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Saúde da mulher lésbica e bissexual: por que ainda se erra tanto?

Menor prevenção significa mais doença e consequentemente maiores custos com sistemas de saúde

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Paula foi à ginecologista que frequentava há cinco anos e informou que estava se relacionando com uma mulher: deixou a consulta com dúvidas e uma sensação de humilhação e impotência após ouvir que a médica não poderia mais acompanhá-la. Marcia passou anos com um médico que nunca a examinou porque ela não tinha relação “de verdade”. Sofia achava que por não ter relações sexuais com homens não precisaria ir ao ginecologista. Quando os sintomas vieram, seu câncer já estava avançado. Paula, Marcia e Sofia são mulheres reais, com histórias idênticas a centenas de outras mulheres que, por não serem heterossexuais, não receberam a devida atenção do sistema de saúde no Brasil.

Entre as especialidades médicas, a ginecologia é a que acessa os detalhes mais íntimos da paciente e é a porta de entrada da mulher no sistema de saúde. Dessa forma, se este primeiro contato for deficiente, todos os demais atendimentos estarão prejudicados.

Com o crescente aumento das liberdades de expressão e da visibilidade da população LGBT+, tornou-se cada vez mais evidente a falta de assistência médica adequada prestada à mesma. Chama atenção também a baixa produção de educação em saúde, principalmente para mulheres lésbicas e bissexuais, o que impede que elas conheçam seus corpos, seus riscos e seus direitos sexuais e reprodutivos.

Dados recentes demonstraram que mais de 40% das mulheres que transam com outras mulheres (exclusivamente ou não) nunca realizaram um exame de Papanicolau para detecção de câncer de colo uterino, e que cerca de 60% delas acredita que não transmite ou adquire IST (infecções sexualmente transmissíveis) por não serem heterossexuais. Esses dados são particularmente preocupantes quando pensamos em saúde pública: menor prevenção significa mais doença e consequentemente maiores custos com sistemas de saúde.

Inúmeros fatores estão relacionados a essa falta de acesso e possivelmente a heteronormatividade está no topo da lista. As orientações sobre prevenção de IST se destinam majoritariamente ao uso de preservativos masculinos, o que não contempla boa parte da prática sexual entre mulheres. Outro importante fator é a grande falha na formação médica (e cursos de saúde no geral). Mesmo em programas de residência em ginecologia, a sexualidade e a diversidade sexual são assuntos que recebem pouca importância. A escassez de dados científicos sobre atendimento e estatísticas sobre o assunto torna o ensino ainda mais deficiente. Cria-se então uma situação contraditória em que o profissional precisa saber sobre as práticas sexuais da paciente para orientá-la, mas não é ensinado a fazer essa orientação.

Além disso, muitos profissionais se deixam levar por preconceitos e crenças pessoais, fazem comentários ou tem comportamentos homofóbicos. E, por medo de ser discriminada e pela falta de receptividade, a mulher passa a não expor sua orientação sexual e até a evitar os serviços de saúde.

Compreender todos esses conceitos é o primeiro passo para modificar o atendimento a mulheres que transam com mulheres. Mas é preciso compreender que toda a sociedade precisa estar envolvida nesta mudança. O preconceito surge quando existe ignorância, e a ignorância é vizinha da maldade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital

Karina Cidrim

Karina Cidrim
Médica ginecologista e obstetra pelo IMIP/PE com especialização em sexologia pela Santa Casa de São Paulo e climatério pela Unifesp. Atua como médica assistente do ambulatório de climatério e sexualidade do Hospital da mulher. Idealizadora do Instagram @saudesexual.

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