Tadeu Kaçula | Crítica da Razão Periférica
O sociólogo Tadeu Kaçula fala sobre gestão pública foco nas dinâmicas de desigualdade, resistência e cidadania em territórios historicamente marginalizados
Tadeu Kaçula | Crítica da Razão Periférica
O Brasil visto de fora do centro
Quando o olhar se desloca para dentro, percebe-se um universo de práticas, resistências e saberes que reconfiguram o País
A narrativa sobre as periferias brasileiras costuma vir de fora: estatísticas da violência, índices de pobreza, mapas de desigualdade… Mas, quando o olhar se desloca para dentro, percebe-se um universo de práticas, resistências e saberes que reconfiguram o País. A proposta desta coluna é justamente essa: pensar o Brasil a partir das margens, reconhecendo que nelas se produzem racionalidades sociais e políticas invisibilizadas pelo discurso dominante.
São Paulo
Em São Paulo, a vida periférica é marcada pela tensão constante entre opressão e criação. A juventude negra é a mais impactada pela violência policial e pela precarização do trabalho. Mas é também dela que nascem o rap, o funk, os saraus e os movimentos de moradia. Não se trata apenas de expressão artística: são formas de disputar espaço, de denunciar injustiças, de afirmar cidadania. A cultura se torna política.
No campo econômico, o improviso se transforma em potência: feiras, salões de beleza, food trucks caseiros, cooperativas e serviços comunitários. A economia periférica é uma reinvenção diária, baseada em solidariedade e criatividade.
Nordeste
As periferias nordestinas carregam uma herança escravista e colonial profunda, mas também a vitalidade de identidades étnicas que resistem. Em Salvador, Recife ou Fortaleza, a música, a culinária e a religiosidade não são apenas expressões culturais: são estratégias de sobrevivência, de autoestima e de resistência política.
O trabalho informal, muitas vezes associado à precariedade, assume ali outra dimensão. Ele conecta tradição e modernidade, transformando práticas locais em circuitos de sobrevivência que, ao mesmo tempo, fortalecem vínculos comunitários e desafiam o modelo econômico dominante.
Sul
No Sul, a ideologia da branquitude busca apagar a presença negra e periférica. Mas as favelas e conjuntos habitacionais de Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis evidenciam a segregação espacial e a violência estatal. O racismo está presente, ainda que tente se disfarçar sob o mito da homogeneidade.
A resposta surge em experiências comunitárias que tensionam esse silenciamento: cooperativas de reciclagem, iniciativas culturais, ocupações urbanas. O orçamento participativo de Porto Alegre foi uma dessas brechas que mostraram como a periferia pode interferir diretamente no destino da cidade.
Periferia como projeto de futuro
O que une periferias do Sudeste, Nordeste e Sul não é apenas a desigualdade, mas também a inventividade diante dela. É a capacidade de transformar exclusão em solidariedade, dor em arte, invisibilidade em denúncia. É desse chão que brota a crítica da razão periférica: não como teoria distante, mas como prática cotidiana.
Olhar para o Brasil de dentro das periferias é perceber que ali se gestam projetos de futuro. Não o futuro que o centro imagina para a margem, mas o que a margem constrói para si mesma — e que pode, em última instância, reinventar o país inteiro.
Um olhar sociológico para as periferias
A sociologia, quando escuta as periferias, descobre que nelas não há apenas problema: há solução, há horizonte, há esperança. Porque a margem não é só limite — é também início. As periferias, tantas vezes representadas apenas pelo déficit, pela ausência e pela carência, são também territórios de criação, de resistência e de potência coletiva. Ao olhar atento do sociólogo, revelam-se redes de solidariedade, práticas culturais inovadoras, modos de sobrevivência criativos e formas de organização social que frequentemente antecipam soluções para dilemas urbanos mais amplos.
Escutar a periferia significa reconhecer que o saber não está apenas nos livros ou nas universidades, mas também na experiência cotidiana de quem enfrenta, dia após dia, as contradições de uma cidade desigual. Cada viela, cada comunidade, carrega histórias de luta, de construção de pertencimento e de afirmação identitária. Ali nascem movimentos culturais que transformam a linguagem, a música, a arte e a política. Ali surgem novas formas de pensar a coletividade e de reinventar o futuro.
Portanto, quando a sociologia se aproxima desses territórios com humildade e abertura, descobre que a margem é, na verdade, um centro fértil: lugar de recomeços, de alternativas e de possibilidades para toda a sociedade.
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