Usar uma pandemia para estigmatizar só deixa as pessoas mais vulneráveis

Assim como o HIV nos anos 80, o coronavírus surge como um castigo divino, focado também nos LGBTs

Coronavírus. Foto: AFP

Coronavírus. Foto: AFP

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Na última semana veio à tona a notícia de que um ministro de Israel, Yaakov Litzman, testou positivo para covid-19. Além dele, sua esposa também teve teste positivo. Líderes de vários países já contraíram o vírus, porém, o que chamou a atenção no caso israelense foi o seguinte: tal ministro, dias antes de contrair a doença, teria afirmado em discurso que a covid-19 era castigo divino e atingiria apenas homossexuais.

Essa afirmação na verdade não foi dita pelo ministro, mas sim pelo rabino Meir Mazuz, um importante líder da comunidade ultraortodoxa de Israel, da qual Litzman é membro. A questão aqui é que esse pensamento existe.

Esse discurso já foi visto e amplamente criticado durante a epidemia de aids no início da década de 80, quando a doença foi inicialmente chamada de peste gay ou câncer gay por muitos, inclusive pela mídia. A infecção pelo HIV, até hoje, é associada aos homossexuais, mesmo havendo grande movimento para que esse estigma deixe de existir.

Além de colocar um carimbo para uma determinada população, a estigmatização de qualquer segmento populacional desinforma. No caso do HIV, houve um imaginário global de que só gays contraíam inicialmente, o que levou muitas pessoas heterossexuais a contraírem o vírus por causa da desinformação.

Os gays, portanto, ainda sofrem muito com o estigma em relação ao HIV. Não podem doar sangue, são considerados promíscuos e muitas vezes tratados como pecadores, numa óptica religiosa sobre a existência de corpos. Logo, nada mais lógico que pecadores sejam atingidos por pestes e pragas, como já clamaram com o HIV e agora, isoladamente, com o pronunciamento de Meir Mazuz.

É intrínseco da história das doenças infecciosas a associação com castigos relacionados às religiões. De qualquer forma, as doenças de transmissão sexual têm associação direta não só com pecado, mas com promiscuidade e desvio de caráter. Foi assim com a sífilis e é assim com o HIV.

É importante que o mundo entenda as doenças com base no seu princípio científico. Usar epidemias e pandemias para estigmatizar só deixa as pessoas vulneráveis ainda mais vulneráveis. Leprosos, morféticos, aidéticos, mongóis… essas palavras não podem mais ser usadas. Associações dessa forma não devem ser feitas.

No caso da covid-19, precisamos parar também de falar em grupo de risco, pois passa a ideia de exclusão e não pertencimento ao grupo. Idosos e pessoas com hipertensão e diabetes são considerados grupos de risco para o novo coronavírus. Esse termo, além de estigmatizar, dá a falsa ideia de que o risco só paira sobre aquelas pessoas – idosos e hipertensos/diabéticos. No caso, todas as pessoas estão sob risco de adoecer por covid-19, algumas com mais chance, ou seja, mais vulneráveis, e outras com menos vulnerabilidade.

Entender que pessoas não são fatores de risco para nada mas sim as condições de vida e saúde daquele indivíduo conferem mais ou menos vulnerabilidade a um desfecho (no caso doença) é crucial para que as epidemias parem de ter um bode expiatório. O estigma, repito, serve apenas para a exclusão social, bem como perpetuação da mazela em cima das pessoas que mais sofrem com elas: as mais vulneráveis.

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Infectologista formado pelo Instituto Emilio Ribas. Atua na equipe de infectologia da Santa Casa de São Paulo e atende pacientes com hepatites e HIV pela prefeitura de São Paulo. Foi voluntário na Casa 1 no programa de atenção à saúde dos moradores e moradoras.

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