre uma questão...Por conta do trabalho voluntário, sinto-me melhor sobre mim mesma. Sinto como se tivesse contribuído para a sociedade. Quando as pessoas me perguntavam onde eu estava indo toda segunda às 14:30, eles ficavam chocados por eu estar fazendo trabalho voluntário. Eles sabiam que era por causa de uma aula, mas eles mudaram a forma de me ver. Eu tinha problemas para definir questões morais, mas essa experiência me fez pensar.

Muitos outros estudantes, especialmente aqueles que tinham pontuado baixo no pré-teste de moralidade, reportaram se sentir similarmente empoderados pelo trabalho comunitário. Uma estudante do segundo ano que tinha entrado na disciplina apenas porque seu namorado estava nela escreveu o seguinte:

‘Eu percebi que, se uma pessoa pode fazer a diferença, então mais de uma pessoa – muitas pessoas – poderiam e fariam uma grande diferença. Eu sinceramente gostei de todo o trabalho voluntário no qual eu me engajei e eu continuarei me engajando neles...Eu primeiramente me senti pressionada a fazer isso e estava insatisfeita; contudo, uma vez que comecei, sinto-me realmente bem sobre mim mesma sabendo que estava fazendo a diferença em prol dos outros. Os idosos ficaram tão agradecidos... Eu me senti bem sabendo que estava construindo um lugar melhor para a próxima geração viver’”.

Os resultados nos testes de raciocínio moral e as diferenças nos depoimentos iniciais e finais dos alunos que participaram do experimento são marcantes e demonstram o rápido crescimento do senso social que tiveram em apenas alguns meses de trabalho comunitário. Até mesmo a escrita deles mudou do início para o final do estudo. Enquanto inicialmente escreviam com foco no intelecto, de forma mecânica e muitas vezes pedante, as declarações finais demonstravam mais maturidade, empatia e compaixão com o todo e com as próximas gerações.

Os alunos que passaram pelo estudo geralmente escolhiam atividades que estavam relacionadas com a profissão que queriam seguir ou com questões pessoais suas, o que lhes ajudava a evoluir profissional, moral e emocionalmente. Outro estudante que participou do experimento escreveu o seguinte no seu relatório final:

“Havia pessoas que dependiam de eu aparecer para trabalhar. Tive um sentimento de que eu era necessário e valia algo para a comunidade [...]. Além de tudo, o trabalho comunitário me fez enfrentar o fato de que eu não tenho uma mão. Ele me obrigou fazer coisas físicas que eu nunca tinha tentado antes por vergonha, como limpar, carregar coisas grandes...Eu fiz trabalhos que simplesmente nunca tentaria. Acho que, quando penso sobre isso agora, o trabalho voluntário foi verdadeiramente gratificante para as pessoas que ajudei, mas especialmente para mim mesmo...por meio dele, eu realmente sinto que fiz algo e que fiz a diferença. Obrigado.”

O sentimento de ser útil e de estar mudando a vida de outros para melhor pode ser, inclusive, um remédio para a depressão, mal que atinge hoje duramente um número cada vez maior de pessoas, deixando-as improdutivas e gerando quantidades alarmantes de suicídios, relacionados muitas vezes com perda de vontade de viver por falta do senso de sua importância, do valor de si próprio.

O presidenciável Ciro Gomes vem falando muito da importância de ressignificar a vida humana e de se quebrar o padrão de consumismo criado pela sociedade, que a leva a estar sempre infeliz com o que tem e competindo com os demais, invejando, querendo se sobressair a qualquer custo, o contrário da natureza humana, que é prevalentemente de grupo, o que requer mútua ajuda.

Infelizmente, o período de boom das commodities e de grande crescimento brasileiro, que poderia ter sido aproveitado para um imenso crescimento moral, intelectual e, portanto, produtivo da população, revelou tímidos avanços nesses aspectos frente ao que se poderia conquistar em tantos anos de bonança. 

Os políticos, se tiverem realmente essa preocupação, deveriam olhar para o trabalho social obrigatório  de alunos em escolas e faculdades, e por beneficiados em programas sociais, como um meio muito eficiente de melhorar as vidas das próprias pessoas que nele se engajam, mas também, é claro, das pessoas que são ajudadas.