Violência psicológica: ouvindo o próprio grito

É necessário dar um basta à violência que destrói a autoestima das mulheres

Manifestante carrega cartaz em passeata contra a cultura do estupro no Rio, em junho de 2016

Manifestante carrega cartaz em passeata contra a cultura do estupro no Rio, em junho de 2016

Sororidade em Pauta

(…) E que possamos combater

Intrincadas formas de opressão,

As que vivo e as que não.

Que contra todas eu possa lutar,

Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.

 – Devoção, Laura Moreira

 

Quase nunca me expresso por textos longos, não sou da escrita, gosto de frases curtas e imagens, típicas das manifestações de irresignação em tempos de redes sociais, e que muitas vezes nos revelam mais do que as próprias palavras e os longos artigos. Há algum tempo tenho declinado do convite da amiga, sorora Patrícia Maeda, para escrever na coluna Sororidade em Pauta e me reunir a tantas mulheres extraordinárias que lutam todos os dias por uma sociedade onde sejamos, nas palavras de Rosa Luxemburgo, socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Mas para falar sobre a violência psicológica contra as mulheres, não são suficientes as imagens e as curtas frases. E é preciso falar, escrever, denunciar, resistir. É preciso ouvir o som do próprio grito, como cantou Vander Lee. Nos dicionários as definições para a palavra resistência são a força por meio da qual um corpo reage contra a ação de outro corpo; defesa contra o ataque; oposição.

Entretanto, estas definições não me parecem suficientes para descrever a força da resistência feminina e assim é preciso ressignificar a palavra resistência, dar a ela não apenas um sentido inerte de oposição ou ou passivo de reação. Resistência é luta, resistência é construção, precisa ser ressignificada de forma positiva. Resistiremos escrevendo artigos, livros e teses. Resistiremos no dia a dia das disputas judiciais e do exercício da jurisdição. Resistiremos conscientizando por meio da educação libertadora. Resistiremos apoiando e dando suporte as mulheres abusadas. Resistiremos denunciando todas as formas de abuso cometidas contra as mulheres. Resistiremos na sororidade.

Cansei do silêncio, não serei cúmplice da violência praticada todos os dias nos lares, locais de trabalho e ruas do Brasil.

Na esfera pública ou privada, muitos são os abusos cometidos contra as mulheres e muitas as formas que assumem. Violência física, psicológica, sexual e patrimonial, todas compõem a cultura de uma sociedade patriarcal e misógina, que não apenas legitima, mas banaliza, naturaliza e se silencia diante da violência praticada diuturnamente nos ambientes doméstico, de trabalho e nas ruas.

Reconhecer e denunciar a cultura do abuso são fundamentais para promover a necessária mudança social. É urgente dar vozes às muitas mulheres que foram caladas. É urgente dar um basta na violência praticada, sobretudo pelos companheiros, mas também por pais, chefes, colegas de trabalho e desconhecidos. É urgente gritar que não vamos mais tolerar tamanho abuso. Basta! Basta! Basta!

Basta! Grito que pautou o único livro escrito pela grande mãe da poesia moçambicana, Noémia de Sousa, mulher, negra, que no belíssimo Poema, no Livro de João, Sangue Negro (Editora Kapulana, SP, 2016), denunciando a exploração das mulheres e a escravização dos negros, brandava:

Armas-me grades e queres crucificar-me

Agora que rasguei a venda cor-de-rosa

E gritei: “Basta!”

Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –que eu, mais do que nunca,

Dos limos da alma,

Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo: Basta! Basta! Basta!

A reprodução e perpetuação da violência contra as mulheres encontra espaço na nossa tecitura social, uma sociedade estruturalmente patriarcal e profundamente desigual, opressora da identidade feminina e do seu papel social. Nesta sociedade, a perversidade e complexidade das muitas formas de violência, corrompem a subjetividade das mulheres violentadas, suas emoções, sentimentos e pensamentos, impedindo a construção de um espaço relacional saudável, interpessoal ou social.

Entre tantas nefastas formas de violência contra as mulheres, é a violência psicológica, dentre todas, a mais difícil de ser percebida pelas mulheres que a sofrem e por aqueles que estão em seu entorno. Na violência psicológica o abusador age de forma contínua, persistente, mas sutil, e por isso, essa forma de violência é invisível na maioria das situações vivenciadas pelas mulheres abusadas.

Portal Minha Voz

A pesquisa anual realizada pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Defensoria Pública do Estado do Ceará (Nudem), publicada no ano de 2019, com dados de 2018, revela, ao traçar o perfil das mulheres vítimas de violência que procuram ajuda, que 97,5% das mulheres atendidas identificam a violência psicológica como a forma de expressão da violência mais recorrente, seguida da violência moral, física, patrimonial e sexual. Do total de mulheres pesquisadas (568), 211 indicaram estar entre um e cinco anos submetidas a uma situação de violência sem denunciar, e outras 141 estão entre 10 e 20 anos vivendo relações abusivas, sem romper este ciclo.

A Lei Maria da Penha (lei 11.340/06) reconhece como crime a violência psicológica e a define como qualquer conduta que cause à mulher dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação.

Esse abuso psicológico tem nome: gaslighting.

O nome é uma referência ao filme Gaslight (no Brasil, À meia luz), de 1944, dirigido por George Cukor e baseado na peça teatral de Patrick Hamilton, cuja narrativa é um retrato da violência psicológica praticada pelo marido que manipula sutilmente sua mulher até convencê-la de que ela imagina coisas ou que se lembra de coisas de maneira incorreta, fazendo-a duvidar de sua sanidade.

Trata-se de um abuso sutil e manipulador, que destrói a autoestima das mulheres, fazendo-as duvidar das próprias certezas, opiniões, capacidades, escolhas, decisões e da própria saúde mental. O homem abusador distorce a realidade, inverte responsabilidades, acusa inverdades, faz críticas destrutivas, determina culpas, estabelece dúvidas, humilha, ameaça e coage. A indiferença em relação a individualidade feminina, suas opiniões, conquistas, vontades, desejos – inclusive sexual-,  também compõe o repertório das condutas masculinas abusivas.

Qual mulher nunca ouviu frases como: você está louca!; você é sensível demais!; isso nunca aconteceu, é coisa da sua cabeça!; a culpa é sua!; você vai sair com esta roupa!, dentre outras que estão naturalizadas em discursos machistas e misóginos.

O poder destrutivo da violência emocional se faz sentir não apenas no âmbito psicológico, conduzindo a uma incapacidade de autodeterminação, e como causa de doenças como depressão, ansiedade, transtornos alimentares e do sono, podendo levar ao suicídio.

As consequências da vivência em relações abusivas também produzem efeitos nefastos na vida produtiva e social das mulheres abusadas, nas suas relações profissionais e de trabalho, retirando-lhes força e capacidade de produção, crescimento, autossuficiência financeira e realização profissional. A vivência em família é também afetada pelas consequências do abuso, sobretudo, a maternagem, o cuidado e zelo com os filhos, muitas vezes vítimas indiretas da violência sofrida pelas mulheres. E por fim, mas não menos importante, são as consequências nas vivências sociais. Com medo e vergonha, as mulheres abusadas se isolam no convívio social.

Viver uma relação abusiva, cuja dinâmica perversa da violência nos atravessa, é morte em vida. Precisamos combater todas as formas de violência contra as mulheres, e precisamos reconhecer e denunciar a violência psicológica, que alcança mulheres em diferentes classes sociais, raças, escolaridade e idades. Vamos dar um basta!

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Juíza do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 15a. Região,   membra do Comitê para a Erradicação do Trabalho Escravo Contemporâneo, do Tráfico de Pessoas, da Discriminação de Gênero, Raça, Etnia e Promoção de Igualdade do TRT 15, membra da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD), mestranda em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Mãe do Felipe e da Clara.

Compartilhar postagem