Vacinar-se é um ato de cuidado coletivo: entenda quais precisamos tomar

Quando falamos de imunização para a população LGBT, precisamos sobretudo falar sobre as ISTs que têm prevenção por vacinas

Vacinas. Foto: Agência Brasil

Vacinas. Foto: Agência Brasil

Saúde LGBT+

Eu, Pedro Campana, médico infectologista, trabalho diariamente com covid-19 há quase dois meses. Minha opinião sobre o término desse período é apenas uma: as coisas só voltarão ao normal – se é que podemos falar em normalidade – após o descobrimento de uma vacina eficaz, segura e amplamente acessível no mundo. É por isso que hoje eu decidi falar sobre imunização na população LGBT. Já que temos um arsenal de vacinas tão amplo disponível, por que não falar sobre eles para vocês poderem usar mais essa estratégia de prevenção? Então vamos lá!

Quando falamos de imunização para a população LGBT, precisamos sobretudo falar sobre as ISTs que têm prevenção por vacinas. E quais são elas? Trata-se das vacinas das hepatites A e B e HPV.

Hepatite A é uma IST?

Muita gente tem essa dúvida. Afinal, é sabido que hepatite A pode ser contraída através de ingestão de água ou alimentos contaminados e que vírus é excretado nas fezes e, por isso, chama-se a transmissão de oral-fecal. Trata-se de uma doença comum na primeira infância. Porém, nos adultos, a transmissão pode se dar por via sexual, com o famoso sexo oro-anal ou “cunete”. Ou seja, qualquer casal que tenha essa prática tem exposição aumentada ao vírus, seja gay, hétero, lésbico, trans, negro, branco, amarelo, pois os vírus não distinguem gênero, cor, credo, nem nada.

A doença, que em crianças geralmente cursa com quadros leves sem gravidade, pode ser bastante perigosa para adultos, com hepatite fulminante eventualmente. Por isso, é tão importante imunizar-se. A vacina de hepatite A é feita em duas doses, com intervalo de seis meses. É uma vacina com vírus mortos, portanto não pode causar doença. Na cidade de São Paulo, devido ao surto de hepatite A na população de homens que fazem sexo com homens (HSH) em 2017, a vacina tornou-se parte do calendário vacinal para a população HSH desde então.

Vacina de Hepatite B

A hepatite B é uma doença transmitida classicamente através de compartilhamento de seringas contaminadas, contato direto com sangue e transmissão sexual. Evoluiu, muitas vezes, para uma hepatite crônica, ou seja, inflamação do fígado por anos. Como consequência, a pessoa pode desenvolver câncer de fígado ou cirrose, quadro no qual o fígado gradativamente deixa de executar suas funções. Embora tenha tratamento, a hepatite B não tem cura. Mas tem vacina e todo mundo pode tomar através do SUS.

A vacina de hepatite B é realizada em 3 doses, sendo o intervalo entre a primeira e a segunda de 1 mês e entre a primeira e a última, 6 meses. É uma vacina composta por uma proteína do vírus, portanto também não causa doença. Em pessoas que vivem com HIV, é necessária uma dose a mais (total de 4 doses) com volume dobrado a cada aplicação (2mL). A vacina confere imunização que pode ser observada através de um exame de sangue que dosa anticorpos específicos gerados por estímulo vacinal.

HPV

O HPV, ou papilomavírus humano, como o nome já diz é um vírus que é responsável por uma série de quadros. Pode causar desde verrugas na pele até câncer de colo de útero, de garganta, de ânus e reto. O vírus tem diversos tipos, dos quais os considerados de alto riso para cânceres são os 16, 18, 31, 35, 39, 41, 51, 52, 56, 58 e 59. Todavia, de todos esses, os tipos 16 e 18 são os mais frequentemente associados a quadros de câncer de colo de útero e ânus. Em relação aos de baixo risco, responsáveis por verrugas na sua maioria, temos os tipos 6 e 11 como mais frequentes.

A vacina disponível no SUS é a tetravalente, ou seja, confere imunidade contra os tipos 6, 11, 16 e 18. Pelo calendário vacinal, meninas até 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. Após essa idade, teoricamente há início da atividade sexual e contato com o vírus. Mas isso não significa que você, adulta ou adulto, não possa tomar a vacina. Mesmo para as pessoas com contato com o vírus, a vacina ainda pode ajudar a prevenir quadros de câncer. Nesse contexto, está disponível apenas na rede privada.

É muito importante que pessoas sexualmente ativas façam exame preventivo para detecção de HPV. Qualquer pessoa que faça sexo anal ou vaginal, utilizando pênis ou dedos, troca de vibradores e consolos pode estar suscetível ao vírus. Por isso, vale para mulheres cis héteros, bi e lésbicas, para homens trans héteros ou gays e para homens cis e trans gays que pratiquem sexo anal. Para pessoas que vivem com HIV, a vacina é indicada sempre.

A camisinha não previne a infecção, que se dá através do contato de lesões, muitas vezes invisíveis a olho nu. Por isso a vacina e o exame preventivo se tornam tão importantes nesse contexto.

Outras vacinas do calendário

Além dessas vacinas mais direcionadas a infecções sexualmente transmissíveis, temos ainda vacinas que previnem contra outras doenças e que tem indicação no adulto.

Trata-se da dupla adulto, que protege contra difteria e tétano. Pessoas que nunca tomaram a vacina devem tomar esquema de 3 doses, com intervalo de 2 e 4 meses após a primeira dose. Depois disso, a dose de reforço é a cada 10 anos.

A vacina de febre amarela deve ser tomada, idealmente, por todos os brasileiros. É uma vacina realizada em dose única válida por toda a vida. É importante lembrar que tal vacina é feita de vírus vivo atenuado. Por esse motivo, pessoas com imunossupressão grave, como câncer ou aids, devem ter a vacinação contraindicada. Além disso, em idosos a chance de reação vacinal aumenta, por tanto a imunização nesse grupo geralmente é contraindicada. Pessoas que vivem com HIV com células TCD4 (quantidade de linfócitos que o HIV ataca diretamente) em níveis maiores que 350 células/mm³ podem tomar vacina sem riscos de adoecerem por febre amarela vacinal. Aos alérgicos a ovo, cuidado: a vacina tem base de clara de ovo, o que contraindica a vacinação em pessoas com histórico de reação alérgica grave em relação ao alimento.

A vacinação contra sarampo, caxumba e rubéola é recomendada também para adultos em dose única. A vacina confere imunização para as três doenças (SCR). Do mesmo modo que a vacina de febre amarela, a SCR é feita de vírus vivo atenuado e tem as mesmas contraindicações que a vacina de febre amarela. Entretanto, não tem ovo na sua base de preparação, sendo liberada em alérgicos a esse alimento.

Vacinar é mais do que proteger-se. É um ato de solidariedade. De cuidado ao próximo. Evitar o seu próprio adoecimento é evitar também a transmissão de doenças para outras pessoas. É um cuidado coletivo. Em tempos de ascensão de onda de grupos antivacina, olhemos com atenção ao que os acontecimentos têm demonstrado. Como disse no início do texto, a pandemia de covid-19 só terá seu fim absoluto quando uma vacina segura, eficaz e acessível for aprovada para uso. Enquanto não temos essa vacina ideal, vamos nos prevenir das doenças acima. Vacinem-se! Protejam-se!

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Infectologista formado pelo Instituto Emilio Ribas. Atua na equipe de infectologia da Santa Casa de São Paulo e atende pacientes com hepatites e HIV pela prefeitura de São Paulo. Foi voluntário na Casa 1 no programa de atenção à saúde dos moradores e moradoras.

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