Educação

Entrevista

"Muitas escolas se tornaram quase shoppings"

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas publicado 24/01/2017 00h03, última modificação 23/01/2017 15h16
As escolas são hoje quase shoppings que não ensinam a pensar, nem a se comportar moralmente, dizem responsáveis por colégio inovador na Bahia
Reprodução / Facebook
Escola Ananda

Festival da Escola Ananda: a abordagem da escola diante do ensino é pouco comum

A Escola Ananda vem ficando conhecida entre especialistas no país e até fora dele por seu método holístico de ensino, que busca mais autoconhecimento, autoconsciência, desenvolvimento da reflexão, do senso crítico, do senso social, de obrigação etc.

Ela foca em tudo o que o ser humano realmente precisa para ser um adulto completo e no que a maior parte das escolas não dá atenção. Na primeira parte da entrevista, a diretora da escola, Carina Viana Sales, e a administradora, Fabiana Arrais, falaram da proposta do estabelecimento, de alguns diferenciais e de inúmeros detalhes.

Nesta segunda parte da conversa, também condensada e editada, elas buscam aprofundar o debate a respeito dos diferenciais da escola, que não precisam ser copiados pelas demais, mas podem servir de modelos para modificações drásticas, ainda que graduais e experimentais, nos métodos de ensino, no programa e no comportamento dos educadores. 

CC: Como funciona o setor da escola voltado para a consciência?

EA: Há 20 anos nós trabalhamos com exercícios de conectividade: reflexão, concentração, meditação, vibração, percepção, contemplação e exaltação. Todos os dias as crianças fazem esses exercícios, cada dia um, de 8h às 8h30. Quando chegam à escola, fazem diferentes atividades dessa natureza.

Iniciamos, assim, o dia de forma tranquila e os fazemos unir a natureza interna com a externa, mesmo em tenra idade. Há aqui crianças de apenas dois anos que já conseguem ficar nesse estado de inteireza com eles mesmos.

Nós falamos: “Esse é um momento de encontrar Deus, ou a força na qual cada um acredita, ouvir a respiração, os sons de dentro do nosso corpo, se desligar lá de fora”. E eles conseguem fazer isso.

Quando ingressam no Fundamental I, os alunos que fizeram a educação infantil na escola raramente apresentam problema de foco de atenção. Para os que apresentam, além das nossas atividades já regulares, entramos com a Neuroeducação.

São raros os casos de problemas com violência, de agredirem uns aos outros, mesmo numa fase púbere, em que há grande liberação de testosterona, que é conhecido como um hormônio da agressividade. Eles compreendem a lei de causa e efeito, a lei de trabalho.

Isso decorre em muito da nossa disciplina “Iniciação à Consciência”, que objetiva despertar, desenvolver e construir consciências humanas. Nós utilizamos um programa chamado “Moralizar”. Trabalhamos 42 leis, chamadas de naturais, universais ou divinas, atendendo ciência, filosofia e religiosidade. A gente não trabalha com religião, mas com religiosidade, espiritualidade.

Discutimos, por exemplo, a lei de causa e efeito sobre a perspectiva científica (toda causa tem efeito igual ou em sentido contrário), filosófica (toda ação provoca uma reação) e religiosa (quem com ferro fere, com ferro será ferido).

Trabalhamos lei de trabalho, ordem, calar, atração e repulsão (Isaac Newton). As educadoras trazem experimentos e os levamos a perceber se as noções funcionam no comportamento humano. Essa é a máxima da escola: a integração do conhecimento.

Nada é pautado apenas na ciência, apenas na filosofia ou apenas na religiosidade. O planejamento é assim. Se o assunto será lei de ordem, procuramos tratar disso no campo da ciência, da filosofia e da religiosidade.

CC: E se a família e/ou o educando não acreditarem em Deus e/ou em religião?

EA: Nós, enquanto instituição, como dito, não trabalhamos com religião da forma que estamos habituados a ver na sociedade, e sim com religiosidade/espiritualidade. Cremos na existência de um poder superior, que recebe diversas denominações, a depender da religião.

Desta forma, trabalhamos para formação dos valores morais, essenciais e comuns à composição da base das mais diversas religiões. O que percebemos, na verdade, é que as famílias nos procuram por conta de nossa preocupação com a formação do cidadão, de um ser humano com elevado grau de consciência.

São raros os casos de questionamentos diretos sobre Deus. Quando eles acontecem, buscamos levar a família a reflexões essenciais acerca de nossa existência. Quem somos afinal? Por quê e para que estamos aqui? Existe um exemplo curioso. Uma mãe disse o seguinte: “O texto fala de origem causal. Eu sei que vocês estão falando de Deus”. Eu respondi: “Mãe, você se autocriou?”. Ela disse: “Não”. “Você acredita no big bang?”. Ela disse: “Não, acredito na teoria evolucionista”. Eu respondi: “Pronto. Viemos do macaco. Mas quem criou o primeiro macaco?” Ela respondeu: “Olha, nunca pensei sobre isso.”

Eu disse que o físico e espiritualista Amit Goswami, no seu livro “Deus não está morto”, explica que ele era físico, e não físico quântico. Ele tentava comprovar tudo em números. O pai dele, num dado momento em que Amit o questionava sobre a existência de uma força maior foi, então, fazendo-lhe tantas perguntas que chegou um momento no qual ele ficou vazio. Disse então, Amit, que ali ele percebeu a impossibilidade de se autocriar, chegando à conclusão de que existiria algo que deu origem a tudo.

Se existe um criador, uma origem, vamos atrás dele(a), cada qual usando o veículo que quiser para chegar lá. Após esse bate papo com a mãe, ela apareceu dois dias depois com o marido e houve nova conversa.

Pensei o seguinte: “Se ela concordar com a ideia, manterá a filha na escola. Do contrário, irá tirá-la”. E ela manteve a filha aqui conosco. A mãe relatou que, embora parte do que discutíssemos em nosso trabalho fugisse às suas crenças agnósticas, o que tínhamos a oferecer de benefícios na formação de sua filha, era mais importante naquele momento. 

CC: Considerando que o projeto da escola é muito diferente do modelo dominante, como é feita a preparação do educador?

EA: Nossos profissionais são preparados pelo programa que batizamos de Capacitar, citado na primeira parte de nossa entrevista, que acontece às segundas-feiras. Como temos baixo nível de rotatividade, conseguimos uma sólida continuidade nos trabalhos de pesquisa e aprofundamento do programa de formação.

Temos também importantes parceiros externos, cuja troca de experiências e contribuição no desenvolvimento dos trabalhos é mútua. São elas a Fundação OCIDEMNTE (Organização Científica de Estudos Materiais, Naturais e Espirituais), através de seus projetos na área de educação e autoconhecimento; e o ISEO (Instituto Superior de Educação Ocidemnte) através dos cursos de graduação, pós-graduação e extensão, além do NEAC (Núcleo de Estudos Avançados em Autoconhecimento e Desenvolvimento Socioemocial) desta instituição.

Além disso, os profissionais que atraímos e selecionamos têm total afinidade com nossa forma de trabalho. A adesão irrestrita a nossa proposta de trabalho é condição sine qua non para fazer parte de nossa equipe.

Nós estamos, inclusive, colaborando com governo da Bahia para introduzir o projeto de Iniciação à Consciência em escolas públicas estaduais, e o resultado tem sido bastante satisfatório. 

Muita gente já está se dando conta do caos social. Ele é um fato, só não é visível àquelas pessoas que se alimentam dele ou que têm uma limitação cognitiva para compreender. Exceto tais hipóteses, as pessoas estão ao menos abertas a essa constatação, e ávidas por transformação. O governo do estado parece ter percebido isso e tem nos dados abertura para trazer nossa experiência à educação pública.

Quando se leva um projeto desse para uma escola, isso significa reformulação interna, e a maioria das pessoas está procurando uma revolução, pois estão carentes em seus níveis pessoais, profissionais e espirituais. Ao contrário do que se pensa, as pessoas estão buscando com muita intensidade uma transformação. 

CC: Parece que um dos principais problemas da sociedade brasileira é o seu senso social menor do que o existente em outros países, a pouca cooperação e a moral frágil. Há como desenvolver melhor esses aspectos do educando na escola?

EA: A proposta da escola por si só é inclusiva. As educadoras não tratam de forma diferente apenas crianças que têm hidrocefalia, autismo, Síndrome de Down etc. Elas não recebem um tratamento especial, mais humano. Esse tratamento é dado a todas.

As crianças, por sua vez, acabam compreendendo isso, até porque muitas começaram a ser educadas dessa forma desde os dois anos. Um exemplo que ilustra bem o que vemos aqui todos os dias é que houve um caso no qual uma criança estava descendo a escada e outra se bateu nela propositalmente por conta da cor dela. Um terceiro aluno que viu a situação interferiu e disse: “O sol nasce para todos”.

Isso já é uma decorrência de noções morais diferentes. A moral insere no indivíduo um conjunto de valores e tais valores são estudados nessa disciplina “Iniciação à Consciência” todas as sextas. Então, aqueles que manifestam algum tipo de problema, quase sempre, já são suavizados e mudados pelos próprios colegas, pois o exemplo vai, no mínimo, motivar, senão educar. 

CC: Conversando com outras pessoas, inclusive gestores públicos e outros envolvidos com educação, nota-se que um ensino mais holístico, que inclua a meditação, por exemplo, não somente é pouco compreendido, como ainda é um tabu para muitos.

EA: Um pai de aluno pediu que recebêssemos aqui o grupo de uma faculdade baiana e falávamos sobre isso. Uma das alunas perguntou algo muito próximo. Eu [Carina] propus uma experiência: “Vamos fechar os nossos olhos e fazer uma pergunta. Ninguém precisa responder. Você vai se perguntar: ‘eu sou feliz?’”

Eu dei algum tempo e disse a elas: “Isso já justifica a necessidade de implantação da meditação e dos exercícios de conectividade. As pessoas não estão felizes, pois elas procuram a felicidade fora. Elas se dizem infelizes por estarem sem o sapato que viram na loja. Quando compra, continua infeliz. Então, elas se dizem infelizes porque não têm o carro do ano. Ao comprarem, logo em seguida estão infelizes. Algumas se dizem infelizes pois não têm o namorado, o marido ou o filho que queriam, mas, ao conseguirem, logo em seguida estão infelizes”.

Eu disse isso e propus: “Vamos refletir com os olhos fechados, mas não precisa responder”. Após algum tempo, perguntei, enfim: “Onde está a felicidade?”. Todas responderam de forma unânime: “Dentro de nós”. Eu perguntei: “Qual a ferramenta que vamos utilizar para entrar em nós mesmos?”. Elas responderam: “A meditação”.

Basta perguntar a quem quer que seja a razão para a meditação ser praticada nas escolas e as pessoas, se refletirem calmamente, saberão responder. Do contrário, produziremos, no máximo, apenas intelectuais, que construirão bombas atômicas ou que atuarão na política como se faz hoje, em regra, no Brasil.

Eu [Fabiana] entendo que também é preciso dar a oportunidade de as pessoas experimentarem. Em todo curso que dou, faço um pouco de meditação com os alunos no início das aulas. No começo, parece uma brincadeira para eles. Muitos acham aquilo estranho. Quando eles provam só um pouco, acham muito bom e me cobram mais nas aulas seguintes.

A experimentação é muito importante, pois, se apenas falamos em meditação, muitos não conseguem nem ter uma ideia do que se trata. 

CC: Como o projeto da escola leva a uma educação mais reflexiva e menos superficial, enciclopédica?

EA: Um dos objetivos da disciplina “Iniciação à Consciência” é “saber pensar”. É uma prática de direcionar o pensar e aprofundar o raciocínio. É muito comum vermos as pessoas se queixando de algo que não é nem bem aquilo, pois não sabem pensar. Elas aceitam ou amam o que deveriam reprimir. Os valores são invertidos muito por conta da falta do despertar, do sentir, mas também do saber pensar.

Nós desenvolvemos uma prática de, por exemplo, pensar sobre “o que é ordem?”, “para que ordem?”, “por que ordem?”, “qual o método e os recursos para atingir a ordem?”.

Eu [Carina] fui professora de pós-graduação. É muito comum você perguntar a finalidade (para que?), e o aluno responder justificando. A maioria das escolas não aprofunda o raciocínio. Acabam formando indivíduos que confundem tudo: “o quê?”, “para quê?”, “por quê?” etc.

As escolas não estão se preocupando com o “ser” e nem mesmo com o “ter”, na verdade, pois este se limita a uma estrutura circense. Muitas escolas se tornaram quase shoppings, que estão desvalorizando a velocidade do ser humano de sair de um nível reptiliano para um nível de córtex pré-frontal. Nós temos as condições de racionalizar por conta do córtex pré-frontal, mas o nosso comportamento ainda é reptiliano, e o modelo predominante de educação se alimenta disso. 

CC: Aproveitando esse gancho, como está sendo aplicada a neuroeducação na escola?

EA: Todas nós somos pós-graduandas em estágio final no curso de Neuroeducação da professora Susan Liebig, de São Paulo/SP, e já estamos aplicando nas nossas crianças.

A Neuroeducação entende que todo indivíduo não possuidor de limitações físicas ou químicas tem condição de potencializar a expressão de sua genialidade. Dentro da Neuroeducação isso é possível através da aplicação de intervenções específicas para este fim.

Um exemplo de situação limitadora é uma criança que tem uma crença apoucada de si mesma. Nós tentamos ir ao sistema de referência, para a raiz do problema, e modificar essa estrutura de pensamento, fazendo-a perceber todas as suas potencialidades. A Neuroeducação também permite trabalhar aspectos limitantes da família. Recentemente, o Núcleo de Conscienciologia realizou um trabalho sobre “as preguiças”. A Neuroeducação divide “as preguiças” em física, mental, emocional e moral. Geralmente, elas caminham de forma relacionada.

Quando a criança tem uma dificuldade de fazer um exercício físico, quase sempre notamos que esse problema já vinha da própria família. Então, é preciso realizar um trabalho para que a família como um todo modifique esse padrão e não transmita comportamentos indesejados através das gerações.

Segundo a Neuroeducação, a preguiça física é herdada, passada através dos genes. As outras três são passadas por um processo social que vem sendo chamado pela ciência atualmente de Epigenética, ou seja, são transmitidos entre gerações sem que haja transferência por DNA, e a ciência já comprova isso. Se a pessoa observa aquela estrutura de comportamento sempre, vai acabar agindo de modo igual. 

CC: Os alunos são, em geral, da região em torno da escola?

EA: Não, por uma identificação com o projeto, muitos dos pais quebram a barreira da distância. Temos alunos de muitos bairros diferentes, de todas as distâncias. A maioria dos pais trabalha em universidades e têm alguma ligação com a educação, ou têm alguma ligação com o tema do autoconhecimento e consciência.