Sonhar é preciso

Mulher reza em frente à igreja de São Jorge, no Rio de Janeiro. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Mulher reza em frente à igreja de São Jorge, no Rio de Janeiro. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Sororidade em Pauta

Passamos mais de um ano submersos em notícias terrivelmente tristes no mundo e, de modo ainda mais angustiante, no Brasil. Perdemos mais de 400.000 brasileiros! Cinco Maracanãs lotados foram carregados pela pandemia. Atingimos a marca de 3 mil mortos por dia e nela estagnamos! Dizem que chegamos num platô. Que lugar horrível para encontrar estabilidade, não?

Sim, há os que ainda se alimentam da ignorância, e muitos por má-fé ou para garantir o vil metal. A doença não existe, a ciência é negada, a cura provém do grão de feijão milagroso, a máscara faz mal à saúde, o vírus é uma fabricação chinesa e por aí vai.

Outros se apegam a um otimismo oco e repetem que “com fé no coração” tudo irá se transformar “sabe-se lá quando”. Talvez na hora H e no dia D, como a vacina que não chegou a tempo para salvar milhares de brasileiros.

Quanto mais me informo, mais a mortandade me estarrece, aumenta meu medo de ver a doença arrasar a terra e atingir as pessoas que me são essenciais.

O desafio é sobreviver, física e espiritualmente!

Usamos máscaras, seguimos a ciência, evitamos os encontros, conscientizamos os filhos, brigamos com os parentes para que também se protejam. Enquanto o vírus estiver aterrorizando lá fora, seguimos aqui em “home office”, regando as plantas, ouvindo os discos, limpando a casa, cozinhando nosso alimento e nossa resiliência.

A arte é um remédio imprescindível! Além dela, encontrei uma outra urgência em mim: SONHAR!

Sim, sonhar como propõe Sidarta Ribeiro, o neurocientista que escreveu o “O Oráculo da Noite”. Sidarta foi uma descoberta desse período pandêmico. Fiz um curso com ele e, desde então, passei a dar mais importância ao sono e aos sonhos. Sigo Sidarta nas redes. Um sujeito culto, humano, inteligente e com uma bagagem enorme de conhecimento que ele compartilha generosamente conosco.

Mas também quero sonhar com um país que conheça e efetivamente respeite a natureza e seu povo. Por isso, tenho muito a aprender com Ailton Krenak, para saber como posso ajudar a adiar o fim do mundo. Aliás, Krenak já começa ensinando algo muito bonito: o exercício da escuta. Prestem atenção nas entrevistas que ele concede e o respeito com que ele trata seu interlocutor.

Desejo um país mais humano e fraterno! Que essa utopia me guie! Nos meus sonhos, os semáforos não têm gente se humilhando por uns trocados, as pessoas não passam fome, vou caminhar nos centros da cidade sem gente dormindo debaixo das marquises. Há escola pública para todos e o SUS está vivo e valorizado!

As transformações sociais dependem de ações sucessivas, planejadas e continuadas, ou seja, com políticas públicas definidas e bem executadas. Já fizemos essa lição de casa no passado recente. Assim como já vacinamos 90 milhões de pessoas contra o vírus da H1N1 em apenas 3 meses. Coisas de uma outra década, diria um grande jornal. Não há herói ou varinha de condão que nos transformará numa nação livre e solidária. Todo mundo tem a sua cota de responsabilidade nesse latifúndio. Mas, na hora de votar, não adianta falar que quer mudança e escolher quem destrói a natureza, entrega nossas riquezas ao estrangeiro, nega os direitos humanos ou coloca racistas ou supremacistas brancos em posições de destaque. Coerência entre discurso e ação, por favor.

 

O meu mundo sonhado não tem espaço para a discriminação. Que o país enfrente, de uma vez por todas, o racismo! Sei que essa é a nossa maior chaga. A raiz de todas as outras desigualdades que toleramos por séculos. É inadmissível saber, por exemplo, que a população negra é abatida pela polícia à luz do dia ou na calada da noite diariamente. Ontem, 27 de abril, a Folha de São Paulo contava sobre a morte de Thiago, 20 anos, executado com um tiro na boca disparado à queima-roupa por um policial à paisana. Segundo a reportagem, Thiago “…já havia encarado outras mortes simbólicas, quando lhe foram negados atendimento médico, psicológico e escolar.” Difícil dormir e sonhar com essa realidade tão dura! Produzimos um George Floyd por dia. Quando vamos berrar: “vidas negras importam!”?

No meu sonho antirracista, levo comigo a lições de Djamila Ribeiro, Lélia Gonzales, Emicida, Adilson Moreira e Silvio de Almeida. Quero estar sempre perto deles.

Eu preciso enxergar nitidamente as cores desse mundo sonhado. Eduardo Galeano, cujas “Veias Abertas da América Latina” completam 50 anos, dizia que a utopia nos orienta na caminhada. Cada três passos que dou, a utopia se distancia os mesmos três passos de mim. Para isso serve a utopia, para me fazer andar.

Mas por que falar de sonho agora? Efetivamente, nunca deixei de sonhar. Mas admito, os meus sonhos andaram desbotados, meio exaustos. Pareciam entorpecidos por uma realidade que custei a aceitar.

Sempre tive a ilusão de que, na adversidade ou na guerra, as pessoas se guiariam pela racionalidade, pela solidariedade, pelo justo e pela ciência. Os homens que cuidam das leis jamais rejeitariam uma Constituição Cidadã. Os médicos nunca prescreveriam remédios que não curam. As pessoas se irmanariam diante da desgraça, da fome ou da pobreza. Se Hitler voltasse, a humanidade não o deixaria prosperar. Tinha a certeza de que os meus amigos se levantariam da tal mesa com os dez fascistas sentados. Por fim, acreditava que a democracia já estava conquistada.

Sim, eu precisei me despir dessas ilusões!

Comecei a perceber que uma prisão decretada por um juiz parcial e incompetente não incomodava nem mesmo os juízes. Os promotores justiceiros encantavam a sociedade, a mídia e aquele jovem estudante de direito. Agentes do estado incentivavam frenéticas manifestações de rua. Paro por aqui para não cansá-los.

O processo foi longo, doloroso e se desdobrou em diversos episódios. Cada queda ajustava o meu grau de miopia. Hoje, no entanto, reconheço que esse caminho me libertou. De certa forma, ele me fez sentir mais responsável para concretizar tantos sonhos, sem olhar para os abismos e sem gastar tanta energia com as encruzilhadas. Não busco nada etéreo, inatingível ou retórico. Além da gente que me inspira com sua arte ou com seus textos, abracei com força aqueles que constroem para transformar nosso país em um lugar mais acolhedor para todos. Eu quero apenas aquilo que me é essencial e que me faz humana! Afinal, não esqueço: sonho que se sonha junto é realidade!

Ciente das minhas cicatrizes e escolhas, posso dizer que minha maior conquista nessa pandemia foi voltar a sonhar aceitando as ilusões desfeitas.

E, agora, que venha logo a vacina! Tenho muitos planos para quando sair da toca.

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Desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15) e membra da Associação Juízes para a Democracia (AJD).

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